COMBUSTÍVEIS MAIS BARATOS COM PETRÓLEO EM BAIXA - Plataforma Media

COMBUSTÍVEIS MAIS BARATOS COM PETRÓLEO EM BAIXA

 

O colapso dos preços do petróleo tem agitado a economia global. Para Macau, que precisa de importar quase tudo, esta é uma boa notícia que já fez baixar o preço dos combustíveis e das passagens aéreas. O impacto é, porém, ainda limitado, constatam especialistas, alertando para eventuais aproveitamentos do cenário por operadores do mercado.

 

Desde 2010 que os preços do petróleo rondavam os 100 dólares por barril. Em junho do ano passado, o barril de Brent custava cerca de 115 dólares, mas na primeira semana de janeiro já valia menos de 50 e desde então tem rondado esse montante.

Ondas de choque têm-se feito sentir na economia global e nos mercados financeiros. Todos são afetados: produtores, exportadores, governos e consumidores. Mas o impacto é simultaneamente positivo e negativo, dependendo da economia em causa. Consumidores e empresas saem beneficiadas em economias dependentes das importações como o Japão e os Estados Unidos, onde a gasolina tem hoje os preços mais baratos dos últimos cinco anos. Mas a história é outra para quem depende das vendas do ouro negro.

Em Macau, a desvalorização do petróleo teve reflexo quase imediato no preço dos combustíveis, que começaram a acompanhar a tendência mundial em agosto. Para abastecerem o seu carro, os automobilistas da Região pagavam, por exemplo, nesse mês, uma média de 12,19 patacas por um litro de gasolina sem chumbo, ou seja, menos 0,44 patacas do que em julho. Segundo dados dos Serviços de Estatística e Censos, em novembro, o litro da gasolina sem chumbo estava ainda mais barato, custando, em média, 11,40 patacas, o valor mais baixo desde dezembro de 2011. O mesmo se verificou com o gasóleo, que tinha em novembro o preço mais baixo (12,90 patacas por litro) desde junho de 2012. O gás de petróleo liquefeito em botija também viu o seu custo cair, mas só a partir de outubro, valendo 14,23 patacas por quilo, o melhor preço registado desde junho de 2013.

“Os preços têm descido sucessivamente durante o último trimestre, refletindo a tendência do mercado regional (…) os preços da gasolina, do gasóleo e do gás de petróleo liquefeito desceram, em média, 1,08, 0,95 e 1,38 patacas, respetivamente”, indicou o Gabinete para o Desenvolvimento do Setor Energético (GDSE) ao Plataforma Macau. Segundo o mesmo organismo, “comparativamente ao período homólogo, os spot price de Singapura [onde Macau se abastece, nomeadamente de gasóleo] baixaram 1,34, 1,28 e 1,79 patacas respetivamente, o que, tendo em conta o efeito dos volumes em stock, as variações estão correlacionadas”.

 

TÁXIS EM CONTRAMÃO

 

Combustíveis mais baratos significam à partida transportes mais baratos. O Plataforma Macau contactou a companhia de bandeira do território para confirmar esta situação, mas uma porta-voz da Air Macau indicou a impossibilidade de responder em tempo útil, dado que os altos quadros da empresa se encontravam fora de Macau.

A Autoridade de Aviação Civil explicou, numa nota enviada ao jornal, que “as companhias que servem hoje Macau estabelecem as suas taxas de acordo com as respetivas diretrizes operacionais e as práticas da indústria”. “Em operações normais, esperamos que uma subida ou descida do preço do petróleo a nível internacional leve a uma alteração na taxa de combustível”, acrescentou, sem especificar se essa situação se está a verificar no mercado local.

Mandy Cheong, gerente da agência de viagens Nova Sintra, confirmou que a taxa de combustível está em queda em todas as companhias desde novembro. “Para um voo Hong Kong-Londres da British Airways, por exemplo, a taxa de combustível rondava os 3000 dólares de Hong Kong, mas agora custa cerca de 2000”. As taxas da Air Macau também estão mais baratas, “mas pouco”. “Para Taipé, a taxa cobrada era de 980 patacas e agora é de cerca de 820”.

O deputado José Pereira Coutinho questionou o Governo no início do mês sobre medidas em prol da baixa dos preços dos transportes públicos e eletricidade, na sequência da queda do custo do petróleo. “Em 2013, o Governo aprovou que a TurboJet aumentasse as tarifas em 13%”, tendo a empresa alegado uma “subida dos custos de operação, por exemplo, o aumento do preço dos combustíveis” e acabou por ver os lucros crescerem 154% nesse ano para 165 milhões de patacas, refere o deputado numa interpelação escrita.

O GDSE indicou ao Plataforma Macau que, no caso dos jetfoils e dos táxis, “não existe mecanismo automático que ajuste as tarifas de acordo com a variação do preço dos combustíveis, no entanto, o Governo continuará atento ao seu preço e tomará as medidas adequadas quando considerar oportuno”.

Contactada pelo Plataforma Macau, a TurboJet não respondeu às questões que lhe foram colocadas sobre a matéria.

Já as tarifas dos táxis seguiram em sentido contrário ao preço do petróleo, tendo sido aumentadas a 14 de dezembro pela primeira vez desde julho de 2012. Para o economista Albano Martins, isto foi um “salto no escuro”. “Não sei se, com esta tendência, que não vai ser temporária, não seria de repensar esses aumentos substanciais nas tarifas dos táxis e não só. Mas nos transportes coletivos é mais ajustável, porque o Governo financia-os diretamente”, indicou.

