José Mourinho nunca teve medo de voltar aos palcos onde já foi feliz. Ao longo de uma carreira pautada pela intensidade, títulos e “casos” memoráveis, o técnico já regressou ao Benfica, ao Chelsea e, agora, ao Real Madrid. O registo, como sempre, é bem mais complexo do que o próprio gostaria de admitir.
Benfica: O pontapé de saída (2000) e um regresso invicto (2025/26)
A estreia de Mourinho como treinador principal aconteceu de águia ao peito, sucedendo a Jupp Heynckes no ano 2000. A aventura durou uns curtos 11 jogos (seis vitórias, três empates, duas derrotas e zero títulos), com o setubalense a bater com a porta devido a divergências com a estrutura diretiva do clube.
Passados 25 anos, o regresso consumou-se com contornos de pura ironia: em setembro de 2025, logo após o Benfica ter eliminado o seu Fenerbahçe nas pré-eliminatórias da Liga dos Campeões, os encarnados fecharam a sua contratação.
Nesta segunda passagem pela Luz, Mourinho não vacilou na Primeira Liga e terminou o campeonato sem qualquer derrota, embora tenha saído sem levantar nenhum troféu nacional ou europeu. Ainda assim, a campanha na Liga dos Campeões deixou uma marca que os adeptos do Benfica não vão esquecer tão cedo: uma vitória categórica por 4-2 frente ao Real Madrid na fase de liga, carimbada com um golo memorável de cabeça do guarda-redes Anatoliy Trubin, aos 97 minutos.
Chelsea (2004-2007): A bitola do sucesso
Mourinho aterrou em Stamford Bridge em junho de 2004 com o estatuto de campeão europeu pelo Porto. Logo na apresentação ao país e ao mundo, autoproclamou-se o “Special One”. Passou das palavras aos atos e, logo na época de estreia, quebrou um jejum de 50 anos ao dar o título de campeão inglês ao Chelsea (com um recorde de 95 pontos e 15 golos sofridos – um recorde defensivo da Premier League que ainda não foi quebrado).
Leia mais sobre o assunto: Rui Costa: “Mourinho era o treinador que eu queria, mas apareceu o Real Madrid e ele tomou outra opção”
O timoneiro natural de Setúbal revalidou o título na temporada seguinte e, em três anos em Londres, somou ainda uma FA Cup, uma Community Shield e duas Taças da Liga. Acabou por sair em setembro de 2007 “por mútuo acordo”, na sequência de braços de ferro com o proprietário Roman Abramovich. No plano europeu, o Chelsea atingiu as meias-finais da Champions por duas vezes neste período.
Real Madrid (2010-2013): Recordes, mas sem Champions
Contratado pelo emblema do Bernabéu no verão de 2010, Mourinho tinha a missão de travar a hegemonia do Barcelona de Pep Guardiola, tanto em Espanha como na Europa. O técnico luso conquistou três troféus em três épocas: a Taça do Rei em 2011 (pondo fim a um jejum merengue de 18 anos na prova), a “Liga dos Recordes” em 2012 e a Supertaça de Espanha em 2013.
Contudo, a tão desejada Liga dos Campeões fugiu-lhe por entre os dedos nas três tentativas. Os madrilenos caíram sempre nas meias-finais: contra o Barcelona (2011), o Bayern de Munique (2012) e o Borussia Dortmund (2013). Esta última eliminação ditou a sentença de morte da sua liderança. “Esta foi a pior época da minha vida”, desabafou Mourinho aos jornalistas.
Leia mais sobre o assunto: Benfica confirma entrada de Marco Silva e saída de José Mourinho
Por essa altura, o balneário estava em polvorosa, com rumores de ruturas com Iker Casillas, Cristiano Ronaldo e Sergio Ramos. Dois dias após o adeus à Champions, Florentino Pérez anunciou a rescisão de “mútuo acordo”, embora Mourinho sempre tenha batido na tecla de que saiu pelo próprio pé.
“Devo ser um dos poucos treinadores que sai do Real Madrid sem ser despedido”, atirou à imprensa na antevisão do embate entre o Benfica e os merengues, já em 2026. “Quando sais por decisão própria não tens de estar com inveja. Saí com a alma completamente limpa”, rematou o então timoneiro das águias.
Chelsea (2013-2015): Do céu ao inferno
O “filho pródigo” regressou a Stamford Bridge em junho de 2013, nove anos após a sua primeira apresentação. A época de estreia correu em branco (terceiro lugar alcançado na Premier League e meias-finais da Champions). Já a segunda temporada foi de vento em popa, com a conquista da Taça da Liga em março de 2015 e o título da Premier League em maio (o primeiro dos Blues desde que Mourinho tinha saído).
O que se seguiu foi uma queda livre sem precedentes. Mourinho renovou por quatro anos em agosto de 2015, mas em dezembro já estava de malas feitas. Foi demitido depois de o Chelsea perder nove dos primeiros 16 jogos no campeonato, deixando a equipa à beira da linha de água, com apenas um ponto acima da zona de despromoção.
O regresso a Madrid: “Quero os melhores jogadores”
Mourinho foi confirmado como o novo timoneiro do Real Madrid para a época 2026/27, regressando àquela que sempre considerou o expoente máximo do futebol mundial. Numa conversa com Adebayo Akinfenwa, o técnico português desvalorizou por completo os rumores de que iria fazer uma “limpeza de balneário” devido às polémicas da última temporada.
“Tenho lido coisas que dizem que o José vai chegar e encostar alguns dos melhores jogadores por terem tido alegados problemas durante a época. Nada disso, eu quero esses jogadores comigo, quero os melhores”, garantiu. “O meu trabalho é encontrar uma forma de criar uma equipa unida e evitar os problemas que, pelo que li, se viveram nas épocas passadas”.
Questionado, em tom de brincadeira, sobre as férias e o rendimento dos internacionais do Real Madrid no Campeonato do Mundo, atirou com o seu habitual pragmatismo: “Querem a verdade? Quero mais é que os jogadores do Real Madrid percam cedo e vão de férias. Porque preciso deles para a pré-época”.