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“Papel unificador” da China no bloco lusófono

Anabela Santiago, investigadora do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE, destaca o apoio chinês na medicina e na saúde dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP): “Há muito mais que infraestruturas”; e “é nisso que a China é perita - distingue-se”. Mas também se distingue por ser hoje o magma que liga o bloco lusófono: “Nem esses próprios países têm consciência do seu peso conjunto na cena internacional”

Paulo Rego

– O que é que a traz a Macau?

Anabela Santiago – Concluí o doutoramento em maio deste ano; e vim participar no seminário sobre Amílcar Cabral e a importância que teve para os movimentos de libertação dos Países de Língua Portuguesa (PLP). Participei também aqui na conferência dos Macau Studies, com o meu tema de investigação em volta das políticas públicas de saúde e do papel da China na ajuda humanitária e na saúde nos países africanos, nomeadamente de língua portuguesa. Entre outras atividades que, no futuro, espero eu, vão permitir que a Universidade de Macau (UMAC) seja melhor conhecida em Portugal – e vice-versa.

– O apoio da China aos movimentos de libertação nas ex-colónias portuguesas, ainda hoje formata as relações que existem?

A.S. – Brasil à parte, esse período está ainda bem presente nas relações da China com os PALOP. Apesar de já terem decorrido algumas décadas, a China dá muita importância aos relacionamentos bilaterais que vêm de tempos históricos. Acaba até por fazer com que a China tenha um pouco este papel unificador; acho que, às vezes, nem esses próprios países têm consciência do seu peso conjunto na cena internacional.

– Sexta maior língua no mundo digital, sete mares…

A.S. – Sim, sim!

– Se há hoje um bloco lusófono compacto, deve-se a esta visão da China?

A.S. – Da China, e do papel de Macau; que acaba por ser o polo a quem foi atribuída essa missão.

– Quem chega com essa consciência académica – e histórica – sente essa missão a ser cumprida?

A.S. – A iniciativa que a Universidade de Macau tem de trazer académicos desses países já é um sinal de importância dada à CPLP; diz muito daquilo que é o posicionamento de Macau na China. Os intercâmbios culturais existem, e são muito visíveis; basta ir ao centro ver as Ruínas de São Paulo repletas de turistas. A parte cultural e do turismo está bem cimentada; do ponto de vista académico, a educação tem sempre papel fundamental nestas coisas. É muito bom ver estas iniciativas da UMAC, também muito por iniciativa do professor Francisco Leandro. É mais um passo para que não seja apenas uma narrativa; ganha uma dimensão empírica, que se vê.

– No contexto das políticas públicas, vem-me à memória o debate público quando São Tomé e Príncipe passou as relações diplomáticas para a China, porque Taiwan assegurava centros de saúde e assistência médica um pouco por todo o país. Relação, essa, muito afetiva. A China cumpre a mesma estratégia?

A.S. – É preciso ir à História, e à década de 1960; porque, em termos de medicina e saúde, a ajuda que a China presta aos PALOP remonta a essa época. Ao contrário do que se vê nas notícias, não surgiu só após a pandemia do Covid-19. Fortaleceu-se por via da pandemia – obviamente – mas já existia.

– Ainda por cima no contexto das guerras coloniais…

A.S. – Exato; essa relação ao nível da saúde com os PALOP – em África como um todo – tem muito a ver com a política externa chinesa. É mais uma componente da ajuda ao desenvolvimento.

– Muito mais que infraestruturas…

A.S. – Há muito mais – exatamente. Claro que a Saúde beneficia das infraestruturas; há muitos centros de saúde e hospitais construídos com capitais chineses. Mas, além disso, há toda uma outra dimensão, como o envio de equipas médicas para formarem equipas locais; fortíssimo em África, porque, de facto, necessitam disso até para trabalhar com equipamentos que são novos para eles. O apoio da China tem sido muito positivo para que as populações locais tenham acesso a cuidados básicos de saúde. Não estamos só a falar de grandes infraestruturas; a maior parte das vezes são investimentos pontuais, adequados às necessidades. É nisso que a China é perita – distingue-se.

– O soft-power chinês tem muito de consiciência humanitária?

A.S. – A saúde é um bem precioso; e, se um filho nasce nos braços de um médico chinês, cria essa ligação afetiva. De certa forma, é um trampolim para outras relações. O objetivo principal é o fortalecimento dos sistemas de saúde; depois, a China tenta não interferir muito noutros assuntos, essa colaboração positiva reforça as ligações.

A Medicina Tradicional Chinesa (MTC) tem penetração nos PALOP?

A.S. – É vista como complementar às outras medicinas; na maior parte das vezes é essa a mensagem transmitida; diria complementar – e não alternativa, como muitas vezes referimos no ocidente. Há essa preocupação de levar a MTC a esses países, até em situações muito pontuais, como no tratamento contra a malária. Infelizmente, é uma doença muito propagada em África; e o tratamento que a China adotou, à base de uma erva, tem-se revelado muito eficaz.

– Preventivo ou profilático?

A.S. – Profilático. É uma das grandes bandeiras da MTC nessa componente de ajuda.

– A África, no seu todo, tem uma perceção positiva da medicina tradicional – não necessariamente a chinesa. É uma relação mais esponjosa, easygoing…

A.S. – Há maior abertura para esse tipo de medicinas que não as ditas convencionais; é mais fácil a MTC entrar nesses territórios e ser bem aceite. Até pela biodiversidade que lá existe e os princípios ativos que a natureza produz.

– O Parque Industrial de MTC, em Henquin, pode ser uma rampa de lançamento para essa oportunidade?

A.S. – Parece-me que sim. A medicina – e a Saúde – será mais uma área na qual Macau pode desempenhar um papel preponderante na ligação aos PALOP; pelas relações históricas, por este papel que Macau já tem, e pela proximidade geográfica com esse centro.

– Qual é aí a função das redes universitárias?

A.S. – Tem que haver um trabalho de interdisciplinaridade. Quando pensamos em Saúde, pensamos muitas vezes apenas em medicina, na parte técnica; mas têm de se envolver mais as políticas públicas. Se não houver sensibilização para este tipo de abordagens, o conhecimento acaba por ficar muito dentro dos laboratórios, não se tomam medidas adequadas para ser aplicado e servir as populações – e é isso que se pretende, esse é o objetivo principal. Medicina, ok; mas em diálogo com políticas públicas, urbanismo, organização… para que os resultados cheguem a todos.

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