Li Keqiang explica em Davos a política e a economia chinesa - Plataforma Media

Li Keqiang explica em Davos a política e a economia chinesa

primeiro-ministro Li Keqiang respondeu a questões do presidente executivo do Fórum Económico Mundial, Klaus Schwab, após apresentar um discurso especial na cerimónia de abertura do Davos de Verão de 2016 em Tianjin. Li dialogou com alguns líderes empresariais presentes no fórum. Segue-se uma transcrição dos dois eventos. 

Klaus Schwab: Primeiro-ministro Li Keqiang, obrigado por partilhar connosco uma visão tão ampla e integrada da economia chinesa. Não devemos subestimar o desafio subjacente à liderança de uma economia tão grande. Aceitou gentilmente responder a uma ou duas questões. O primeiro-ministro descreveu as reformas estruturais e ajustamento económico da China no seu discurso especial. Acho impressionante alcançar um crescimento de 6,7%. Também partilhou connosco que esta taxa de crescimento é bastante estável, mas existem ainda pressões descendentes bastante substanciais. A minha pergunta agora é: existem medidas especiais que o governo chinês irá tomar para assegurar um desenvolvimento económico saudável e sustentável?

Li Keqiang: No primeiro trimestre do ano, a economia chinesa cresceu a 6,7%. Ao entrar no segundo trimestre, mantivemos um ritmo constante de desenvolvimento económico. Devo salientar que não se tratou de algo fácil. Tal crescimento foi alcançado quando a dimensão da economia chinesa atingiu 10 biliões de dólares americanos. Logo, o crescimento de 6,7% gerou mais produção suplementar do que um crescimento de dois dígitos há vários anos atrás. Para além disso, alcançámos tal crescimento durante uma altura de lenta recuperação económica global. Posso também dizer-lhe que, desde o ano passado, o crescimento das exportações chinesas tem em geral estado em território negativo. Temos dependido dos nossos motores internos para estimular o crescimento e do nosso mercado nacional para oferecer margem de desenvolvimento. Também alcançámos esse crescimento enquanto enfrentávamos problemas de longa data relativamente ao desenvolvimento da China.

Entretanto, não iremos subestimar as “variáveis” na economia global, nem os potenciais riscos e desafios na economia chinesa. Possuímos uma boa reserva de ferramentas políticas para nos ajudar a enfrentar vários desafios. Como disse no discurso especial, o rácio da dívida do governo central é bastante baixo e temos margem para fazer mais na implementação da política fiscal proactiva. Temos uma elevada taxa de poupança na China. Isso significa que ainda há mais que podemos fazer para seguir uma reforma financeira, aproveitar fundos existentes e melhorar o mecanismo de transmissão para o setor financeiro, servindo assim melhor a economia real. Em suma, estamos preparados com uma boa “caixa de ferramentas” macropolíticas para lidar com desafios maiores. Quando vista com base no ano inteiro e no longo prazo, a economia chinesa irá permanecer dentro do alcance adequado e manter um crescimento estável, e nós conseguiremos alcançar um equilíbrio entre o crescimento estável e o ajustamento estrutural, assim como um desenvolvimento mais sustentável seguindo reformas estruturais, especialmente reformas do lado da oferta.

Temos confiança numa tendência positiva a longo prazo para a economia chinesa. Espero que todos os empresários aqui presentes venham a ser investidores de longo prazo no mercado chinês e também uma força de impulso para essa tendência.

Klaus Schwab: Talvez com a revolução industrial, dentro de cinco ou dez anos, tenhamos microfones implantados. Permite-me uma outra questão? Mencionou a importância da quarta industrialização para o futuro da economia chinesa. Que políticas irá agora o governo chinês introduzir para aproveitar todo o potencial desta quarta revolução industrial?

Li Keqiang: Como disse no discurso especial, para ultrapassar o desafio difícil da lenta recuperação económica global, temos de abordar a questão a partir da raiz. Daí a necessidade de avançar com reformas estruturais. Este novo período de revolução industrial, ou como lhe queiramos chamar, está agora em grande expansão e é uma força que ninguém se pode dar ao luxo de ignorar.

Estamos a defender o empreendedorismo e a inovação em massa numa tentativa de soltar ao máximo o potencial de cada indivíduo. Por isso devemos valorizar a criatividade de cada um. Este é o primeiro ponto que queria referir.

