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SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE, O ALIADO LUSÓFONO DE TAIWAN

Único país lusófono a manter relações com Taiwan, São Tomé e Príncipe recebeu da ilha mais de 100 milhões de dólares em 15 anos.

 

O reconhecimento oficial de Taiwan, por São Tomé e Príncipe, em 06 de maio de 1997 terá rendido aos cofres do arquipélago cerca de 35 milhões de dólares. A decisão, assumida pelo então Presidente da República, Miguel Trovoada, dividiu na altura a classe política e, simultaneamente, gerou grande expectativa em alguns setores, dada a crónica escassez de dinheiro vivo que atingia o país. Aliás, essa é a razão que alguns comentadores dizem ter estado por detrás da decisão de romper com a China Popular, conhecida pelo controlo que exerce sobre os seus financiamentos.

Decorridos cerca de 15 anos, as injeções de capital taiwanês e o financiamento de uma série de empreendimentos em diversos setores faz com que mesmo aqueles que em 1997 se opuseram ao reconhecimento se coíbam hoje de criticar a cooperação com Taiwan.

A título ilustrativo, o MLSTP-PSD, principal força da atual coligação governamental, manteve os laços com o Partido Comunista Chinês mas nunca veio a público exigir o rompimento com Taiwan.

Estima-se que Taiwan tenha canalizado para São Tomé e Príncipe mais de 100 milhões de dólares ao longo de quinze anos.

A ausência de críticas, pelo menos públicas, resulta da forte presença de Taiwan no arquipélago e do seu apoio a iniciativas diversas que abrangem, designadamente, os domínios da saúde, da energia, da agricultura e pecuária, da educação e infraestruturas.

Um dos setores onde o peso da cooperação com Taiwan se fez sentir de forma determinante é o do combate ao paludismo ou malária, até então a maior causa de mortalidade e de morbilidade em São Tomé e Príncipe. Apesar do setor da saúde não ser aquele que exerce grande envolvimento na economia deste país, não deixa de ter o seu significado, atendendo aos dispendiosos recursos que o Estado gasta anualmente com a assistência médica e medicamentosa dos seus cidadãos – e que Taiwan apareça sempre como um parceiro incontornável.

No espaço de cerca de cinco anos, a cooperação com Taiwan logrou reduzir drasticamente os índices de morbilidade e mortalidade em São Tomé e Príncipe. Hoje, na tabela das causas de mortalidade, o paludismo situa-se na quarta posição.

Taiwan é um dos financiadores das campanhas de pulverização domiciliar, através das quais as autoridades sanitárias são-tomenses têm conseguido manter o paludismo sob controlo. Na ilha do Príncipe, o êxito foi ainda mais acentuado, encontrando-se esta ilha em fase de pré erradicação da doença.

Taiwan reabilitou e reequipou com tecnologia de ponta o banco de urgências da maior unidade hospitalar do país, o Hospital Central Dr. Ayres de Menezes, em São Tomé, um projeto orçado em mais de 1.300.000,00 dólares que já se encontra concluído, estando prevista a sua inauguração para muito em breve.

Os efeitos das relações com Taipé fizeram-se igualmente sentir no domínio da energia. Para além de um programa de assistência, os taiwaneses construíram a central elétrica em Santo Amaro, a cerca de de cinco quilómetros ao norte da ilha de São Tomé, inaugurada há três anos e cujo custo rondou cerca de 12 milhões de dólares.

A central fornece pouco mais de oito quilowatts de energia e veio diminuir a aguda escassez de energia elétrica que ainda afeta o arquipélago e que é considerada um dos maiores fatores de bloqueio do desenvolvimento do país.

Na área da Educação, o projeto mais emblemático financiado por Taiwan é a Escola Secundária Maria Manuela Margarido, o segundo maior estabelecimento de ensino secundário no país, localizado em Mé Zóchi, o segundo distrito mais populoso, situado a dez quilómetros da capital do arquipélago.

Há um ano, a embaixada de Taiwan informatizou a referida escola, fornecendo um conjunto de computadores. Do mesmo modo, Taiwan está a financiar a construção e equipamento de centros cibernéticos em todos os distritos do país, de modo a permitir aos jovens alunos acessos à internet e novas tecnologias de informação.

