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Mente pioneira na arte de usar o corpo

O Museu de Arte de Macau selecionou três artistas locais, e três da China, a anteciparem a exposição, a 23 de janeiro, das obras de Helena Almeida (1934-2018), ícone portuguesa, pioneira na arte de usar o próprio corpo para refletir sobre a existência humana e a relação com o mundo. Já em exposição, esta primeira parte do projeto une gerações e culturas diferentes. Reflexão sobre o corpo, a alma, e o mundo – no feminino

Paulo Rego

Ao fazer o levantamento da coleção do Museu de Arte de Macau, “verificámos que, embora havendo muitas artistas portuguesas – a mais antiga é Vieira da Silva – havia grandes ausências; uma delas Helena Almeida”, explica Margarida Saraiva, uma das curadoras da exposição. Contudo, “não queríamos simplesmente, na China, apresentar uma artista portuguesa; por isso convidamos as artistas a responderem ao estímulo que ela possa transmitir hoje, num outro tempo, espaço e cultura; estimular o intercâmbio cultural entre Portugal e China, sem deixar de criar uma ligação a esta cidade e este país”.

Peng Yun, Wong Weng Io, e Angela Chan (Macau); Gao Fuyan, Min Han e Sun Xiaoyu (China) foram as seis artistas selecionadas, analisado o “diálogo temático com a obra, mas também a perspetiva conceptual – e até formal” das propostas, explica Saraiva. Só foram convidadas mulheres, mas “na produção em si”, o feminismo não teve importância; mas sim “o equilíbrio em termos patrimoniais de obras de artistas masculinos e femininos; fazer uma coleção crescer com gerações, estilos, géneros diferentes”.

Dia 23 de janeiro expõem-se então as obras de Helena Almeida, recolhidas junto das principais instituições portuguesas e espanholas de arte contemporânea, coleções privadas e galerias. “Só possível pelo contributo fundamental de Delfim Sardo”, frisa Saraiva, referindo-se ao curador-chefe da exposição, que estará na inauguração, e também na conferência – 24 de janeiro – onde estarão Song Zhen, curador das artistas chinesas, e os curadores do Museu. Na semana anterior dão um curso de curadoria, aberto a inscrições e gratuito. “Queríamos gerar a oportunidade de a comunidade local ter acesso a conhecimento altamente especializado no domínio da arte contemporânea e curadoria.

Em Macau não há neste momento quem ofereça formação sobre os fundamentos da curadoria de um projeto artístico expositivo”, conclui Margarida Saraiva.

O PLATAFORMA enviou cinco perguntas a Wong Weng Io e Peng Yun, sobre a obra de Helena Almeida (1); o seu efeito inspirador (2); a ligação entre as culturas (3); gerações e geografias (4); e o feminismo na arte (5). Ver respostas nestas páginas.

Desconstruiu fronteiras”

Wong Weng Io

  1. Helena Almeida foi, sem dúvida, pioneira; desconstruiu fronteiras entre pintura, realidade e representação, através do uso experimental do corpo como meio. A sua profundidade conceptual ressoa profundamente com a minha própria prática inicial, fortemente influenciada pela arte conceptual das décadas de 1960/70. Nesta exposição, vejo uma forte ligação na forma como os artistas contemporâneos se afastam dos meios tradicionais para explorar “o eu” e “o espaço”. Almeida representa a coragem de transformar a própria existência do artista num sujeito; mudança cada vez mais relevante no panorama artístico em evolução da nossa região.
  2. Fiquei particularmente sensibilizada pelas séries ‘Drawing (with pigment)’, ‘Dentro de mim’ e ‘Ouve-me’. Ver como ela transformou o estúdio num palco teatral para documentação, inspirou-me a repensar os meus próprios limites; e acabei por gravar vídeos tanto no meu quarto como no estúdio. A natureza minimalista – mas impactante – dos seus gestos performativos serviu de catalisador para me aventurar pela primeira vez na documentação em vídeo; forma simbiótica de integrar as minhas esculturas num espaço de vídeo performativo, criando um diálogo entre objeto estático e corpo em movimento.
  3. A arte possui uma linguagem universal que transcende fronteiras; ao primeiro contacto, procuro viver a obra de forma pura e intuitiva. No caso de Almeida, o discurso gira em torno da relação conceptual entre fotografia, pintura e performance; contudo, o contexto cultural é a chave que desvenda uma análise mais profunda. Embora a “mentalidade artística” seja universal, compreender o percurso do artista e a sua época enriquece a nossa apreciação. Esta exposição serve como ponte vital, oferecendo aos públicos português e chinês pontos em comum através de questões humanas e estéticas partilhadas.
  4. O mais importante na narrativa de Almeida é a sua visão intemporal; quando interajo com o seu trabalho, foco-me na honestidade da resposta emocional e intelectual que provoca. A menos que uma obra aborde uma época, ou um lugar específico, o seu verdadeiro poder reside na nova perspetiva. A sua obra não está limitada pela geografia, define-se pela inovação; tão atual e provocadora hoje como há décadas.
  5. Não se trata estritamente de género, mas do “olhar” – forma específica e matizada de observar o mundo e a si própria. Ao apresentar uma artista como Almeida, ao lado de outras vozes contemporâneas, incentiva-se o diálogo necessário sobre identidade e autonomia; e uma plataforma crucial para narrativas diversas que, de outra forma, poderiam ser negligenciadas no cânone tradicional.
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Poderosa introspeção”

