A legalização do jogo em Macau causou um enorme salto em termos de desenvolvimento económico, atraindo um número de visitantes estrangeiros na ordem dos 30 milhões todos os anos, sendo a zona do centro ocupada todos os dias por multidões de turistas e tendo-se tornado no local mais propício para o comércio. Muitas das zonas mais antigas desejam que o governo lhes faça chegar alguns dos turistas, podendo assim partilhar uma fatia deste grande bolo e promover o seu desenvolvimento com os frutos do comércio. Contudo, a zona do Monte, a uma curta distância do Largo do Senado e das Ruínas de São Paulo essenciais a qualquer turista, continua ainda hoje a ser um bairro com um quotidiano sereno e tranquilo. Sem se importar com o facto de ruas como a Rua de S. Domingos, a Rua da Palha e a Rua de S. Paulo já se terem tornado lugares que praticamente não pertencem aos seus residentes, os habitantes do Monte continuam a viver uma vida extremamente tranquila e harmoniosa.
Isto deve-se ao facto de os residentes do Monte terem desde sempre tido uma vida simples, mantendo uma relação amigável com a vizinhança e dando pouco nas vistas. Trata-se de um bairro frequentemente ignorado, exceto quando no final dos anos 50 um comerciante transformou uma fábrica de molhos na Calçada das Verdades em quatro edifícios residenciais de quatro andares (Edifício Kok Wa), dois deles servindo como dormitórios para funcionários públicos, sobretudo agentes policiais, ou quando as rotas na Calçada das Verdades são usadas para os testes de condução. Há cinquenta anos atrás, aquando da iniciativa de cooperação entre 20 bairros depois do Motim 1-2-3 (o governo da altura foi criticado pela sua abordagem insatisfatória face ao incidente, dando origem a iniciativas de autogestão pelas comunidades), o bairro do Monte foi esquecido, sendo apenas incluída a zona de S. Domingos e da Rua dos Mercadores, pois a organização da iniciativa era sobretudo constituída por comerciantes desse local.
Na verdade, a zona do Monte e arredores é muito particular. Localizando-se em baixo da Fortaleza do Monte e retirando daí o seu nome, a zona possui um Templo de Na Tcha ainda mais antigo do que aquele junto às Ruínas de São Paulo. Na Calçada do Monte existiram três escolas, incluindo a Escola Confuciana, a Escola Ngan Yip e a Escola Tzu Hui (a Escola Confuciana e a Escola Ngan Yip fundiram-se formando a atual Escola Kao Yip). Na Rua da Palha existiu a escola de Chiang Kai-shek e no cruzamento da Calçada das Verdades com a Rua do Pato existe o Centro De Desenvolvimento Infantil. Na Rua de Pedro Nolasco da Silva há a Escola Baptista, e nos anos 70 o Instituto D. Melchior Carneiro também construiu na Calçada das Verdades um campus, sendo na altura o ensino uma componente extremamente forte na zona do Monte.
Para além das escolas, o Monte teve ainda uma famosa academia de artes marciais e dança do leão, podendo por isso ser considerado um berço de talento. Perto dessa zona, na Rua de S. Domingos, Rua da Palha e Calçada das Verdades, viveram outrora importantes personalidades do governo da RAEM como Florinda da Rosa Silva Chan, Secretária da Administração e Justiça, Cheong Kuoc Vá, Secretário da Segurança, Cheong U, Diretor do Comissariado contra a Corrupção e depois Secretário dos Assuntos Sociais e Cultura, Fátima Choi, Comissária da Auditoria, e até mesmo Ao Man Long. Mesmo com o passar do tempo, os velhos moradores do Monte continuam a ser moradores do Monte. Mantêm porém uma vida simples, rotineira, aparentemente distante de tudo e todos. Embora todos os macaenses estejam a tentar revitalizar a economia da sua zona, os habitantes do Monte mantêm-se alheios, o que faz com que a zona se mantenha até hoje pouco afetada pela poluição comercial, sendo ainda o bairro mais habitável de Macau.
DAVID Chan