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Japão reativa centrais nucleares apesar do legado de Fukushima

Quinze anos após o desastre nuclear de Fukushima, o Japão continua dividido entre a memória da catástrofe e a necessidade de garantir o abastecimento energético

Lusa

O Japão está a reativar gradualmente centrais nucleares, 15 anos após o desastre na central de Fukushima Daiichi, ocorrido em 11 de março de 2011 após um forte sismo de magnitude 9 e tsunami, provocando mais de 20 mil mortos e desaparecidos. O processo, conduzido pelas autoridades em Tóquio sob regras de segurança mais rigorosas, visa reforçar a segurança energética e reduzir a dependência do petróleo importado.

Na central de Fukushima, quatro dos seis reatores ficaram destruídos. As fugas radioativas contaminaram o mar e extensas áreas de terra, obrigando à evacuação de centenas de milhares de residentes e tornando impossível o regresso à normalidade durante anos.

O desastre continua a marcar profundamente as comunidades locais. “Ainda sentimos raiva, tristeza e vazio”, disse Isuke Takakura, sobrevivente do tsunami e residente em Futaba, durante um encontro com jornalistas organizado pelo Ministério do Ambiente.

Apesar desse legado, a operadora Tokyo Electric Power Company (TEPCO) reativou recentemente a maior central nuclear do mundo em termos de capacidade, a Kashiwazaki-Kariwa, situada na região de Niigata, e prepara-se para retomar o fornecimento comercial de eletricidade.

O arranque da unidade seis desta central tem gerado críticas de alguns residentes e ativistas. “Não há nenhum país que coloque centrais nucleares numa zona tão perigosa, onde há muitos terramotos”, afirmou Tamotsu Honma, vizinho da instalação e conhecido crítico do projeto.

Depois do desastre de 2011, o Japão reviu profundamente a sua política nuclear e reforçou as regras de segurança. Muitos reatores foram encerrados ou colocados sob revisão técnica.

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Antes da catástrofe, a energia nuclear representava cerca de 25% da produção elétrica japonesa. Atualmente, essa percentagem ronda os 10%, lembrou o académico Masahide Takahashi num artigo recente para a Fundação Sasakawa Peace.

De acordo com a Organização Internacional de Energia Atómica, o Japão reativou até agora 14 reatores, enquanto 19 continuam suspensos e 27 estão em processo de desmantelamento.

Para alguns analistas, a reativação da central de Kashiwazaki-Kariwa indica uma mudança gradual na política energética do país.

As tensões internacionais também pesam neste debate. A guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irão perturbaram os mercados energéticos e representam um alerta para um país que importa cerca de 90% do petróleo do Médio Oriente.

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Ainda assim, a recuperação nas zonas mais próximas de Fukushima continua lenta. Em algumas localidades, apenas uma pequena parte dos antigos residentes regressou após o levantamento das ordens de evacuação.

Na região, milhões de metros cúbicos de solo contaminado retirado durante os trabalhos de descontaminação continuam armazenados temporariamente, devendo ser removidos até 2045, embora ainda não exista um destino definitivo.

Futaba, último município da prefeitura a reabrir aos residentes em 2022, é um exemplo das dificuldades. Antes do desastre tinha cerca de 7.200 habitantes; hoje restam apenas cerca de 190.

Mesmo assim, as autoridades locais procuram revitalizar a região com novos projetos, incluindo um museu memorial, um parque comemorativo e iniciativas turísticas junto à costa.

Para Takakura, o desastre continua a ter lições para todo o mundo. “Não é apenas um problema do Japão”, afirmou, “é uma realidade para todos os países que têm centrais nucleares”.

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