Em segundo lugar, temos de implementar incentivos fiscais e tributários para apoiar a inovação e o desenvolvimento de novas indústrias. O governo central adotou uma série de medidas tributárias preferenciais e forneceu apoio financeiro. O governo municipal de Tianjin ofereceu apoio garantido e compensação de risco para o financiamento concedido a empresas orientadas para a inovação. Desta forma, as instituições financeiras, capital de risco e capital de investidores-anjo pode fornecer um apoio mais forte para o desenvolvimento de novas indústrias e a modernização de indústrias tradicionais.

Em terceiro lugar, iremos implementar políticas industriais diferenciadas para apoiar o novo período de revolução científica e transformação industrial. Iremos modernizar as indústrias tradicionais, aplicar mais rigorosos padrões ambientais, de segurança e de qualidade dos produtos para reduzir a capacidade excedentária e eliminar a capacidade desatualizada.

Feike Sijbesma, Presidente e CEO da Royal DSM: Primeiro-ministro Li, nos últimos anos, o governo chinês tem feito esforços intensos pela reforma estrutural, incluindo reformas das empresas públicas e das funções governamentais, cortes nos impostos e taxas, etc. Poderá partilhar connosco quais as prioridades nessas reformas estruturais e o progresso que a China está a conseguir?

Li Keqiang: Nos últimos anos, o governo chinês tem feito esforços árduos pelo avanço de reformas a nível geral, de forma a criar as condições necessárias para reformas estruturais e usar a reforma estrutural como contrapartida para apoiar o crescimento económico sustentado e estável. Temo-nos focado em reformas estruturais, particularmente reformas estruturais do lado da oferta para elevar a criatividade de cada indivíduo e do potencial do mercado.

Efetuamos uma reforma do sistema de registo e de avaliação do investimento das empresas. Como resultado, nos últimos anos, têm sido registadas em média 40.000 novas entidades de mercado diariamente. Mais de 13 milhões de postos de trabalho urbanos são acrescentados anualmente.

O esforço de racionalizar a administração e delegar o poder, assim como o incentivo do empreendedorismo e inovação em massa também contribuíram para o melhoramento da estrutura económica. Neste processo, as microempresas e as PME têm sido a maior fonte de novos postos de trabalho, fazendo do setor dos serviços o maior setor da economia. O consumo tem vindo a aumentar, de forma rápida e estável, e tem excedido o investimento em termos de contribuição para o crescimento do PIB.

Em segundo lugar, introduzimos reduções fiscais significativas e eliminámos as taxas administrativas desnecessárias. Isto criou uma ampla margem para as empresas crescerem, particularmente empresas emergentes. A taxa de atividade das empresas recém-registadas este ano é superior à do ano passado, situando-se acima dos 70%. As nossas políticas surtiram efeito.

Em terceiro lugar, continuámos a efetuar a reforma das empresas públicas, incluindo as de grande dimensão, para as tornar mais parcas mas mais saudáveis e para assegurar que se focam nos negócios principais, reduzem as camadas administrativas excessivas e introduzem propriedade mista de forma a melhorar a sua competitividade inerente. Estamos a criar condições e o ambiente para as empresas públicas e privadas competirem de igual para igual num ambiente justo. Isto é por si só um esforço de reforma estrutural.

Matthew Prince, CEO da CloudFlare: Primeiro-ministro Li, obrigado por se ter reunido connosco hoje. A minha empresa está a investir em infraestruturas de  por toda a China com o nosso parceiro Baidu. Fico grato pela sua observação no discurso especial sobre a importância da cloud na China. A minha questão é sobre a estratégia da China para modernizar a sua indústria do fabrico e promover o desenvolvimento da Internet, especificamente as iniciativas Made in China 2025 e Internet+. Qual será o impacto destas iniciativas? Quais serão as próximas prioridades do governo chinês nestas áreas?

Li Keqiang: A China é o maior país em desenvolvimento do mundo e é um país que ainda está em processo de industrialização. A prioridade agora é transformar e modernizar o setor do fabrico de um nível médio-baixo para um nível médio-alto. Por isso introduzimos os planos de ação Made in China 2025 e Internet+, que têm muito em comum com o tema do fórum deste ano: a quarta revolução industrial.

Em primeiro lugar, as iniciativas Made in China 2025 e Internet+ são inseparáveis. Para modernizar o setor do fabrico da China e elevar a um novo patamar os mais de 200 produtos industriais do país, cuja produção é a maior do mundo, precisamos de fazer uso da Internet, , big data e outras tecnologias para tornar a produção da China mais inteligente e mais digitalizada.

