Início » O Guardião na Encruzilhada: A crença em Na Tcha em Macau e os costumes relacionados com Na Tcha

O Guardião na Encruzilhada: A crença em Na Tcha em Macau e os costumes relacionados com Na Tcha

Ontem celebrou-se a Festa de Na Tcha. Todos os anos, no décimo oitavo dia do quinto mês lunar, Macau ganha vida com rituais e festividades animadas para homenagear esta venerada divindade guardiã. Atualmente, os costumes de Na Tcha estão firmemente inscritos tanto no registo nacional como no registo de Macau do património cultural imaterial. No entanto, quem é, afinal, esta figura divina?

Plataforma

Ao invocar o nome Na Tcha, para muitos, a imagem que vem à mente é a de um valente deus-criança, voando nas suas Rodas do Vento e do Fogo e empunhando uma Lança com ponta de fogo. Na Tcha é uma figura infantil da mitologia chinesa, com destaque na literatura clássica. Em “Journey to the West“, a sua relação com o “Monkey King” começa, como é sabido, em conflito, antes de se transformar em respeito mútuo; em ” Investiture of the Gods ” (Fengshen Yanyi), ele é o terceiro filho de Li Jing, o Rei Celestial Portador do Pagode e comandante militar da Passagem de Chentang.

No entanto, os estudos históricos sugerem que Na Tcha surgiu originalmente como uma divindade protetora budista, com raízes que remontam à mitologia indiana. Só após as dinastias Tang e Song é que ele foi integrado no tecido das crenças populares tradicionais chinesas, evoluindo gradualmente para se tornar uma divindade proeminente no panteão taoísta. Impulsionada pela imensa popularidade dos romances fantásticos em língua vernácula, a sua imagem icónica como uma formidável divindade infantil ficou profundamente gravada na consciência pública.

Leia também:Não há “e se” na história: a “Reforma dos Cem Dias” do Imperador Guangxu, que ficou por concretizar

Em toda a diáspora chinesa, Na Tcha é um símbolo de coragem, rebeldia e inocência imaculada. No entanto, em Macau —uma cidade caracterizada pela sua profunda síntese das culturas orientais e ocidentais — Na Tcha transcende as suas origens literárias. Há mais de um século que é um pilar fundamental das crenças populares, protegendo a população local e unindo a comunidade.

Macau, de facto, possui as suas próprias lendas populares únicas em torno desta divindade. Conta-se que, durante o início da dinastia Qing, Na Tcha se manifestou no Monte Hill (ou Shi Shan), protegendo os residentes locais, que posteriormente ergueram um santuário sobre uma rocha em sua honra. Mais tarde, durante uma peste devastadora no final do século XIX, os habitantes do Pátio do Espinho (perto das Ruínas de São Paulo) terão tido uma visão de Na Tcha num sonho. Na sequência da sua intervenção divina, a peste foi erradicada, o que levou os habitantes, gratos, a construir um templo em sinal de agradecimento. Desde então, os costumes de Na Tcha em Macau têm sido transmitidos ao longo dos séculos, não só testemunhando a evolução histórica da cidade, mas servindo também como um microcosmo por excelência da sua tolerância religiosa e pluralidade cultural.

Vizinhos no Divino: Um Espetáculo Cultural Excepcional

Embora o culto a Na Tcha seja muito difundido nas comunidades chinesas, a localização geográfica do Templo de Na Tcha, junto às Ruínas de São Paulo, é absolutamente única.

O Templo de Na Tcha é uma estrutura modesta e sem adornos, de estilo tradicional chinês. No entanto, nas suas imediações ergue-se a imponente e majestosa fachada das Ruínas de São Paulo. De um lado, encontra-se uma divindade taoísta que representa a religião popular oriental; do outro, um marco histórico monumental do catolicismo ocidental. Há mais de um século que estes dois mundos distintos partilham exatamente o mesmo pedaço de terra.

Esta impressionante justaposição de divindades orientais e ocidentais que coexistem como vizinhas não parece, de forma alguma, incongruente. Pelo contrário, constitui uma das paisagens urbanas mais cativantes de Macau. Trata-se de uma profunda expressão arquitetónica da identidade secular de Macau como encruzilhada entre o Oriente e o Ocidente: um lugar onde diferentes etnias, religiões e culturas não se limitam a coexistir, mas fazem-no com respeito mútuo e harmonia.

Manter a Chama Acesa: O Património Imaterial nas Ruas

A Festa de Na Tcha continua a ser um dos dias mais animados do calendário de Macau. Para comemorar o seu nascimento, os dois templos de Na Tcha da cidade organizam celebrações magníficas. O programa é extenso: cerimónias solenes de oração, o espetáculo rítmico das danças do leão, as tradicionais “óperas de ação de graças” apresentadas em honra dos deuses e a distribuição de “arroz abençoado” ao público, simbolizando a paz e a boa saúde.

O ponto alto indiscutível, no entanto, é a grandiosa procissão de Na Tcha, que inclui o desfile visualmente impressionante (ou Piao Se). Este ano, por exemplo, a procissão que parte do Templo de Na Tcha, nas Ruínas de São Paulo, percorre a Península de Macau e a Taipa; entretanto, o desfile que tem origem no antigo templo de Mount Hill mostra o deus-criança escoltado por dragões dourados e donzelas celestiais que espalham flores, dirigindo-se à Praça do Senado para receber a veneração dos fiéis.

Apoiadas pela sua rica ressonância histórica e pelo apoio profundamente enraizado da comunidade, as tradições do Na Tcha de Macau foram inscritas com sucesso como “Património Cultural Imaterial” em 2014 e, posteriormente, incluídas na lista de património cultural imaterial de Macau em 2019. Este reconhecimento não é apenas um aval oficial das tradições folclóricas de Macau; constituiu um impulso vital para a preservação e a continuidade desta prática ancestral.

Uma Âncora Cultural Para o Futuro

À medida que as rodas do tempo continuam a girar, Macau transformou-se de uma pacata vila piscatória numa metrópole cosmopolita de renome internacional. Arranha-céus reluzentes dominam agora a linha do horizonte, e os estilos de vida modernos evoluem a um ritmo vertiginoso. No entanto, aninhada entre os tijolos cinzentos e os azulejos verdes junto às Ruínas de São Paulo, no meio do som estrondoso dos gongos e dos tambores do festival, esta antiga fé mantém uma força vital vibrante e pulsante.

As tradições de Na Tcha, em Macau, tornaram-se há muito uma ponte cultural que liga o passado ao presente, consolidando o sentimento de comunidade e identidade da população local. Por mais que as épocas mudem, este deus-criança, sobre as suas Rodas do Vento e do Fogo, continuará, sem dúvida, a erguer-se na encruzilhada entre o Oriente e o Ocidente, vigiando silenciosamente esta cidade lendária e infinitamente fascinante.

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website