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Guerra contra a paz

Fernando M. Ferreira*

O exercício militar conjunto “Vontade de Paz 2026”, que os BRICS+ realizam na África do Sul – sem Brasil e Índia – é mais do que um mero treino operacional. É um aviso político. Num mundo em rápida recomposição estratégica, estes exercícios funcionam como demonstrações de coesão, capacidade; e, sobretudo, de intenção. A mensagem é clara: há alternativas ao eixo de segurança dominado pela Aliança Atlântica (NATO); e estão a ganhar forma, visibilidade e músculo. Ou seja, peso geopolítico.

Este movimento ocorre num momento particularmente sensível para a arquitetura de segurança euro-americana. A NATO, pilar da defesa coletiva europeia desde o pós-guerra, enfrenta uma enorme crise interna. A imprevisibilidade da política externa norte-americana, associada ao regresso de Donald Trump ao centro do poder político, levanta dúvidas legítimas sobre a fiabilidade dos Estados Unidos enquanto garante último da segurança europeia.

A imprevisibilidade da política externa norte- americana (…) levanta dúvidas legítimas sobre a fiabilidade dos Estados Unidos enquanto garante último da segurança europeia

Fala-se, inclusive, de cenários extremos – como a eventual anexação da Gronelândia pela força. Apesar de não acreditar que tal venha a acontecer, o simples facto de essa hipótese circular no discurso político internacional é revelador. É o fim das linhas vermelhas que pareceram intransponíveis, durante décadas; e expõe a volatilidade de uma liderança que já demonstrou total desconsideração por alianças, tratados e compromissos multilaterais.

Se os Estados Unidos deixarem de ser um parceiro previsível; não apenas para a Europa, mas para o sistema internacional; então a NATO deixa de ser uma certeza estratégica e passa a ser uma variável política. Quando uma aliança defensiva depende mais de humores do que de consensos estruturais, a sua credibilidade fica inevitavelmente fragilizada.

É neste vazio de confiança que iniciativas como os exercícios militares dos BRICS+ ganham relevância. Para já, não significam uma alternativa direta à NATO. Mas apontam para um mundo onde a segurança deixa de ser monopólio de um bloco e passa a ser disputada por vários centros de poder. A questão já não é se essa transição está em curso. É se o Ocidente está preparado para ela.

*Editor-chefe do PLATAFORMA

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