Ana Maria Correia - EDUCAÇÃO ENTRE CULTURAS - Plataforma Media

Ana Maria Correia – EDUCAÇÃO ENTRE CULTURAS

 

A cultura de origem de cada um de nós é, indiscutivelmente, um fator importante no modo como se aprende e como se ensina.

Até há relativamente poucos anos, no entanto, a educação multicultural não concitava interesse por parte dos planeadores da educação, apesar de Macau albergar comunidades e culturas diversas desde longa data. Nas carteiras das escolas sentavam-se meninas e meninos chineses, e nos corredores alunos e professores falavam cantonense, todos se entendendo na língua comum. A Macau multicultural servia para vender a cidade aos turistas, para justificar políticas e eventos de vária ordem, alguns deles envolvendo as escolas, mas estas eram basicamente monoculturais nas suas práticas diárias e nos seus curricula.

Com a chegada recente de milhares de estrangeiros, por via das alterações económicas, a sociedade transformou-se e as escolas também. Muitas famílias estrangeiras optam atualmente por colocar os filhos no ensino em língua chinesa, ao invés das escolas internacionais ou Escola Portuguesa, anunciando o seu desejo de integração profunda na cultura local. Por sua vez, a reforma educativa em curso trouxe novas exigências curriculares, entre elas o alargamento da carga horária das línguas não maternas, com a consequente abertura da escola a professores estrangeiros.

O caminho da educação multicultural está, porém, por fazer. Sem uma reflexão séria a desenvolver nas escolas, agregando pessoas provenientes de culturas e sistemas educacionais diversos, imperam o senso comum e os estereótipos. A prevalência de raciocínios maniqueístas é comum a ocidentais e orientais. Os alunos são ativos ou passivos, criativos ou copistas, interessados ou indiferentes, com espírito crítico ou “embaciado”. Estes adjectivos ouvem-se com regularidade nas conversas entre professores e, longe de intentarem a mera descrição de situações de sala de aula, contrastam ao mesmo tempo que hierarquizam.

No apetite acusatório, os professores chineses da geração jovem colocam-se ao lado dos professores estrangeiros, querendo demarcar-se das metodologias de ensino tradicionais, baseadas na obediência ilimitada ao professor, na memorização de páginas inteiras de manuais escolares, no ensino como preparação para o exame e não como preparação para  a vida. Não lhes ocorre desconstruir os mitos, desmascarar os estereótipos. Também não lhes acode o argumento dos excelentes resultados académicos dos estudantes chineses em universidades europeias e americanas, ou a felicidade que representa para um professor não se deparar com jovens de 12 ou 13 anos que se parecem em tudo com delinquentes, como acontece em culturas não asiáticas.

As razões que impedem os alunos de atingir aquele grau de excelência que supostamente já é uma realidade “no mundo ocidental” são atribuídos à “tradição confucionista”: para melhorar a qualidade do ensino e da aprendizagem é necessário que os princípios confucionistas sejam substituídos pelos da educação progressiva, centrada nos interesses individuais dos alunos. Estes devem participar lado a lado com os professores na construção da sua própria educação, motivados pelo prazer de aprender e pela alegria de o fazerem em conjunto. A educação vista como uma celebração do eu, através da expressão, das descobertas e dos resultados individuais.

A tradição confucionista articula uma proposta bem distinta. A educação visa o desenvolvimento de sete virtudes fundamentais: a sinceridade, a diligência, a resistência, a perseverança, a concentração, o respeito pelos professores, e a humildade. A sexta virtude, o respeito pelos professores (zunshi), tem sido a mais apontada como estando na origem da atitude supostamente passiva dos alunos asiáticos, comparativamente aos oriundos de culturas não asiáticas. Está intimamente ligada à virtude seguinte, a humildade (qianxu), também supostamente responsável pela ausência de sentido crítico dos mesmos alunos.

Respeitar o professor implica a aceitação de que ele é portador de uma autoridade de conhecimento, que faz com que as posições de ambos não sejam reversíveis: o aluno e o professor não são pares, mas discípulo e mestre. Respeitar o professor é condição sine-qua-non para estar receptivo à mensagem que por ele é veiculada. Aceitar o princípio da humildade, por sua vez, é aceitar, como Sócrates também advogou, no ocidente, a nossa incontornável condição de  aprendentes. Esta virtude fundamental é particularmente difícil de pôr em prática nas culturas em que os pequenos sucessos individuais são constantemente gratificados, como acontece por exemplo na cultura americana.

Nenhuma das sete virtudes, e menos ainda o respeito pelos professores ou o princípio da humildade, põem em perigo a qualidade da aprendizagem e do ensino em Macau.  Contudo, a interpretação e subsequente aplicação deturpada dos princípios confucionistas leva, em muitas ocasiões, a uma educação improdutiva, que não ensina os alunos a aprender, mas apenas a papaguear, e que cria neles aversão à escola e ao conhecimento científico em geral. Quando os professores, por inaptidão, acham que os alunos lhes devem obediência, em vez de respeito, e devem ser subservientes, em vez de humildes em relação ao saber, estão a prestar um mau serviço tanto à sua própria tradição cultural como aos estudantes.

Yzheng Liu afirmou que “sem Confúcio, não haveria cultura chinesa”. E que acontecerá à cultura chinesa se os professores continuarem a servir-se dos ensinamentos de Confúcio para justificarem a sua impreparação pedagógica? Numa escola multicultural, a visão confucionista e a visão ocidental da educação, não as suas versões desvirtuadas, têm de se dar a conhecer uma à outra, para que daí resulte um enriquecimento mútuo. Porque, sem sombra de dúvida, os professores de matriz cultural não confucionista têm tanto a aprender com os de matriz cultural confucionista como o inverso. Este é um debate que urge levar à arena pública, num momento de grande investimento na educação.

 

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