No final de janeiro, o CURB – Center for Architecture and Urbanism lançou o livro Guide to Neon Signs in Macau, a primeira publicação dedicada a documentar e homenagear de forma abrangente os letreiros de néon de Macau.
A autora, Filipa Simões, diz ao PLATAFORMA que o néon é “parte intrínseca da cultura visual local”, sublinhando que a conservação não deve focar-se apenas no registo documental, mas também numa “preservação física seletiva”, reconhecendo o próprio “conhecimento artesanal do néon como património imaterial”.
Após a publicação em 2024 do Guide to Macau Street Art, que documentou a arte do graffiti local, a designer colaborou com Wilson Kam para publicar o Guide to Neon Signs in Macau.

Filipa Simões, que reside em Macau desde 2004, explora há muito a identidade visual da cidade, as paisagens do quotidiano e o significado cultural por trás das suas ruas, explica ao PLATAFORMA que esta publicação tem três objetivos principais.
Os letreiros de néon de Macau estão inseridos num tecido compacto e de alta densidade de ruas sobrepostas, onde múltiplos elementos competem num espaço limitado, criando um ambiente imersivo – Filipa Simões, autora e designer
Primeiro, documenta os letreiros de néon de Macau num “momento em que estão a desaparecer rapidamente”, à medida que a tecnologia LED substitui o néon e os artesãos tradicionais se reformam.
Segundo, funciona como um “guia de navegação” que permite aos residentes e visitantes localizar e interagir diretamente com os letreiros sobreviventes, “aumentando a consciência pública e incentivando a exploração” de diferentes áreas da cidade.
E por último, “procura reforçar o reconhecimento do néon como património urbano, contribuindo para discussões mais amplas sobre o que deve ser preservado à medida que as cidades evoluem, e mantendo a visibilidade não apenas dos próprios letreiros, mas também da dimensão cultural que representam”.
Leia também: Instituto Cultural abre candidaturas para o Desfile Internacional de Macau
Filipa, atualmente doutoranda em Design na Escola de Arquitetura da Universidade de Lisboa, considera que Macau e Las Vegas têm semelhanças, particularmente porque ambas são cidades de Jogo que utilizam gráficos urbanos e iluminação para gerar visibilidade e espetáculo. No entanto, nota que a condição urbana de Macau é muito diferente.
“Ao contrário da expansão orientada para o automóvel de Las Vegas, os letreiros de néon de Macau estão inseridos num tecido compacto e de alta densidade de ruas sobrepostas, onde múltiplos elementos competem num espaço limitado, criando um ambiente imersivo. Em Macau, os letreiros de néon foram concebidos para ser vistos à distância de caminhada e não à velocidade de autoestrada, resultando numa experiência mais íntima para o observador”, explica.
O néon proliferou em Macau durante a segunda metade do século XX, já que, naquela época, a “indústria do Jogo local expandiu-se e a cidade posicionava-se nos circuitos regionais de entretenimento”.
Néon cultural
A competência artesanal envolvida, juntamente com as restrições formais da tecnologia – exigindo linhas contínuas formadas por tubos de vidro curvados – moldou a estética distintiva do néon, tornando-se num “instrumento fundamental de visibilidade comercial e presença urbana”, diz Filipa Simões.
“Em Macau, tal como em Hong Kong, esta distintividade reside também na sua hibridez cultural, particularmente no uso de composições bilingues que combinam sistemas tipográficos português e chinês. As limitações espaciais da cidade, caracterizadas por ruas densas, compactas e multicamadas, contribuíram ainda mais para conferir ao néon de Macau um carácter visual único”.
As limitações espaciais da cidade, caracterizadas por ruas densas, compactas e multicamadas, contribuíram ainda mais para conferir ao néon de Macau um carácter visual único – Filipa Simões, autora, designer e fotógrafa
Relativamente à conservação do néon, Filipa explica que a tecnologia LED oferece vantagens práticas: “é mais económica, flexível e fácil de manter”. De uma perspetiva comercial, a mudança é compreensível. No entanto, “o valor dos letreiros de néon é cultural, não meramente funcional”.

A arte de rua é muitas vezes efémera e opera nas margens, reclamando espaços residuais ou não-atribuídos e adicionando uma perspetiva artística às paredes que habita. Os letreiros de néon originaram de necessidades comerciais, mas acabaram por transcender a sua função, ficando enraizados no imaginário coletivo
“São uma parte intrínseca da cultura visual da cidade, incorporando conhecimento artesanal e representando uma fase significativa da história de Macau. E possuem qualidades materiais específicas que não podem ser reproduzidas em LED sem se tornarem pastiche: o brilho vibrante, as irregularidades dos tubos curvados à mão e o traço visível do artesanato”.
Acredita ainda que a conservação dos letreiros de néon deve focar-se não apenas na documentação, mas também numa “preservação seletiva”, reconhecendo o “conhecimento do artesanato de néon como património imaterial”.
“O objetivo não é resistir à mudança, mas garantir que esta transformação rápida não apague completamente esta importante camada da história visual de Macau”, conclui.