Soares merece ser lembrado pelos macaenses

por Arsenio Reis

Mário Soares, que guiou os portugueses na luta contra a ditadura e era extremamente estimado pelo povo português, deixou-nos recentemente. Partiu este presidente português que visitou Macau em três ocasiões. Esta é uma partida muito diferente de quando na sua juventude foi forçado a abandonar o país e a exilar-se no estrangeiro devido à sua oposição à ditadura, ou de quando deixou Macau após a sua terceira visita e se preparava para uma próxima. Soares partiu para sempre, deixando para trás o povo português que lutou com ele contra a ditadura militar, deixando para trás os parceiros e seguidores do Partido Socialista que com ele lutaram pelo desenvolvimento do país. Já não poderá visitar mais uma vez esta pequena cidade asiática que outrora o recebeu tão calorosamente. Deixou-nos para sempre, e connosco ficou apenas a sua memória. A sua partida deixa em muitos um sentimento de tristeza, pesar e lamento.
Soares faleceu e deixou-nos para sempre na passada semana. O governo português realizou há dois dias um funeral de Estado em sua honra, e o país inteiro está de luto.
Lu Kang, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, comentou: Mário Soares foi um extraordinário político e líder para Portugal, e foi também um velho amigo para a China. Prestou um importante contributo para a criação de relações diplomáticas entre Portugal e a China e para a resolução da questão de Macau. A China sente um enorme pesar pela morte de Soares e quer manifestar à sua família as suas sinceras condolências.
O porta-voz afirmou ainda que Portugal é um importante parceiro de cooperação da China na Europa, e que acredita que com um esforço conjunto a relação de parceria estratégica entre os dois países irá crescer ainda mais.
António Guterres, outrora primeiro-ministro de Portugal pelo Partido Socialista e atualmente secretário-geral das Nações Unidas, também elogiou Soares dizendo que foi um líder raro. Em Macau, o chefe do executivo Fernando Chui Sai-on disse na sua carta de condolência que Soares e Macau possuem uma ligação muito profunda.
Mário Soares visitou três vezes Macau, e deixou entre os macaenses uma marca profunda. Presidiu juntamente com o vice-presidente chinês Rong Yiren a cerimónia de inauguração do Aeroporto Internacional de Macau, aeroporto esse que atualmente está em contínuo desenvolvimento, e pelo qual passam todos os anos cada vez mais passageiros de todos os cantos do mundo. Presidiu as cerimónias de abertura do Tunel do Monte da Guia e da ponte da Avenida do Dr. Rodrigo Rodrigues, onde hoje passam números incontáveis de carros. No dia 16 de novembro de 1990, na sua terceira visita a Macau, presidiu ainda a cerimónia de inauguração da nova sede da TDM no Edifício Nam Kwong, e deu ainda uma entrevista em direto na qual cumprimentou todos os macaenses em chinês.
Das suas três visitas a Macau, a mais memorável foi a visita de 1990. Na altura, o governo de Macau tinha acabado de completar a “Operação Dragão” de amnistia a imigrantes ilegais em Macau, e um imigrante ilegal que não tinha conseguido registar-se a tempo aproveitou a visita de Soares e esperou a altura em que regressasse ao carro com destino ao Palácio do Governador (atual sede do governo) para lhe pedir amnistia. Embora tudo se tenha sucedido de forma repentina, constituindo um risco à sua segurança, Soares abandonou o carro e consolou o imigrante que se ajoelhava no chão, ajudando-o a levantar-se e pedindo aos seus acompanhantes que tratassem de todos os processos necessários. Neste momento, Soares não foi apenas um presidente, foi também uma figura paternal, um homem honesto, sem medo do perigo, encarando o inesperado com serenidade e tomando as ações apropriadas. Este episódio comovente sensibilizou todos os presentes, incluindo os jornalistas, deixando uma marca profunda.
Para os macaenses, Mário Soares não foi apenas um presidente português da era da administração portuguesa de Macau, mas sim um velho e bom amigo dos seus cidadãos. A foto na qual ele e a sua esposa conversam numa praia com uma rapariga em topless foi alvo de muitos comentários por parte dos macaenses. O Festival Internacional de Música de Macau, apoiado pelo casal, teve a sua esposa Maria Barroso a presidir a cerimónia de abertura da sua primeira edição. As memórias que deixa em Macau são incontáveis. Embora nos tenha deixado, não podendo por aqui passar mais uma vez, a marca que deixou entre os macaenses nas suas três visitas jamais serão apagadas. Os macaenses irão lembrar Soares.

DAVID Chan 

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