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Hengqin fora das contas

“Os residentes de Macau que se mudam para Hengqin ficam excluídos da contagem da população residente e são totalmente omitidos dos modelos de previsão”, alerta Nelson Kot. Para o analista, esta lacuna pode levar a uma subestimação crescente das necessidades de habitação, transportes e serviços públicos, precisamente quando o Governo revê o Plano Director e desvia terrenos antes destinados a habitação para projetos culturais e tecnológicos

Fernando M. Ferreira

A previsão da população de Macau para 2040 foi revista em baixa, de 808 mil para 783 mil habitantes. A nova estimativa integra a primeira alteração ao Plano Director da RAEM, atualmente em consulta pública, e serve de base a mudanças na utilização de vários terrenos dos novos aterros.

A Zona C, com cerca de 33 hectares e anteriormente classificada para habitação e comércio, deverá passar a acolher equipamentos de utilização coletiva. É neste aterro que o Governo pretende instalar o Museu Internacional de Arte Contemporânea e o Centro Internacional das Artes Performativas, integrados numa nova zona internacional de turismo e cultura.

Na Zona B está previsto o Museu Nacional da Cultura de Macau. Já terrenos da Zona E1 e da Avenida Wai Long, antes reservados a habitação, serão reclassificados para usos comercial e industrial, respectivamente, para acolher o futuro Parque Ciên-Tec de Macau.

As alterações são justificadas pelas necessidades de diversificação económica e pelos grandes projetos públicos em preparação. O Executivo prevê ainda que a área total de Macau aumente dos atuais 34,85 para 36,96 quilómetros quadrados até 2040.

Modelo deixa Hengqin de fora

Macau “há muito enfrenta uma baixa taxa de natalidade, acompanhada por um crescimento natural persistentemente fraco”. Com o envelhecimento demográfico e a integração na Grande Baía, o analista considera que “o crescimento mais lento da população e o envelhecimento demográfico tornar-se-ão normas estruturais de longo prazo”.

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Para Kot, esta mudança “alterou completamente a anterior lógica de planeamento”, mas o actual modelo de previsão não considera plenamente a crescente integração entre Macau e Hengqin.

“O atual sistema de previsão populacional de Macau tem como referência estatística a população residente dentro dos limites territoriais de Macau, abrangendo apenas as pessoas registadas como residentes locais”, afirma ao PLATAFORMA. “Os residentes de Macau que se mudam para Hengqin ficam excluídos da contagem da população residente e são totalmente omitidos dos modelos de previsão.”

Kot sublinha que a mudança de residência não significa o desaparecimento da procura por serviços em Macau. “Este grupo continua a consumir, de forma sustentada e estável, todo o espectro de recursos públicos de Macau, o que conduz a uma subestimação substancial da procura.”

A habitação é uma das áreas em que o analista identifica maior distorção. Embora a deslocação para Hengqin possa libertar casas em Macau, muitas famílias mantêm os imóveis na cidade, reduzindo a rotação do mercado.

“As projeções da oferta habitacional, no atual quadro populacional, baseiam-se apenas nos residentes que vivem em Macau e não consideram a procura adicional resultante de imóveis imobilizados e de formas de vida repartidas entre os dois lados da fronteira”, diz. Segundo Kot, esta falha provoca “uma subestimação global da procura habitacional de cerca de 15% a 25%”.

O analista estima que o desvio possa aumentar “à medida que melhoram os equipamentos residenciais em Hengqin e se mantém a diferença dos preços da habitação entre as duas regiões”.

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“Se a população transfronteiriça não for incorporada nos modelos de previsão como ‘população consumidora de recursos’, a subestimação no planeamento urbano ao longo da próxima década continuará a aumentar e poderá ultrapassar 30%”, avisa.

Menos casas, mais risco

Nelson Kot considera que a revisão do Plano Director pode “libertar potencial adicional para o desenvolvimento das indústrias cultural e turística” e “consolidar o posicionamento de Macau como Centro Mundial de Turismo e Lazer”. Em contrapartida, identifica “custos e riscos fundamentais”, sobretudo perante a redução dos terrenos destinados à habitação.

“A contração da oferta habitacional agravará a escassez estrutural de unidades residenciais essenciais para os residentes locais”, afirma, classificando este como “o risco mais crítico relacionado com as condições de vida”.

O analista aponta ainda “retornos incertos do desenvolvimento cultural e turístico, associados a um longo ciclo de recuperação do investimento público”, bem como “o risco de desequilíbrio entre os equipamentos regionais e a capacidade de carga ambiental”.

Para Kot, a revisão das projeções demográficas deve, por isso, abranger mais do que a população formalmente residente dentro de Macau.

“O Governo da RAEM deve rever os critérios das previsões populacionais”, defende. A análise, acrescenta, deve incluir “habitação, transportes, educação, equipamentos sociais, propensão para o consumo, diferenças nos preços dos bens e dos imóveis e instalações públicas” resultantes do aprofundamento da integração entre Macau e Hengqin.

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