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EUA e Irão trocam novos ataques. O que resta das negociações para travar a guerra

Os Estados Unidos e o Irão realizaram novos ataques pelo segundo dia consecutivo. A escalada militar coincide com tentativas de manter abertas as negociações para pôr fim ao conflito

AFP

Os Estados Unidos lançaram novos ataques contra o Irão na quinta-feira, levando Teerão a retaliar, enquanto responsáveis norte-americanos acusavam os seus homólogos iranianos de arrastarem as negociações para um acordo destinado a pôr fim à guerra que dura há três meses. O segundo dia consecutivo de ataques mútuos, com o Irão a visar bases norte-americanas em toda a região do Golfo, voltou a fazer subir os preços do petróleo.

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que repetidamente afirmou que as negociações com Teerão estavam perto de ser concluídas, declarou na quarta-feira que o Irão continua a “fazer de nós tolos” e que agora “terá de pagar o preço”.

Poucas horas depois, o Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM) anunciou que as forças norte-americanas iniciaram “ataques adicionais de autodefesa” às 17h15 de quarta-feira, hora de Washington – já madrugada de quinta-feira no Irão – em resposta ao que classificou como a “agressão injustificada e contínua” de Teerão.

Os meios de comunicação iranianos relataram explosões em várias zonas do sul do país, junto ao Estreito de Ormuz, tendo sido ouvidas detonações em Bandar Abbas, Qeshm e Minab, enquanto fontes locais reportaram impactos de “projécteis inimigos” em Kargan e Sirik.

Leia também: Donald Trump acredita que em dois ou três dias haverá acordo

O CENTCOM informou posteriormente ter “concluído” os ataques contra “capacidades militares de vigilância, sistemas de comunicações e posições de defesa aérea iranianas”.

As forças norte-americanas “utilizaram munições de precisão contra alvos iranianos que representavam uma ameaça para as forças dos EUA e para navios comerciais internacionais que transitavam nas águas da região”, afirmou o comando. A renovação das hostilidades ocorreu depois de o secretário da Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, afirmar que, se Trump assim o exigisse, “negociaremos com bombas, e somos muito bons nisso”.

Em resposta aos ataques norte-americanos, os Guardas da Revolução Islâmica do Irão anunciaram ter atingido alvos dos EUA em bases no Kuwait e no Bahrein, além de terem “atingido e destruído as bases aéreas de Sheikh Isa”, segundo a agência estatal IRNA.

Os meios de comunicação iranianos indicaram que o exército realizou ataques com drones contra antenas de comunicações e instalações de radar pertencentes à Quinta Frota norte-americana no Bahrein. Foi emitido um alerta de ataque aéreo no Bahrein, e os residentes foram instados a “dirigir-se para o local seguro mais próximo”, informou o Ministério do Interior do país do Golfo na rede social X.

Uma imagem extraída de um vídeo divulgado pelo Comando Central dos EUA (CENTCOM) a 11 de junho de 2026 mostra o que as forças armadas afirmam serem ataques dirigidos contra «as capacidades de vigilância militar, os sistemas de comunicações e as instalações de defesa aérea do Irão». (Foto: CENTCOM / AFP)

O Kuwait encerrou temporariamente o seu espaço aéreo, enquanto as forças armadas anunciaram que os sistemas de defesa aérea estavam a operar para intercetar “alvos aéreos hostis”.

O Irão renovou também os avisos relativos ao Estreito de Ormuz, uma via marítima vital para o transporte de petróleo e gás que Teerão mantém praticamente encerrada. “Estão a tornar inseguro o sagrado Estreito de Ormuz?! Transformaremos a região num inferno para vocês”, escreveu Majid Mousavi, comandante da força aeroespacial dos Guardas da Revolução, numa publicação nas redes sociais.

A marinha iraniana afirmou ter atingido dois navios que tentavam atravessar o Estreito de Ormuz, segundo a televisão estatal IRIB e a agência Mehr. Outra agência iraniana, a Tasnim, citou o comando operacional militar do país, segundo o qual a estratégica via marítima estava “completamente encerrada” e que “qualquer embarcação” que ali circulasse seria alvo de ataques.

O CENTCOM negou essa informação, afirmando que “os navios comerciais continuam esta noite a entrar e a sair do Estreito de Ormuz”. Trump afirmou na quarta-feira que as forças armadas norte-americanas ajudaram secretamente a fazer passar 100 milhões de barris de petróleo através da disputada rota marítima.

“Bombardeá-los até ao fim”

Mais cedo, a cadeia televisiva norte-americana Fox News noticiou que Trump afirmou que os líderes iranianos lhe telefonaram diretamente para a Sala de Situação da Casa Branca quando as bombas norte-americanas começaram a cair. Os Guardas da Revolução apressaram-se a negar essa informação, segundo a agência IRNA.

Trump afirmou que as forças dos EUA atingiram o Irão com 49 mísseis Tomahawk e que alguns dos alvos estavam a apenas 64 quilómetros de Teerão, informou a Fox News. O jornalista Trey Yingst, que falou com Trump, citou o Presidente norte-americano dizendo que, se o Irão não aceitasse as condições dos EUA para terminar a guerra, “amanhã à noite vamos bombardeá-los até ao fim”.

Foi o segundo dia consecutivo de ataques norte-americanos, após uma série de ações de retaliação esta semana, em parte motivadas pelo abate de um helicóptero dos EUA pelo Irão.

A nova vaga de ataques ocorreu depois de Trump se queixar de que os negociadores iranianos estavam a demorar demasiado tempo, apesar de ter sugerido anteriormente esta semana que um acordo estava a poucos dias de distância. “Atacámo-los duramente ontem. Vamos voltar a atacá-los duramente hoje”, disse Trump aos jornalistas na manhã de quarta-feira. “Estávamos muito perto de um acordo, mas eles continuam a fazer-nos perder tempo.”

Hegseth sugeriu que os ataques poderiam prolongar-se por uma terceira noite, afirmando que seriam “fortes” e “claros”. A escalada provocou apelos internacionais à contenção na véspera do Campeonato do Mundo de Futebol, que os Estados Unidos coorganizam e no qual o Irão participa.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, alertou para o risco de um regresso à “guerra total”. Por sua vez, o embaixador iraniano junto da ONU, Amir Saeid Iravani, rejeitou as ameaças de Trump, afirmando que “nenhum acordo sustentável pode ser alcançado através de ameaças, intimidação ou uso da força”.

Ainda assim, a via diplomática não colapsou totalmente. Negociadores do Qatar deslocaram-se a Teerão “para se reunirem com os iranianos numa tentativa de ultrapassar as divergências remanescentes”, disse um diplomata com conhecimento da situação.

A guerra começou em fevereiro, com ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, alterando o equilíbrio geopolítico no Médio Oriente e provocando turbulência nos mercados globais antes da entrada em vigor de um cessar-fogo, a 8 de abril.

As bolsas asiáticas acompanharam as perdas registadas em Nova Iorque, enquanto os preços do petróleo subiram até 2% na quinta-feira, prolongando os ganhos semelhantes observados no dia anterior.

O Irão tem igualmente insistido que qualquer acordo para pôr fim à guerra deve incluir uma trégua no Líbano, envolvido no conflito depois de o Hezbollah, apoiado por Teerão, ter lançado foguetes contra Israel a 2 de março.

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