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Mais Cultura, Menos “Decoração”

Nos mapas minuciosos de Eric Fok, o passado e o presente de Macau sobrepõem-se em camadas de memória, ruína e transformação. Mas, para o artista, a questão não é apenas estética: é também “política”, numa cidade onde a arte continua muitas vezes a servir de “decoração”, e não de base para uma verdadeira indústria cultural

Inês Lei

Eric Fok desenha Macau como quem procura uma cidade dentro de outra. Nos seus trabalhos, as naus portuguesas do século XVI cruzam-se com casinos, igrejas, néon e arranha-céus; o passado e o presente surgem no mesmo plano, sob a forma de mapas antigos reinventados. “Ao ver um mapa antigo atrás de outro, comecei a pensar: então Macau era assim, porque é agora completamente diferente?”

É nesse gesto – olhar para a cidade e tentar perceber o que ficou, o que desapareceu e o que foi acrescentado – que assenta grande parte da obra do artista. Conhecido pelo seu estilo de “mapa antigo”, Fok diz que o desenho começou muito cedo: “Na verdade, gosto de desenhar desde criança. Como muitas crianças, adorava ver desenhos animados, e queria muito ter aquelas figuras. Para além de comprar brinquedos, também queria desenhá-los para os registar”.

Numa altura em que a arte não era vista como um percurso óbvio, era ali, porém, que encontrava segurança. “Eu não era particularmente bom nas outras disciplinas na escola; a minha melhor disciplina era arte. (…) A arte era a única disciplina que me dava confiança”.

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A mudança deu-se no ensino secundário, quando conheceu o escultor Wong Ka Long através do programa de verão “Snowball Project”. “Nele, vi que estudar arte podia tornar-se uma profissão. Quando o conheci, passei a ter um sonho”. Mais tarde, estudou artes visuais na Universidade Politécnica de Macau, enquanto trabalhava a tempo parcial num museu. “Fui muito feliz nesse período”.

Entender a arte

Com o tempo, o desenho deixou de ser apenas prática e tornou-se também reflexão. “A arte não é apenas voltar a pintar uma cena, não é apenas reproduzi-la. Há muita filosofia e muita base teórica envolvidas. Mais tarde, ao criar arte, percebi que havia muitas coisas que eu não entendia”.

 Esse reconhecimento levou-o a prosseguir estudos em Taiwan e, antes disso, em Florença, onde estudou restauro de pintura a óleo. Sair de Macau permitiu-lhe ganhar distância: ver a cidade “como um outsider”, nas suas palavras.

A linguagem visual que hoje o distingue nasceu, em parte, de uma viagem a Malaca, em 2011. “Eu e um amigo fomos a Singapura por acaso. Não sabíamos nada sobre o lugar e não tínhamos planeado o itinerário.” A passagem por Malaca e pela Fortaleza de Santiago fê-lo pensar na forma como as cidades acumulam camadas e memórias. Ao mesmo tempo, Macau transformava-se rapidamente. “Ver a rapidez com que os casinos mudaram Macau, com tantos táxis e turistas”, recorda.

Mais tarde, ao aceitar um trabalho que implicava desenhar um mapa antigo, mergulhou em documentos históricos e cartografia antiga de Macau. A partir daí, o mapa deixou de ser apenas referência visual e tornou-se método. “Absolutamente, absolutamente muito”, responde, quando lhe perguntam sobre o peso da investigação na criação. “Porque sem essa base, sem esse contexto, eu não poderia ter pintado aquela imagem”.

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Fok fala de leitura constante, de pesquisa histórica, de trabalho de campo. “Porque, no passado, ninguém no sistema educativo de Macau te falava da história de Macau”. E acrescenta: “Depois de compreender a história da cidade, senti de repente que aquele lugar era muito especial. Um lugar pode ter tantas histórias”.

Essa investigação passou também a moldar o equilíbrio interno das obras. “No início, a tónica estava na estética e na composição, tentando considerar as coisas a partir de vários ângulos. Agora, ambos estão presentes, mas a proporção varia com o tempo. Neste momento, a estética e o conteúdo representam cada um cerca de metade”.

Ao longo dos anos, porém, o próprio artista foi sentindo necessidade de alargar o foco. “Na verdade, podem nem estar interessados em Macau em si. Muitas pessoas podem sentir-se atraídas porque a minha arte tem um carácter regional. Também preciso de pensar em como falar de Macau e, ao mesmo tempo, envolver públicos de diferentes lugares”.

E admite: “Já falo de Macau há tantos anos que começo a ficar um pouco aborrecido. Também estou a pensar em que outros aspetos podem ser explorados”.

Políticas contraditórias

A dimensão política entra precisamente aí: na forma como a cidade muda, nas tensões do turismo, nos limites do mercado artístico e no modo como a cultura é apoiada. “Da indignação juvenil inicial? Agora vejo muitas políticas que não consigo compreender, é muito contraditório”.

Quando fala do turismo, a tensão volta a aparecer. “Se eu estivesse no setor do turismo, claro que ficaria contente; mas se mais de 40 milhões de pessoas estiverem todos os dias nas ruas perto de tua casa a tirar fotografias, e tiveres de gerir multidões quando regressas a casa, então os residentes locais serão afetados. Encontrar um equilíbrio é realmente difícil”.

Essa mesma dificuldade de equilíbrio surge quando fala da sobrevivência dos artistas em Macau. “Há compra e venda de arte; as pessoas em Macau compram pinturas, mas isso ainda não se tornou uma tendência, nem uma atividade à escala de uma indústria. São apenas algumas compras e vendas esporádicas”.

Para Fok, o problema não se resolve apenas com projetos avulsos. “Se estivermos a falar puramente de compra e venda, é preciso haver apoio político ou cooperação entre o setor privado e o Governo.”

“O Governo também está constantemente a desenvolver muitos projetos ou a revitalizar zonas antigas. Mas parece que a arte é usada para… embelezamento, mais para decoração do que para criação verdadeira. Parece haver menos foco na criação ou no desenvolvimento da indústria. Acho que o mais importante é a política – como podem as políticas ajudar a criar uma indústria?”

Entre a investigação e o desenho, entre o arquivo e a cidade vivida, Eric Fok continua a trabalhar nesse cruzamento. “Gosto de estar sentado no meu atelier a pintar, mas, ao mesmo tempo, preciso de absorver de todos os lados.” Talvez seja essa a lógica mais fiel da sua obra: olhar para Macau como um mapa em aberto, ainda por decifrar.

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