É uma mercearia igual às outras, de prateleiras cheias para uma clientela ausente, em tempos de crise na capital moçambicana, castigada por uma tempestade cambial, acompanhada de forte subida dos preços e um arrefecimento económico sem precedentes nas duas últimas décadas.
A Mercearia Pinto nasceu há 18 anos, coincidindo com um período em que Moçambique era apontado como o caso exemplar de um país africano pós-guerra, uma das economias de crescimento mais rápido da África Austral, com médias acima dos 7%, uma população jovem ávida de sair da pobreza e uma gama enorme de recursos por explorar.
Mas do transístor que, na falta de clientes, faz companhia a Nazir Jalá, dono da Mercearia Pinto, não chegam boas notícias.
Além da rápida deterioração das condições de vida devido à escalada dos preços, 1,5 milhões de moçambicanos enfrentam desastres naturais e insegurança alimentar, por força do fenómeno climático El Niño mais potente das últimas décadas, e o centro do país sofre as sangrentas consequências das confrontações militares entre Governo e Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), que tardam a chegar a um entendimento de paz.
“São tantas notícias más ao mesmo tempo”, comenta Nazir Jalá, enquanto atende uma criança, um dos poucos clientes que procuraram o seu estabelecimento naquela sexta-feira, um dia em que habitualmente registava casa cheia.
Para combater a crise e chamar fregueses, a Mercearia Pinto desenvolveu uma estratégia de promoção “irresistível mas ao mesmo tempo arriscada”, baixando consideravelmente o preço de vários produtos e adotando a entrega ao domicílio.
Os clientes voltaram e a promoção espalhou-se como fogo nas redes sociais. Mas depressa Jalá se arrependeu quando, para satisfazer o súbito aumento da procura e repor o “stock”, descobriu que os preços tinham disparado nos fornecedores em poucos dias
“Infelizmente, tivemos de enfrentar uma subida vertiginosa dos preços dos produtos e o negócio deixou de ser viável”, lamenta o comerciante, dando conta de que os “aumentos não são ilusórios, pelo contrário, são significativos”, acima dos 30% nas farinhas e no arroz por exemplo e até 100% noutros bens, insuportáveis para a maioria da população e para ele próprio, que receia não ter outra saída senão encerrar o negócio.
O Banco e a banca
Os preços estão a ser pressionados pela profunda desvalorização da moeda moçambicana face ao dólar, numa depreciação anual de 62,7%, mas também em relação ao euro e ao rand da África do Sul, principal fornecedor de bens a Moçambique.
Como forma de conter a inflação e a desvalorização da moeda, o Banco de Moçambique já aumentou sete vezes as taxas de juro de referência desde outubro do ano passado e, em julho, subiu-as nada menos do que três pontos percentuais de uma assentada para 17,25% nos créditos e 10,25% nos depósitos.
O Standard Bank fixou um novo limite de 500 dólares, 500 euros e cinco mil rands por mês, o Moza Banco baixou os tetos por cada operação, o Millennium bim condiciona os levantamentos acima dos mil dólares à disponibilidade de divisas, e outras entidades financeiras não mexeram nos valores máximos mas admitem fazê-lo caso a situação continue a degradar-se.
Rogério Manuel, presidente da CTA-Confederação das Associações Empresariais de Moçambique dirigiu duras críticas ao Governo, durante a Conferência Anual do Setor Privado realizada em julho em Maputo, comentando, na presença do Presidente da República, Filipe Nyusi, e dos titulares das principais pastas económicas do executivo, que o país precisa de um bom ambiente de negócios mas “acontece exatamente o contrário”.
Em pausa
Os alertas do empresário parecem encontrar eco nos indicadores do Centro de Promoção de Investimentos (CPI) relativos ao primeiro semestre, que revelam uma descida acentuada de 48% nos projetos aprovados em relação ao mesmo período do ano passado.
A China lidera o ‘ranking’ dos principais investidores, com 154 milhões de dólares, quase 60% do total do investimento direto estrangeiro, mas os projetos provenientes de Portugal, um dos principais parceiros de Moçambique, tiveram uma redução de 80%.
