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Wu Li leva Macau a Veneza

A passagem por Macau de Wu Li, pintor, poeta e católico do início da dinastia Qing, inspira “Polifonia de Jacone”, exposição apresentada na Bienal de Veneza por Eric Fok, O Chi Wai e Veronica Lei. “Através desta história, pretendemos falar sobre a importância de Macau nessa época, e também sobre o que é Macau e qual é o seu significado”, explica Eric Fok

Carol Law

Com curadoria conjunta de Feng Yan e Cindy Ng Sio Ieng, “Polifonia de Jacone” foi selecionada como Evento Colateral de Macau na atual edição da Bienal de Veneza. A exposição reúne instalações, pinturas e obras de vídeo dos três artistas de Macau, tendo como ponto de partida a vida e o percurso espiritual de Wu Li.

Wu Li é reconhecido como um dos “Seis Grandes Pintores do Início da Dinastia Qing”. Depois de ser batizado, adoptou o nome de Simão Xavierus e o apelido português Cunha. O termo “Jacone”, uma transliteração de Cunha, está na origem do título da exposição.

Em 1681, Wu Li deslocou-se até Macau com a intenção de acompanhar missionários numa viagem para Roma, onde pretendia estudar teologia. A viagem não se concretizou, mas o pintor permaneceu na cidade para aprofundar os estudos religiosos. A experiência ficou registada em Sanba Ji – Colecção de Poemas de São Paulo -, onde descreveu a paisagem e o encontro entre culturas em Macau.

O Instituto Cultural convidou os curadores finalistas do Projecto de Curadoria Local da “Arte Macau: Bienal Internacional de Arte de Macau 2025” a apresentarem propostas para o Evento Colateral de Macau, China, na Bienal de Veneza, a partir das quais foi seleccionado o conceito final

Eric Fok refere que *”a coletânea de poemas retrata muitas cenas de Macau, como, por exemplo, pessoas de pele escura a dançar durante o Natal”*. Os poemas mencionam também *”as suas dificuldades nos estudos, bem como a saudade que sentia da sua falecida esposa e do seu mestre”*, entre outros aspetos.

Uma figura “anticonvencional”

Na perspetiva de O Chi Wai, a criação que agora apresentam é uma “transformação espiritual de Wu Li”. “Naquela época, ele não conseguiu chegar a Itália, mas nós levámos até Itália uma exposição sobre ele.”

Wu Li foi uma figura “anticonvencional” para a época, explica O Chi Wai. “Conhecia o budismo, converteu-se mais tarde ao catolicismo, pintava paisagens a tinta-da-china e compunha hinos católicos recorrendo à estrutura musical da ópera chinesa”.

O artista sublinha, porém, que o ponto de partida do seu trabalho não foi diretamente a “fusão cultural sino-ocidental”, mas antes “contar uma história a partir de toda a condição de vida” de Wu Li.

A obra Sigh of Migration da outra artista participante, Veronica Lei. Segundo as informações, a artista procura possíveis ligações entre a história fragmentada e os fragmentos da memória contemporânea através da sua obra, ecoando assim o processo de recuperação do sustento espiritual do indivíduo na migração cultural

Os três vídeos criados para a exposição são reproduzidos em ciclo contínuo, sem um princípio ou fim evidente e como se mantivessem um diálogo entre si. “Espero que o público, depois de ver, possa refletir um pouco”.

Eric Fok partiu de outra possibilidade: o que teria acontecido se Wu Li tivesse conseguido chegar à Europa? A partir dessa hipótese, o artista procura suscitar uma reflexão sobre Macau e sobre a importância histórica da cidade.

“Ele era um cidadão da dinastia Ming. Como intelectual sob um novo regime, poderia ter tido muitas oportunidades, mas talvez tenha sido afetado pelos atritos entre a etnia Han e os Manchus na altura. Ele não se deixava ir na corrente, o que considero uma qualidade rara”.

A presença de Wu Li em Macau permitiu também a Eric Fok revisitar o papel da cidade enquanto ponto de ligação entre a China e o exterior.

“Ele, natural de Jiangsu, veio de propósito a Macau para apanhar um barco para a Europa, porque Macau era, na altura, um porto importante no Extremo Oriente”, diz Fok ao PLATAFORMA. “Através desta história, pretendemos falar sobre a importância de Macau nessa época, e também sobre o que é Macau e qual é o seu significado”.

A Cappella Reverie de O Chi Wai. Através de um percurso de caminhada e vídeo narrativo, desenvolve uma revisitação da trajetória de vida de Wu Li e um diálogo espiritual. Ao ativar a experiência de vida transcultural de Wu Li, questiona as múltiplas possibilidades de identidade num contexto de globalização

O que fica depois de Veneza

A atual edição assinala a décima participação de Macau na Bienal de Veneza, depois da estreia em 2007. Para O Chi Wai e Eric Fok, a organização do evento em pavilhões de países e regiões permite “observar diferentes formas de apresentar identidades e culturas locais num palco internacional”.

“Vê-se as características de diferentes países; alguns são mais abertos, outros mais tradicionais”, afirma O Chi Wai. A experiência levou também o artista a refletir sobre a “continuidade” da sua criação e sobre a forma como pode “representar a realidade de Macau” através do trabalho artístico.

“Regressei há cerca de um mês e, daqui para a frente, sinto que devo pensar em como continuar a fazer criações relacionadas, ou como deverei usar as minhas obras para expressar mais a condição deste lugar”, explica.

Silent Travelogues de Eric Fok. Tomando a ausência histórica como ponto de partida central, desenvolve-se uma criação imaginativa sobre o lamento histórico da viagem não concretizada de Wu Li a Roma. Através desta pequena abertura, que transporta uma narrativa imaginária, o público vislumbra uma outra dimensão da trajetória de Wu Li

Para Eric Fok, a Bienal representa uma “oportunidade rara” para os artistas de Macau e pode contribuir para “aumentar a confiança das galerias comerciais” e dos “colecionadores” no trabalho produzido localmente. “Podem surgir muitas ligações nestas ocasiões, e os próprios criadores precisam de agarrar as oportunidades”.

O artista considera, no entanto, que o “trabalho não pode terminar com a participação na exposição”. Defende que o impacto deve ser “prolongado” através de maior cobertura “mediática, crítica e acompanhamento posterior”.

“Os festivais internacionais de arte são importantes”, diz, “mas ser visto apenas uma vez é algo que se esquece rapidamente; só nós próprios nos lembramos”.

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