Em segundo lugar, ao modernizar o setor do fabrico da China, precisamos de usar a Internet+ para reunir profissionais e recursos a nível global de forma a oferecer soluções a vários problemas. No meu discurso especial de ontem, dei o exemplo de uma empresa local de  de Tianjin que serve o setor do fabrico. Espero que a CloudFlare não trabalhe só com grandes empresas como a Baidu, mas considere também parcerias com novas empresas de  em crescimento na China.

Em terceiro lugar, ao modernizar o setor do fabrico, devemos ser altamente sensíveis às alterações do mercado. A China é já um país de rendimento médio. A classe média tem necessidades diversas, por isso devemos assegurar que o setor do fabrico é personalizado e adequado às necessidades individuais dos consumidores. Devemos usar a Internet para obter uma melhor ideia das suas necessidades e criar os nossos produtos de acordo com isso.

Klaus Kleinfeld, Presidente e CEO da ALCOA: Tenho uma pergunta sobre a “cloud” na indústria pesada que por vezes produz muitas nuvens. Li e o seu governo têm sido muito claros na vossa abordagem da questão da capacidade excedentária. Isto tem suscitado muita atenção mediática e internacional. Uma vez que a China está a tomar medidas enormes para enfrentar a questão, como irá lidar com o impacto económico e social das mudanças?

Li Keqiang: Há momentos discutimos a “cloud” pairando no céu. Agora devemos voltar a nossa atenção para o solo e para as tradicionais indústrias pesadas. Mas a verdade é que já se está a formar uma ligação próxima entre estas duas. O  está a desempenhar um maior papel na transformação e modernização das indústrias tradicionais reunindo e analisando dados em massa para encontrar novas vias de renovar e modernizar as indústrias tradicionais. E as indústrias tradicionais são uma das bases para o nascimento e crescimento do .

Não podemos voltar as costas às indústrias pesadas. Sem as indústrias pesadas, onde obteremos os materiais para os telemóveis e outros produtos? Aquilo que estamos a fazer agora consiste em cortar a capacidade excessiva e desatualizada nas indústrias pesadas. Tal capacidade excedentária é o resultado da lenta recuperação económica global e o crescimento anémico do comércio global, por isso é uma questão global que requer uma solução global.

Existe capacidade excedentária em alguns setores na China. Estamos firmes na nossa determinação em avançar com estes esforços, não só para atender às nossas necessidades internas, mas também para fazer aquilo que devemos fazer pela comunidade internacional como grande país responsável. Quero sublinhar que a capacidade da indústria pesada da China é principalmente orientada para o mercado nacional, não para as grandes exportações.

Estamos atualmente a fazer grandes esforços para eliminar gradualmente a capacidade excedentária do aço e do carvão. Nos próximos anos, tencionamos eliminar 100-150 milhões de toneladas de capacidade excedentária de aço e 800 milhões de toneladas de capacidade de produção de carvão, envolvendo a contratação de cerca de dois milhões de pessoas. Contudo é encorajador que com o empreendedorismo e inovação em massa, as novas indústrias e novas formas de comércio tenham prosperado e criado mais postos de trabalho do que esperávamos, por isso podemos assegurar que os trabalhadores afetados não irão perder o emprego mas serão recontratados. O governo central fixou 100 mil milhões de yuans para este fim, e pediu aos governos locais para apresentarem fundos equivalentes para a recontratação e relocalização dos trabalhadores afetados.

Ao levar a cabo esta tarefa, precisamos de ser firmes com a nossa determinação e de seguir uma abordagem orientada para o mercado e com base jurídica. Sem dúvida, os direitos e interesses dos trabalhadores serão protegidos neste processo. Esta não é apenas a responsabilidade do governo chinês.

Marc Benioff, Presidente e CEO da Salesforce: Primeiro-ministro Li, é bom vê-lo novamente. Obrigado por todo o tempo que tem dedicado à conferência. A China tem um sucesso económico incrível e o primeiro-ministro descreveu o futuro plano económico da China em várias ocasiões. Gostaria de saber quais são os desafios ou obstáculos mais urgentes na economia chinesa. Estando aqui entre outros CEOs como eu, existe alguma forma de colaborarmos consigo? E como podemos ajudá-lo a eliminar esses obstáculos e desafios?