O investimento em Moçambique vinha conhecendo subidas expressivas nos últimos anos, mas experimentou uma forte inversão de tendência em 2015 e que se acentuou nos últimos meses. No ano passado, o CPI aprovou um total de 1,7 mil milhões de dólares em projetos, mas no primeiro semestre do ano em curso o valor fixou-se em apenas 478 milhões.
Também a ajuda externa caiu, após a revelação de avultadas dívidas de 1,4 mil milhões de dólares garantidas pelo Estado e escondidas das contas públicas, o que levou o grupo de 14 doadores do Orçamento do Estado a suspender 265 milhões de dólares em contribuições, o FMI a interromper o pagamento de um empréstimo ao executivo e os Estados Unidos, um dos maiores parceiros bilaterais, a anunciar a revisão da sua ajuda.
Perante os sinais de alarme na economia, o Governo acabou por reconhecer que as suas previsões eram demasiado otimistas e aprovou, em julho, um orçamento retificativo, marcado pela austeridade e pela revisão em baixa do crescimento para 4,5%, contras os 7% inicialmente estimados, atualizando os valores da inflação para os 16,7%, e reduzindo as reservas internacionais líquidas para uma cobertura de apenas três meses de importações.
Apesar das nuvens negras que cobrem o país, em que o INE se referiu ao mês de junho como de estagnação económica, analistas da Economist Intelligence Unit preveem uma aceleração do crescimento, numa média de 5,1% entre 2017 e 2020, ainda assim abaixo do habitual.
O país pode ainda beneficiar de mais-valias resultantes da venda de participações dos líderes dos consórcios dos dois blocos de exploração de gás natural na bacia do Rovuma, a norte-americana Anadarko e a italiana ENI, à Exxon Mobil e que poderiam ajudar a aliviar o peso da dívida pública, que, com a descoberta dos empréstimos escondidos, é de 86% do Produto Interno Bruto e considerada de risco.
Os consórcios ainda não tomaram decisões finais de investimento sobre o gás de Rovuma e as suas hesitações mantêm todo um país em pausa, tal como as paralisações de atividade de alguns dos principais operadores de carvão mineral na província de Tete, face à baixa cotação das matérias-primas nos mercados internacionais.
Sempre atrás do seu pequeno balcão e de ouvido no rádio, Nazir Jalá desespera por boas notícias e apela para “forças divinas”, na esperança de que a situação melhore e a Mercearia Pinto também, “para bem de um país que podia ter um bom futuro”.
Da “tensão político-militar” à “paz efetiva”
Os últimos meses foram marcados por confrontos entre o braço armado da Renamo e as forças governamentais, acompanhados de denúncias mútuas de raptos e assassínios políticos e emboscadas e ataques atribuídos pelas autoridades a homens da oposição no centro do país.
A guerra não declarada em Moçambique é o terceiro capítulo de uma confrontação histórica entre as mesmas partes, após a guerra civil de 16 anos, terminada em 1992, com um saldo calculado de um milhão de mortos, e de uma nova sequência de hostilidades entre 2013 e 2014, encerrada por um acordo precário de paz pré-eleitoral.
Em Maputo, Governo e Renamo tentam fechar um novo entendimento, na presença de mediação internacional, focado na descentralização e partilha de poder com a Renamo e desarmamento do maior partido de oposição.
As negociações têm sido acompanhadas pela intensificação da atividade militar e de denúncias cruzadas de crimes contras os direitos humanos.
Ainda hoje o conflito é tratado eufemisticamente como mera “tensão político-militar”, apesar de ter paralisado a economia da região centro, de um número desconhecido de mortos e prejuízos e dos persistentes clamores pela paz vindos de todos os setores e que já não basta ser paz, convencionou-se que tem de ser “efetiva”.
Henrique Botequilha com Estêvão Azarias Chavisso- Exclusivo Lusa/Plataforma