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Interior exige investimento às artes locais

Várias cidades da Grande Baía estão a inaugurar novos espaços para espetáculos, o que representa novas oportunidades de desenvolvimento para as companhias de artes locais. No entanto, é necessário estar “preparado para investir capital durante três a sete anos”, para conquistar o mercado do Interior, explica Kwong Wai Lap, antigo dirigente cultural.

Carol Law

A Associação de Teatro Hiu Koc organizou, no início da semana, o fórum “Atração Teatral”, que reuniu profissionais com experiência no desenvolvimento artístico na Grande Baía. Entre os convidados estiveram Zhang Xianjing, diretora de operações da China Merchants Culture Industry & Performing Arts Connection e do Festival de Teatro de Shekou, Kwong Wai Lap, profissional da cultura da Grande Baía, e Jacky Li, diretor executivo da Teatro de Lavradores, que partilharam experiências e desafios enfrentados no processo de expansão artística para o Interior da China.

Um dos intervenientes foi Kwong Wai Lap, antigo dirigente de grupos artísticos como a City Contemporary Dance Company de Hong Kong, Beijing Modern Dance Company, Centro Cultural de Macau e Xinghai Performing Arts Development Co. de Guangdong. A acompanhar há quase vinte anos a evolução cultural da Grande Baía, e com vasta experiência em Hong Kong e Macau, Kwong salientou que o “funcionamento do mercado comercial é totalmente distinto do intercâmbio cultural”, defendendo que, para conquistar o mercado do Interior, é “necessário estar preparado para investir capital durante três a sete anos”.Para Kwong, o apoio governamental constitui a principal vantagem das companhias de Hong Kong e Macau: “Caso contrário, atuar no Interior equivale quase sempre a ter prejuízo”.

Um posicionamento de marca claro e estratégias direcionadas são fundamentais: “O mais importante é saber se é eficaz e afetivo”, isto é, “perceber se o festival artístico escolhido corresponde ao público-alvo pretendido e avaliar o impacto após a participação”. É também crucial saber se o festival pode oferecer apoio na promoção. “Sem uma forte rede de venda de bilhetes ou um grupo de fãs em Shenzhen, é basicamente muito difícil vender ingressos”, explica ao PLATAFORMA.

Kwong Wai Lap refere que, se for possível angariar financiamento inicial em Hong Kong ou Macau para apoiar a expansão e operação no Interior, e conquistar mais público, as companhias poderão tornar-se independentes do apoio estatal no futuro. No entanto, sublinha que o mercado do Interior é extremamente “implacável”, sendo que a “venda e o marketing são cruciais” – áreas que continuam a ser um dos “pontos fracos das companhias de Hong Kong e Macau”. Se as vendas forem “fracas logo no início, os espaços tendem a canalizar os seus recursos promocionais para espetáculos que garantam maior bilheteira”, diz.

“O mercado comercial do Interior é, de facto, muito duro; se não houver promoção, se não se criar um IP próprio, simplesmente não se vendem bilhetes”. Por isso, salienta a importância da promoção e da criação da marca junto do público do Interior: “Se quiserem singrar no Interior, têm mesmo de aprender a construir uma marca e a vendê-la; não pensem que os bilhetes se vendem por si só – por muito famoso que um grupo seja em Macau, pode não conseguir vender bilhetes no Interior”. Acrescenta ainda que se “não estiverem dispostos a fazer este investimento, então é preferível limitarem-se ao intercâmbio cultural subsidiado; de outra forma, só terão prejuízo em cada espetáculo”.

Infraestruturas estratégicas

Nos últimos anos, várias cidades da Grande Baía têm registado um crescimento contínuo de novos espaços para espetáculos – só em janeiro de 2026, Shenzhen inaugurou dois novos centros de artes. Segundo dados do Departamento de Estatística de Shenzhen, no final de 2024, a população residente aproximava-se dos 18 milhões, evidenciando um potencial de mercado incomparavelmente superior ao de Macau.

Ao contrário de Pequim e Xangai, o “desenvolvimento artístico em Shenzhen é liderado por empresas, responsáveis pela gestão dos espaços de espetáculos”, diz Zhang Xianjing ao PLATAFORMA, sublinhando que cada cidade do Interior possui a sua “própria cultura de consumo artístico”.

Em Shenzhen, as longas jornadas de trabalho influenciam os hábitos do público, que tende a adiar a compra de bilhetes até ao último momento. A “venda de ingressos para obras originais sem reputação consolidada é particularmente difícil, tornando essencial a promoção através de canais familiares ao público local e uma presença prolongada no mercado”, explica Zhang. Ainda assim, encoraja as companhias a persistirem: “Porque só com uma exposição continuada é que o público pode começar a reconhecer o grupo”.

A experiência da Teatro de Lavradores na coprodução de espetáculos com equipas do Interior, que depois circulam noutras cidades chinesas, permite ao grupo receber uma percentagem da bilheteira como direitos de autor, explica Jacky Li diretor do grupo.

Esta estratégia, diz, garante alguma “sustentabilidade financeira”, e graças à proximidade linguística e cultural na Grande Baía, existem boas perspetivas para apostar em produções em cantonense de Macau, defendendo que o quotidiano local pode ser uma forte fonte dramatúrgica: “Macau pode parecer pequena, mas o Interior oferece muito espaço”.
Por fim, acredita que a criação de parcerias com profissionais locais e uma maior articulação entre os grupos artísticos de Macau, de forma a maximizar o impacto coletivo é central: “Macau é pequeno e há poucos profissionais das artes – se combinarmos esforços, o impacto é maior do que se tentarmos singrar isoladamente”.

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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