– Como se monta este puzzle, com tantos contributos dos mais variados quadrantes?
Francisco Leandro – Este livro, que começou a ser pensado em 2022, partiu de duas perspetivas: o Brasil tem uma geopolítica muito forte, mas pouco conhecida na Academia; muita gente escreve, mas não em inglês. Outro ponto importante era o próprio conceito de geopolítica; que tem evoluído muito; ultimamente, nem há consenso sobre isso. Terceiro ponto: desde 2009, as relações com a China cresceram muito.
– Mais trocas comerciais que com os Estados Unidos…
F.L. – E as mais relevantes! É o único país do mundo com superhábito comercial com a China. As relações comerciais crescem desde 1993 – ano da primeira parceria – mas há novos desafios: o Brasil cada vez exporta mais para a China, mas o índice de complexidade decresceu brutalmente.
– Sobretudo commodities?
F.L. – Exatamente! Em 1993, a China importava produtos muito mais qualificados; hoje é ao contrário. Isto era uma espécie de uma sopa quando começámos; e, sozinho, não tinha capacidade. A Universidade de Macau, como todas as instituições, tem coisas fantásticas, outras menos; mas esta é certamente das mais fantásticas: tem instrumentos de apoio à investigação como nunca encontrei; foi a oportunidade de reunir condições materiais e as pessoas certas para este projeto.
Do ponto de vista regional, é uma suite geopolítica – muito atrativo – mas, do ponto de vista global, tem funcionado como pivô das grandes potências
– E uma editora de prestígio…
F.L. – No final de 2023, enviámos o primeiro draft à Palgrave Macmillan; gosto sempre de os ouvir antes de começar os projetos. Um dos comentários foi darem-me razão ao argumento de que a escola geopolítica do Brasil era pouco conhecida; e os nossos autores e editores não davam essa garantia. Por isso, formar equipa foi fundamental. Sabíamos uma série de coisas sobre o Brasil; o seu contexto regional, a relação com as grandes potências… elencamos esses desafios, dividimos o projeto em quatro partes; e, dentro de cada uma, tínhamos de arranjar alguém. Lembro-me do triângulo do lítio, Antártida, projeto espacial… encontrar as pessoas certas levou dois anos. Uma das coisas boas na Universidade é conseguirmos criar essa rede – absolutamente fundamental para quem faz investigação.
– Quais as conclusões da obra?
F.L. – É um livro didático, enciclopédico; não é uma tese académica, embora contenha pequenas teses. Um dos capítulos que escrevo é sobre como se comporta o Brasil, no contexto regional e global. Aliás, este livro começa com uma frase que usei num estudo organizado pela Fundação de Ciência Política da América Latina: o Brasil é um ator que não se pode ignorar, mas não é suficientemente importante para estar na agenda geopolítica do mundo.
– Potência sul-americana, e lusófona; não é gigante no Sul Global?
F.L. – Tem muitos bloqueios estruturais; por exemplo, falta-lhe uma rede de caminhos de ferro competitiva nas commodities. É a 9ª ou 10ª economia do mundo; mas já foi 5ª, 14ª… não consegue estabilidade. Do ponto de vista regional, é uma suite geopolítica – muito atrativo – mas, do ponto de vista global, tem funcionado como pivô das grandes potências; tem muita dificuldade em afirmar-se. Embora pense bem a sua política externa, não tem uma política global; é muito focado no Atlântico Sul.
– Pode falar-se numa escola geostratégica brasileira?
F.L. – Essa é a grande mensagem do livro. Na ciência política, temos dedicado 90% do tempo às relações entre Estados Unidos, Europa e China; quase ignoraramos o hemisfério sul. Mas o Brasil tem escola e atitude geopolítica. A ideia Pan-Amazónica é super-interessante, como a do Atlântico Sul; quer permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas; desdolarizar a economia…
Em programas realmente importantes: satélites, submarinos, aeronáutica, corredor bio-oceânico… está muito voltado para a China, sem se aproximar demasiado
– Como se define essa escola?
F.L. – O Brasil é uma potência regional, com atitude global; mas muito na ideia do pivô. Não assina o memorando Faixa e Rota para não hostilizar os Estados Unidos, é amigo da NATO; e com a China “is all about business”. Em programas realmente importantes: satélites, submarinos, aeronáutica, corredor bio-oceânico… está muito voltado para a China, sem se aproximar demasiado.
– E no Sul Global?
F.L. – Vamos concluir a meio deste ano um livro sobre o Global South, que faz falta na Academia; não há nada consistente sobre isso. Ao revê-lo, dei por mim a ver o número de vezes que menciono Brasil. Toda a gente pergunta se a China é o Global South… politicamente é – eles próprios o dizem – mas tenho as minhas dúvidas. A verdade é que, logo a seguir à China, Índia, Indonésia… vem o Brasil.
– Porque o Brasil não revela a Lusofonia?
F.L. – Sempre me perguntei porque o Brasil, que utiliza uma série de plataformas, muito inteligentemente, não o faz com a CPLP. Não quer dizer que a hostilize, mas participa muito noutros fóruns, como no G20. A CPLP até podia ser uma plataforma de grande influência internacional; está a fazer bom trabalho e o seu prestígio internacional a crescer. Não é uma pergunta fácil – não tenho resposta.
– Oscilações de política interna?
F.L. – Bolsonaro nunca se dirigiu à CPLP; Lula é diferente, tem uma relação cordial; mas não a quer liderar. Há muita relação bilateral com os países lusófonos, mas não multilateral.
– Será o Brasil o melhor parceiro da China no Sul Global?
F.L. – Diria um bom parceiro; não sei se o melhor. Há outros muito importantes, como a África do Sul, no contexto da língua inglesa. Acho é que nem Brasil, nem China, podem dar-se ao luxo de ignorar um ao outro; isso é muito claro. E Macau tem aqui um conjunto de oportunidades. Importa notar que o Brasil institucionalizou a sua relação com a China num mecanismo bilateral de cooperação e acompanhamento permanente – COSBAN. Está no Fórum Macau, mas a relação com a China, muito forte, é muito bilateral.
– Em Macau, ainda focamos a plataforma lusófona em Portugal… deviamos olhar mais para o Brasil?
F.L. – Muito mais… Este projeto, que sempre quis fazer, só agora foi possível. Mas a Lusofonia não é uma entidade – é um conceito – e há policentrismo. Vejo na Lusofonia três grandes grupos: Portugal e Brasil; países africanos; e ilhas – Cabo Verde, São Tomé e Timor-Leste. Embora todos diferentes, podem ser agrupados. Em Macau continuamos a olhar para os PLP como uma única representação, mas cada um deles tem interesses, atitudes, e modos de se relacionar completamente diferentes.
– É a China quem mais os une, ao insistir numa entidade multilateral?
F.L. – Isso acho que não; embora do ponto de vista do desenvolvimento e do comércio, provavelmente sim. Aqui na Universidade publicamos muita coisa que relaciona China e PLP; não acontece em mais lado algum. De facto, a China tem tendência para dar cola a esse conceito; e isso é totalmente único. Em Portugal também se publica; no Brasil menos; tudo o resto acabou.