Li Keqiang: É difícil descrever em apenas uma frase o maior desafio que a China enfrenta. Enfrentamos atualmente, no mínimo, dois grandes desafios. Um é a lenta recuperação económica global, o que significa que a economia da China, que está profundamente integrada na economia mundial, enfrenta agora um contexto externo incerto e instável. O outro desafio é a interligação dos nossos problemas de longa data, o extenso modo histórico de desenvolvimento e as barreiras institucionais. Iremos focar-nos no combate aos nossos problemas internos e na boa gestão dos nossos assuntos.

A China necessita de usar a reforma e inovação para alcançar a transformação económica e um desenvolvimento sustentável e saudável. A reforma e abertura da China têm sido desenvolvidas lado a lado. Em muitos casos, a abertura pode impulsionar a reforma. Durante a transformação económica da China, a nova economia está a desenvolver-se, o setor dos serviços está a crescer e as indústrias tradicionais estão a ser modernizadas. Damos as boas vindas ao investimento de mais empresas estrangeiras e iremos facilitar ainda mais o acesso ao mercado e criar um cenário equilibrado. Quer investindo ou trabalhando em parceria com empresas locais, a esmagadora maioria dos investidores estrangeiros terá retornos razoáveis ou mesmo bastante elevados quando fizerem a contagem dos resultados totais.

John B. Veihmeyer, Presidente da KPMG: Primeiro-ministro Li, obrigado pelas suas respostas extremamente abertas, claras e diretas. Elas têm um grande valor para nós. Muito obrigado por isso. A minha questão está relacionada com os mercados de capitais. Como todos sabemos, os nossos mercados de capitais estão muito interligados por todo o mundo. Assistimos a um exemplo disso na passada semana, na sequência do voto do Brexit no Reino Unido, revelando o quão dependentes e interligados os nossos mercados de capitais são. O que pode o governo chinês continuar a fazer para fortalecer e desenvolver ainda mais os mercados de capitais e o sistema financeiro aqui na China?

Li Keqiang: É verdade que o resultado do Brexit causou repercussões nos mercados financeiros por todo o mundo. Como disse no meu discurso especial de ontem, agora é a altura de todos nós cooperarmos para fortalecer a confiança, impedir o alastramento do pânico e manter a estabilidade dos mercados de capitais globais.

No que diz respeito à China, o país fará o seu melhor para manter a estabilidade dos seus mercados financeiros internos. É desta forma que a China é capaz de contribuir para a estabilidade financeira global. Quanto às empresas, o financiamento direto apenas representa cerca de 15% do seu acesso ao financiamento. Logo, precisamos de desenvolver mercados de capitais de vários níveis.

O povo chinês há muito que tem o hábito de poupar, e as poupanças na China representam cerca de metade do PIB. Essa é uma causa do elevado rácio de alavancagem das empresas não-financeiras na China. Já tomámos medidas para diminuir gradualmente o elevado rácio desenvolvendo mercados de capitais de vários níveis, a restruturação da dívida com base no mercado, fusões e falências. Quero realçar que nos primeiros cinco meses do ano os lucros das empresas chinesas no setor industrial subiram 6,4%.

Ao desenvolver os mercados de capitais, iremos defender-nos dos riscos financeiros sistémicos e regionais e impedir a contaminação cruzada de diferentes mercados financeiros. Iremos também efetuar reformas e melhorar o nosso regime regulamentar. Este deve ser um processo orientado para o mercado e com base jurídica. Tal como a economia chinesa, os mercados de capitais na China poderão também passar por oscilações de curto prazo, que são praticamente inevitáveis. Não iremos porém permitir uma montanha russa de altos e baixos nos mercados de capitais. Resumindo, iremos continuar a desenvolver os mercados de capitais para que se tornem mais maduros e desempenhem melhor o seu papel na sustentação do desenvolvimento económico.

Klaus Schwab: Gostaria de agradecer a presença de uma delegação governamental de nível tão elevado, os estimados membros do governo que o acompanharam. Penso que vivemos todos numa comunidade global, interdependente. Por isso é do nosso interesse levar a mensagem que partilhou connosco.

Li Keqiang: Gostaria de lhe agradecer, Professor Schwab, assim como a todos os presentes pelo tremendo esforço em fazer do Fórum Davos de Verão deste ano um sucesso. Espero que todos os representantes empresariais aqui presentes possam tentar o caminho inverso: usar os detalhes nas suas respetivas indústrias para provar que a visão da China se pode tornar realidade.

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