Os primeiros Jogos Olímpicos da América do Sul, que decorreram de 05 a 21 de agosto no Rio de Janeiro, deixaram um legado inesperado: um Brasil malfadado com um espírito revigorado.
Meses de crise política em torno de casos de corrupção e do polémico processo de afastamento da Presidente suspensa, Dilma Rousseff, e até de revolta por o Brasil ter de suportar o maior evento desportivo do mundo no meio de uma profunda recessão aliada a um desemprego galopante faziam prever uma generalizada indiferença entre os brasileiros. Para piorar, os Jogos despertaram o súbito interesse do grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico no país e levaram à remoção forçada de favelas e a um aumento da criminalidade. Os receios do vírus Zika e as falhas encontradas pelos atletas que foram chegando à aldeia olímpica compuseram a tempestade perfeita.
Mas, se o dia da cerimónia de abertura dos Jogos foi marcado por protestos contra o evento e contra o Presidente interino, Michel Temer, a criatividade e a alegria da cerimónia, montada com um orçamento menor do que em edições anteriores, pôs os problemas em estado letárgico. Os jornais internacionais rasgaram elogios à organização e os brasileiros imbuíram-se de orgulho nacional e de espírito olímpico, passando a acompanhar equipas e modalidades que nem conheciam.
Entre mensagens de apoio às equipas, o “Fora, Temer” pintou algumas bancadas, não sem gerar polémica. Após um torcedor ter sido retirado à força por supostamente ter gritado “Fora, Temer”, a Justiça pôs termo à polémica decidindo pela proibição de impedimentos a manifestações pacíficas.
Além de várias arenas vazias, pelo alto preço dos ingressos e pouco interesse em algumas modalidades, a postura dos torcedores brasileiros também não foi tida em conta na preparação. As vaias aos adversários podem ter ajudado a derrubar campeões, como o recordista mundial francês Renaud Lavillenie, que foi batido no salto com vara pelo brasileiro Thiago Braz da Silva, e que confessou sentir-se “humilhado” após ser vaiado durante a prova e ao subir ao pódio.
Por outro lado, o carácter humano do maior evento desportivo do mundo transpareceu, desde logo, pela criação de uma equipa de refugiados.
Além disso, o Brasil, que conquistou 19 medalhas, viu no pódio una representação dos mais excluídos na sociedade – pobres e negros – como Rafaela Silva, que sofreu uma depressão na sequência das críticas racistas que recebeu ao ser desclassificada nos Jogos de Londres, em 2012.
A alegria brasileira não podia ter acabado melhor após o ouro conquistado no futebol masculino, num jogo frente à equipa alemã, que no Campeonato do Mundo de 2014 tinha batido os brasileiros por 7 a 1.
Fora os prémios que ficaram no Brasil, o mundo lusófono conquistou uma medalha de bronze, a da judoca portuguesa Telma Monteiro. Mas o sangue português fez história, com o nadador Joseph Schooling, membro da comunidade de eurasiáticos descendentes de portugueses de Singapura, a bater o seu ídolo Michael Phelps nos 100 metros mariposa. Visto como o maior atleta olímpico de todos os tempos, com 28 medalhas, o nadador norte-americano despediu-se dos Jogos Olímpicos no Rio, tal como o carismático jamaicano Usain Bolt, que deixou uma marca sem paralelo na história do atletismo.
Já outros quatro nadadores norte-americanos levaram para casa um inquérito disciplinar, após mentirem sobre terem sofrido um assalto. Não fosse a investigação policial que concluiu tratar-se de uma briga com álcool à mistura e a mentira tinha pernas para andar. Afinal, foram vários os estrangeiros vítimas de roubos, inclusive o ministro do Desporto português, Tiago Rodrigues Brandão. Houve mesmo dois apedrejamentos contra autocarros, um deles com jornalistas.
Já Patrick Hickey, presidente do Comité Olímpico Irlandês, não precisou de se preparar para a espera de seis horas prevista para os voos internacionais no dia a seguir ao fim dos Jogos, por ter sido detido sob acusação de estar ligado a uma rede de venda ilegal de ingressos para o evento.
Para além da falta de comida e copos nas arenas, das longas filas para entrar nos recintos nos primeiros dias, o Rio 2016 ficará ainda na memória pelo misterioso caso da piscina de água verde, provocada pelo despejo indevido de peróxido de hidrogénio e pelo regresso do ‘rugby’ e do golfe à competição olímpica.
No Rio, pela primeira vez, foi permitido o uso de mangas compridas, calças e véus às jogadoras de voleibol e conquistou-se também um recorde na distribuição de preservativos – 450.000 para 10.500 atletas -, uma avalanche de proteção que quase levou ao colapso da rede de esgotos na Barra da Tijuca.
A Rússia também não esquecerá o Rio 2016, com o escândalo de doping que afastou mais de cem atletas da competição.
Para os brasileiros, o agridoce dos Jogos ainda pode estar para saborear. Em junho, a autarquia do Rio informou que os custos do espetáculo – 57% dos quais suportados por privados – chegavam a 39,07 mil milhões de reais (12, 18 mil milhões de dólares), mas o valor final deverá ser superior, dado que, por exemplo, o Governo já teve de transferir verbas para a segurança, depois de o Estado do Rio de Janeiro ter decretado calamidade pública devido à crise financeira.
Segundo a autarquia, que diz ter apostado em instalações simples e funcionais, dois terços do investimento foram para projetos de legado, que incluem uma nova linha de metropolitano, corredores de autocarros expressos, melhorias nos veículos, a revitalização da região portuária e dos arredores do Estádio do Maracanã e a construção de uma estação de tratamento de esgoto em Deodoro. Algumas estruturas desportivas serão transformadas em quatro escolas e em dois centros de treino de natação. O presidente da câmara, Eduardo Paes, frisou que nenhuma das construções do legado olímpico foi colocada numa região rica e que as linhas de autocarros expressos ligam as zonas pobres.
Contudo, académicos e movimentos sociais alertaram que as obras para o evento empurram a população mais pobre para ainda mais longe e que faltou, por exemplo, a despoluição da Baía de Guanabara e o projeto de urbanização das favelas. Haverá ainda o legado do desemprego afectando dezenas de milhar de brasileiros que trabalharam para o evento.
Para já, o Governo está otimista, pois 87,7% dos turistas estrangeiros manifestaram o desejo de voltar ao Brasil.
“Sim, voltaríamos a escolher [o Brasil]. Estes Jogos foram inesquecíveis e icónicos. Não decorreram no interior de uma bolha, mas estiveram inseridos numa sociedade com problemas sociais”, afirmou o presidente do Comité Olímpico Internacional (COI), Thomas Bach, o mesmo que, a dias do evento, pediu às delegações que não fizessem muitas exigências. Ao encerrar uns “Jogos Olímpicos maravilhosos”, Thomas Bach, falou num “milagre”.
O Rio passou no teste da funcionalidade dos Jogos Olímpicos e convenceu o público. Resta agora convencer os brasileiros de que, para lá da festa, o Brasil saiu a ganhar.
Andreia Nogueira-Exclusivo Lusa/Plataforma
