O caso voltou ao debate público na sequência das recentes decisões da Santa Sé, que endureceram a posição face a movimentos católicos tradicionalistas dissidentes. A FSSPX, fundada pelo arcebispo Marcel Lefebvre, mantém há décadas um relacionamento tenso com Roma, marcado por divergências doutrinárias relacionadas com o Concílio Vaticano II, incluindo a reforma litúrgica, o ecumenismo e a liberdade religiosa.
Foi neste contexto que Juan Fernández Krohn surgiu como uma das figuras mais extremas associadas ao movimento. Ordenado sacerdote em 1978, após formação em meios tradicionalistas ligados à FSSPX, o antigo clérigo acabaria por ser expulso em 1979, segundo a própria fraternidade, por apresentar sinais de instabilidade e posições consideradas ainda mais radicais do que as do próprio fundador.
Dois anos depois, em 12 de maio de 1982, durante uma peregrinação de João Paulo II a Fátima, Krohn tentou atingir o Papa com um sabre de 37 centímetros, num episódio que gerou forte comoção internacional e levou à sua condenação em Portugal por tentativa de homicídio.
Segundo relatos da época, o ex-padre gritou acusações contra o Concílio Vaticano II e contra o Papa, num gesto que justificou como uma tentativa de “defesa da Igreja”, tendo afirmado posteriormente querer “salvar a Igreja Católica” daquilo que considerava uma deriva doutrinária.
O ataque falhou e João Paulo II acabou por não ser atingido, tendo o agressor sido detido no local por forças de segurança e posteriormente condenado a seis anos e seis meses de prisão, pena que cumpriu parcialmente antes de ser libertado e expulso de Portugal.
Leia mais: Cisma na Igreja Católica? O que está a acontecer entre o Vaticano e a Fraternidade São Pio X
O episódio ocorreu num dos momentos mais simbólicos do pontificado de João Paulo II, poucos anos depois do atentado de 1981 na Praça de São Pedro, em Roma, aumentando o impacto mediático do caso de Fátima.
Décadas depois, Krohn continuou a justificar o seu gesto em entrevistas, rejeitando a ideia de crime e descrevendo-o como um ato político e religioso contra o rumo da Igreja pós-conciliar. Em declarações feitas já no século XXI, chegou a afirmar que não se arrependia da intenção, embora reconhecesse que não repetiria a ação.
A Fraternidade Sacerdotal São Pio X, à qual esteve brevemente ligado, permanece até hoje como um dos principais focos de tensão com o Vaticano, sendo acusada de não reconhecer plenamente a autoridade papal em matérias essenciais da doutrina católica.
O caso de Krohn continua a ser citado como um dos episódios mais extremos associados aos movimentos tradicionalistas radicais do final do século XX, num percurso marcado por rutura, expulsão e condenação judicial.