No interior de um edifício residencial na zona norte de Macau, a área mais densamente povoada da cidade e onde se localiza a maior comunidade sénior, encontra-se a Escola Sun Wah.
Sem sinais exteriores que indiquem ser uma escola, o espaço de ensino acolhe reformados que frequentam aulas em salas contíguas às do jardim-de-infância e do ensino básico e secundário, partilhando espaços comuns e corredores com as crianças, um cenário que pode apontar para o futuro da educação na cidade.
Após o fim de uma aula de caligrafia, dezenas de alunos idosos exibem orgulhosamente os seus trabalhos. Entre eles está Margarida Ip, de 75 anos, antiga operária fabril que começou a frequentar aulas após a reforma. Não teve oportunidade de estudar na juventude mas, agora, os seus dias são preenchidos com várias aulas.
“Aprendo caligrafia todas as segundas e quartas-feiras, inglês às quintas, também aprendo natação de manhã, há pouco tempo tive algumas aulas de informática e quero aprender mais. Estou muito feliz”, disse Ip à Lusa.
A presidente da Escola Sun Wah, Ho U, afirmou que a instituição oferece cursos para idosos desde 2024, incluindo pintura chinesa, dança, instrumentos musicais, línguas e artes marciais. Desde então número de alunos quadruplicou, chegando agora aos 2.000.
Esta expansão ocorre numa altura em que a taxa de natalidade em Macau continua a sua queda de 11 anos. Em 2025, a cidade registou apenas 2.871 nascimentos, o valor mais baixo em quase meio século, com uma taxa de fecundidade de 0,47 filhos por mulher entre os 15 e os 49 anos, outro mínimo histórico, segundo dados oficiais.
Leia também: Fundação Macau investe milhões em educação e cultura lusófona
No ano letivo de 2025/2026, Macau tinha menos 26 turmas de creche do que no ano anterior, enquanto o número de educadores de infância diminuiu em 63, de acordo com dados citados por um deputado em abril. Em março, o único jardim-de-infância português de Macau, o Jardim de Infância D. José da Costa Nunes, reduziu o seu corpo docente de 24 para 18 professores.
Na Escola Sun Wah, o departamento de jardim-de-infância tem agora apenas três turmas, com o diretor, Ho U, a reconhecer que “alguns assistentes educativos” foram despedidos devido à queda do número de matrículas, embora cada turma mantenha ainda mais de três elementos no corpo docente.
Mas a escola também se adaptou. “Mais de dez professores do jardim-de-infância e do ensino primário vão trabalhar a tempo parcial na educação de adultos e de idosos no próximo ano letivo”, afirmou Ho U, acrescentando que “podem lecionar música, pintura, inglês, português, tecnologia e muito mais”, disse o diretor.
Para preservar postos de trabalho, a Sun Wah está a expandir o seu programa de educação para adultos e idosos. Está prevista a abertura de um novo campus no centro de Macau, com 30 turmas e um investimento superior a um milhão de patacas (106 mil euros).
O professor de caligrafia, Lei Man Wai, que pratica esta arte há 50 anos e a ensina há décadas, afirmou que ensinar reformados “é muito mais fácil do que ensinar crianças” devido à motivação e à capacidade de concentração que apresentam.
Um reformado de apelido Chang, antigo funcionário público, pratica caligrafia há nove anos desde que se reformou. “Se não estou a praticar caligrafia, estou a ler algo sobre o assunto nesse dia”, disse. Atualmente, frequenta cursos tanto na Sun Wah como na Universidade Politécnica de Macau.
O Governo de Macau oferece a cada residente com 15 ou mais anos um subsídio de 6.000 patacas (635 euros) para educação contínua. Entre 2023 e 2026, mais de 41.000 idosos participaram em diversos cursos, segundo a Direcção dos Serviços de Educação e de Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ).
O número de vagas para cursos para idosos no ensino superior de Macau “ultrapassará os 9.000 este ano”, indicou a DSEDJ, acrescentando que “a participação dos idosos continua a aumentar”.
No entanto, nem todas as escolas estão convencidas que esta mudança é necessária. A Escola Secundária Pui Va, por exemplo, tem menos duas turmas de jardim-de-infância do que no ano passado, mas seu diretor, Lei Chau Lam, afirmou que a escola “irá refletir” sobre a transformação, mas indicando que “perante a quebra da natalidade”, a escola mantém-se confiante de que continuará a operar.
Leia também: Macau vai aumentar vagas em creches e lançar programa de educação emocional
“Não acho que a transformação ajude estudantes e os pais (…).Quando fundámos a escola, começámos com apenas uma turma”, apontou. Segundo a DSEDJ, atualmente entre nove e 11 escolas estão a considerar uma fusão ou reestruturação.
Lei Chau Lam defendeu que o Governo local deveria concentrar os seus esforços em “atrair talentos, facilitar a entrada de estudantes de outras regiões em Macau ou incentivar os jovens a terem mais filhos”, considerando que “estas medidas são as mais práticas”.
Numa resposta a perguntas da Lusa, a DSEDJ afirmou que oferece apoio de transição às escolas com dificuldades em matrículas de alunos, incluindo subsídios para a transformação “em instituições de educação contínua, formação profissional ou educação para idosos”, bem como financiamento para a reconversão de professores, de modo a ajudá-los a obter acreditação profissional.
No entanto, o diretor Lei Chau Lam duvida das medidas, questionando se os professores que perdem o emprego nas escolas terão “capacidade e qualificações para ministrar educação de adultos” após apenas “algumas formações”.
O custo humano está patente na história de um professor. Bruce Lei, que lecionou chinês em escolas de Macau durante 25 anos, indicou ter perdido o emprego há dois anos devido a “falta de alunos”. Além de um curto período como substituto, não conseguiu encontrar trabalho desde então.
O antigo professor referiu que a maioria das ofertas de emprego tem limites de idade e que as escolas evitam contratá-lo porque o seu salário legalmente exigido é demasiado elevado. Teve entrevistas noutras escolas, mas “não teve uma segunda oportunidade”.
“A minha única esperança é encontrar um emprego como segurança ou esperar que a minha mãe morra para herdar a casa dela”, disse.