O setor da Agricultura e Pecuária é outra área na qual se faz sentir a forte presença de Taiwan, através do financiamento de projetos de apoio a pequenos agricultores e pescadores e de melhoramento das condições sociais de comunidades rurais, nomeadamente, eletrificação, reabilitação de casas e fornecimento de água potável.

O ministro da agricultura, António Dias, disse ao Plataforma Macau que a cooperação com Taiwan “é fundamental”, pois graça aos investimento taiwanês nesta área “tem-se podido fazer muita coisa que considerávamos impensável fazer-se recorrendo a outras parcerias”.

Atualmente, Taiwan financia dois projetos de cinco anos, sendo um sobre o desenvolvimento de culturas alimentares, avaliado em mais de 4 milhões e 800 mil dólares.

“Este projeto visa especialmente apoiar os agricultores das comunidades rurais nas produções de milho, soja, batata-doce, mandioca e matabala (uma espécie de tubérculo muito apreciado na ementa dos são-tomenses”, explicou o ministro.

Este projeto beneficia pelo menos 420 agricultores, 70 dos quais do sexo feminino.

Outro projeto tem a ver com o desenvolvimento da suinicultura. Está orçado em mais de 5 milhões de 100 mil dólares, beneficia 65 criadores de gados, 15 delas mulheres.

O que se pretende é melhorar a performance genética das raças, aumentar a produção suína, melhorar a qualidade das carnes, contribuir para a redução da importação das rações e melhorar o sistema de produção suína.

Somam-se a estes dois grandes projetos, outros de caráter social, nomeadamente a construção de secadores solares, de armazéns e reabilitação de casas de habitação e abastecimento de água e energia nas comunidades agrícolas.

“Nós temos vindo a assistir a um êxodo rural, para as cidades e por essa razão temos hoje graves problemas de saneamento básico e é por essa razão que estamos a desenvolver um projeto de reabilitação e construção das antigas casas dos agricultores”.

“Fazemos isso de forma faseada, No ano passado, Taiwan colocou à nossa disposição pouco mais de 400 mil dólares que nos permitiu melhorar as condições habitacionais das comunidades de Pinheira, Queluz, Praia das Conchas. Este ano, conseguimos redimensionar o projeto e dispomos de 800 mil dólares que vai permitir construirmos algumas casas e abastecer de água e energia em seis comunidades onde os agricultores vivem em condições sub-humanas”, disse António Dias ao Plataforma Macau.

“É uma luta contra a pobreza que nós fazemos. Essas casas eram sanzalas construídas no tempo colonial, encontram-se num estado muito avançado de degradação e se não houver alguma intervenção por parte do estado todas essas casas correm o risco de ruir e as pessoas recorrerem a capital para viver sem condições, sem trabalho e criar outros problemas para a sociedade”, explicou o ministro da agricultura.

O ministro avança que a intenção é melhorar as condições sociais das pessoas e evitar ou estancar o êxodo rural. As moradias que estão a ser reabilitadas datam dos anos 50 a 60, e até ao final deste ano o projeto prevê melhorar as infraestruturas de 10 comunidades, mas o ministro diz que o projeto é muito mais ambicioso e pretende abranger 140 comunidades, estando já a delinear uma ação orçada entre 30 e 40 milhões de dólares.

Em declarações proferidas sob anonimato, algumas vozes disseram entretanto à plataforma Macau que a ajuda de Taiwan poderia ser melhor capitalizada e ainda mais rentável ’caso não incluísse a cultura do ‘saco’azul’, ou seja, avultados montantes de dinheiro vivo disponibilizados às autoridades são-tomenses que não passam pelo Orçamento Geral do Estado e não estão sujeitos a qualquer controlo.

Para esses críticos, as relações com Taipé poderão ter contribuído para o enriquecimento de uma pequena elite mais ou menos distribuída por todas as forças políticas.

Quando visitou Taipé, o primeiro-ministro de são Tomé incluiu na sua agenda a atração de investidores privados para o arquipélago. A mesma posição foi reiterada pelas duas partes aquando da visita do Presidente taiwanês a São Tomé.

Ao nível do comércio a importância comercial dos laços com Taipé ainda é visível, havendo contudo algumas perspetivas de um relacionamento entre os agentes e operadores económicos privados.

Manuel Barros

 

 

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