O GDSE lembra que o preço da tarifa dos autocarros é subsidiado pelo Governo e fixado “com base na razoabilidade e nos encargos do cidadão comum, pelo que o custo do combustível não se encontra indexado diretamente”.

As tarifas da eletricidade não sofrem alterações com efeitos na fatura dos consumidores desde junho de 2004, quando foram reduzidas, e, apesar de os preços terem aumentado com a subida do valor do petróleo, a CEM tem assumido esse encargo, oferecendo descontos a 99% dos seus clientes, estimando, por isso, uma perda de receitas para 2014 de 167 milhões de patacas.

Albano Martins constata que o “mercado de Macau se ajusta rapidamente às alterações do preço do petróleo”. “Em regra, o mercado aí funciona, não digo que de uma forma totalmente transparente, mas funciona muito rapidamente, a não ser nos casos em que há elevados stocks e em que ainda não se consegue fazer sentir a redução dos preços”.

Ao salientar que Macau não tem grandes indústrias, o economista refere que o principal efeito da queda do petróleo a nível local é, de facto, sentido nos preços dos combustíveis e “via China, pois não nos abastecemos diretamente nas fontes, mas por intermediários”, mas reconhece que ele poderia ser mais profundo.

 

OLIGOPÓLIOS SOB TESTE

 

A inflação em Macau abrandou no fim do ano passado, tendo-se fixado em 6,12% no mês de novembro e em 5,59% em dezembro, segundo dados oficiais, que revelam ainda abrandamentos mensais desde outubro. Apesar de ser difícil assumir que esta situação está relacionada com a queda dos preços do petróleo, o presidente da Associação dos Exportadores e Importadores de Macau, Tsui Wai Kwan, sublinha que o ouro negro em baixa “ajuda a reduzir o custo de vida, uma vez que os preços dos produtos de consumo tendem a estabilizar ou a cair, o que também contribui para uma menor taxa de inflação”.

Se a maior parte dos produtos consumidos em Macau são importados e os custos de importação caem com a queda dos preços do petróleo, “a pressão sobre o aumento do custo dos bens é aliviada”, assinalou.

Albano Martins concorda que existe uma possibilidade, pelo menos teórica, de o preço dos produtos alimentares cair com o petróleo em baixa. “Mas a maior parte desses preços são controlados por oligopólios, por grandes distribuidores e não temos muita certeza de que eles praticam as regras do jogo. Este será, de facto, um bom exercício para verificar se, de facto, o fazem”, defendeu.

Entre 2004 e 2007, o preço dos bens alimentares básicos subiu a nível global cerca de 83% com a valorização do petróleo, de 30 dólares por barril em 2003 para 120 dólares em 2008, segundo dados do Banco Mundial. Esta situação está nomeadamente relcionada com o facto de a subida do preço do petróleo incentivar a compra de biocombustíveis, o que eleva o custo do milho e açúcar e faz consecutivamente aumentar a procura por arroz, elevando também o seu preço.

De acordo com Albano Martins, “a maior parte dos produtos chega a Macau via China e vai haver um espaço a partir do qual os preços poderão descer, mas isso dependerá muito da formação dos preços em Macau via China. Não sabemos se assumirão a margem como lucro e continuar a repercutir para a frente, para Macau”.

Dados oficiais indicam que o aumento dos preços dos produtos alimentares e bebidas não alcoólicas, bem como da habitação e transportes abrandou em Macau a partir de novembro.

“Mas o impacto [do preço do petróleo] no custo de vida não deverá ser substancial”, prevê Albano Martins.

Para Tsui Wai Kwan, a queda do petróleo “é benéfica para a economia de Macau, que não tem recursos naturais nem energéticos, tendo de os importar”. “Além de contribuir para uma baixa dos preços dos transportes e de custos das empresas, pode ainda levar a um aumento da despesa em bens de consumo e serviços, o que permitirá maior prosperidade com benefícios para as importações e exportações”, concluiu o também deputado.

 

DO OUTRO LADO DA FRONTEIRA E DO RIO

 

A China baixou os preços dos combustíveis sete vezes desde julho, na sequência da queda dos preços do petróleo. Em outubro, a inflação no país foi de 1,6% face ao período homólogo de 2013, o valor mais baixo desde janeiro de 2010, e em 2014, os preços na China subiram 2%, abaixo do limite de 3,5% apontado pelo Governo.

A oportunidade tem sido aproveitada pelo país para aumentar as reservas de petróleo a um menor custo. A Arábia Saudita e Angola são os países a quem a China mais compra ouro negro.

Em Hong Kong, não há estatísticas oficiais atualizadas sobre o preço médio de venda a retalho de combustíveis desde julho, mas em resposta à interpelação de um deputado, em novembro, o secretário para o Ambiente, Wong Kam-sing, afirmou que os preços caíram desde julho até 1,4 dólares por litro.

Stephen Ching, professor da Faculdade de Economia e Finanças da Universidade de Hong Kong, disse ao Plataforma Macau que a queda dos preços do petróleo “não tem tido grande impacto” na antiga colónia britânica na sequência de “algumas práticas da indústria”. “Quando o preço aumenta, existe maior rapidez no ajustamento, mas quando o preço do petróleo cai, a resposta é mais lenta”.

Apesar de as empresas alegarem vários fatores para essa situação,  o académico acredita que “há grandes operadoras com poder sobre os preços e que resistem a baixas”, procurando, “a curto prazo”, retirar vantagens do cenário internacional à custa dos consumidores.

 

Patrícia Neves

 

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