Quando escolheu Neurociência, Lok I encontrou informação sobre as oportunidades profissionais nesta área em Macau e no Interior da China que descreve como “quase nula”. A estudante tentou também procurar um estágio, durante as férias de verão, em Hengqin, mas acabou por trabalhar em marketing, numa função sem relação com o curso.
Para Ben Wong, orientador de carreira, o Governo não deve “limitar-se a incentivar os estudantes a escolher áreas consideradas estratégicas”. A aposta nas indústrias abrangidas pela estratégia “1+4” deve ser acompanhada pela “identificação antecipada” das “competências e especializações que serão necessárias nos próximos anos”.
“Para além de disponibilizar fundos e terrenos, que rede de contatos e incentivos políticos pode o Governo oferecer?”, questiona Ben Wong. “Não podemos deixar toda a responsabilidade a cargo do mercado, porque o mercado visa o lucro; se não for rentável, não avança. Por conseguinte, o Governo tem de refletir e intervir a partir de uma perspetiva industrial macro, em vez de assumir que entregar a questão aos mecanismos de mercado fará com que as coisas se resolvam por si mesmas”.
Lok I, que frequenta o curso de Neurociência e Psicologia no King’s College London, teve em consideração as alternativas permitidas pela formação, incluindo uma “eventual transição” para áreas como a “aprendizagem automática” e a “inteligência artificial”.
A incompatibilidade entre o curso e a profissão tornou-se, na verdade, o novo normal. Isso não significa um desperdício da especialização, mas reflete a vantagem da ‘interdisciplinaridade’ – Ben Wong, orientador
A experiência em Hengqin mostrou-lhe, no entanto, que “vagas nas áreas de alta tecnologia, exceto em Inteligência Artificial, continuam a ser limitadas em Macau e na Zona de Cooperação Aprofundada”.

Cursos sem emprego garantido
“As profissões que antes eram vistas como ‘tigelas de arroz de ferro’ [emprego para toda a vida] e que asseguravam trabalho logo após a graduação estão agora altamente saturadas”, diz Ben Wong ao PLATAFORMA.
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A trabalhar na área do planeamento de carreira desde 2013, Wong acompanhou uma mudança nas prioridades dos estudantes. Antes de 2017, a maioria escolhia os cursos com base nos interesses pessoais. Nos anos seguintes, mais de 70% passaram a preocupar-se sobretudo com qual seria o curso mais fácil para ingressar na função pública.
A pandemia, a redução da natalidade e outras mudanças sociais contribuíram, entretanto, para a saturação de áreas tradicionalmente procuradas, como a educação, obrigando estudantes e famílias a rever expectativas.
Wong recorda ainda o anterior incentivo à formação de “talentos em tradução chinês-português”. Muitos estudantes com bons resultados escolheram essa área, mas “encontraram poucas vagas depois de concluírem os cursos”, num contexto em que as grandes conferências se realizavam apenas de dois em dois anos. “Parte acabou por abandonar Macau ou mudar de profissão”.
Lok I afirma que a orientação vocacional recebida no ensino secundário teve pouca utilidade prática. “Na altura, o planeamento de carreira era acumulado por um professor de Física, e o conteúdo limitava-se a fornecer perguntas de entrevistas ou as notas de corte dos exames de admissão anteriores.”
As vagas nas áreas de alta tecnologia, exceto em Inteligência Artificial, continuam a ser limitadas em Macau e na Zona de Cooperação Aprofundada – Lok I, estudante universitária
Na sua opinião, o sistema funcionava sobretudo como um “emparelhamento entre notas e cursos”, tendo a “taxa de admissão universitária como principal indicador de desempenho”.
Quando decidiu candidatar-se a Psicologia e Ciências Cognitivas, apesar das boas notas a ciências, foi questionada pelos professores por “desperdiçar as notas”. A família tentou também convencê-la a estudar Medicina, associando essa opção a “altos salários e estatuto social”.
Para a estudante, o problema prolonga-se durante a universidade, sobretudo para quem estuda fora de Macau e tem pouco contato com o mercado de trabalho local: “O planeamento de carreira na fase universitária já não deve ser unidirecional, mas precisa de interação e de informações reais”.

Lok I defende a realização de “mais seminários e feiras de emprego” que permitam aos estudantes estabelecer “contatos diretos com responsáveis dos diferentes setores”, com o objetivo de reduzir o “isolamento informativo” e oferecer uma “visão mais concreta das oportunidades disponíveis”.
Acompanhamento dos talentos
Para evitar o desperdício de recursos, Ben Wong propõe que o “Governo utilize melhor a atual base de dados de talentos” e “articule a orientação de carreira no ensino secundário com o acompanhamento dos estudantes depois da graduação”.
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No caso dos jovens que seguem no estrangeiro áreas consideradas prioritárias, sugere a criação de um “mecanismo de contato e de formação conjunta a longo prazo”.
Perante a percepção de que nenhuma formação garante atualmente um emprego, Wong considera necessário “aceitar uma nova realidade profissional”: “A incompatibilidade entre o curso e a profissão tornou-se, na verdade, o novo normal. Isso não significa um desperdício da especialização, mas reflete a vantagem da ‘interdisciplinaridade’”.
O orientador pede aos jovens formados no Interior da China, em Hong Kong ou noutros países que “não se limitem a regressar a Macau para trabalhar imediatamente após a formatura.”
“Devem ponderar trabalhar primeiro nesses mercados”, acumulando “experiência” nas respectivas indústrias. O regresso posterior poderá “ampliar as perspectivas profissionais” e trazer para Macau “conhecimentos capazes de contribuir para o desenvolvimento das indústrias abrangidas pela estratégia ‘1+4’”.