Peng Yun

  1. Depois de terminar a obra WU • STONE • SARDAPASS, ao rever o trabalho de Almeida, senti uma profunda ligação entre o corpo e o espaço criativo. Ela quebra a fronteira entre artista e obra, tornando a sua própria existência parte da expressão artística – vida direta e poética. Nunca vê o corpo como objeto observado; explora a relação entre si e o mundo, questionando a existência e a identidade na interação com o espaço; núcleo criativo que tem forte ligação com a arte contemporânea. Macau reflete a fusão entre as culturas chinesa e ocidental; e muitos artistas locais exploraram a pluralidade dessa identidade e o sentimento de pertença. Na China, cada vez mais criadores afastam-se das grandes narrativas e respondem às questões do seu tempo através de experiências corporais. No meu caso, o longo processo de lavar e dourar a pedra, traz uma reflexão sobre o valor humano na era da IA – alinhada com a forma como ela interroga a existência através do corpo.
  2. O diálogo com a obra de Almeida foi um encontro com questões sobre as quais tenho refletido; ajudou-me a reforçar e aprofundar a motivação artística e a visão do meu trabalho – questiono-me muitas vezes sobre o valor do ser humano. Quando ouvi uma IA dizer que, se pudesse ser humana, “gostaria de apanhar chuva, sentir a humidade”, tocou-me profundamente. A tecnologia replica inúmeras formas, mas não o contacto entre corpo e matéria, nem a capacidade humana de encontrar o mundo de forma direta. O peso da vida nunca esteve na eficiência, mas no sentir, em cada momento real de encontro. Tal como na minha obra, em que o cão robot aparece e desaparece, por acaso; a sua lógica mecânica não compreende este “tempo inútil”; o olhar do algoritmo contrasta subtilmente com a minha concentração física, mostrando diferentes formas de existir e interpretar o mundo. A resposta está em encontrar WU (tudo o que há – a verdade).
  3. Este tipo de projeto tem o potencial de ligar as culturas de Portugal e da China; e, ao mesmo tempo, comprova que a arte possui uma linguagem universal que vai além da cultura e da geografia. Em Macau, este diálogo é ainda mais valioso.
  4. Pertencemos a gerações e contextos diferentes, mas há uma profunda ligação entre as nossas criações. A criação dela tem raízes na atenção da arte contemporânea portuguesa à experiência individual; a minha vem da filosofia oriental. A sua narrativa corporal, ou a minha reflexão sobre “WU”, respondem às dúvidas do nosso tempo.O núcleo mais importante do trabalho de Almeida é a prática do corpo, sem utilidade aparente, guardando as marcas do tempo na arte. O corpo é extensão do pensamento; gestos corporais minimalistas constroem uma poderosa introspeção. Esta fidelidade à essência da criação artística encontra profunda empatia com o meu trabalho “inútil” no topo da montanha. Dispostas a abrandar na “prática presencial demorada”; fiéis ao nosso interior, o corpo sente e dialoga – ligação autêntica entre o ser humano e WU, entre a pessoa e o mundo.
  5. O movimento feminista na criação artística tem um valor profundo; oferece-nos uma perspetiva única para refletir sobre a essência da existência, a subjetividade humana. Em cada época os artistas respondem aos seus temas fundamentais; e, no contexto atual, marcado pela ascensão da IA, a partir da perspetiva feminista, ou de qualquer outra identidade, a questão central na arte é reconstruir uma ligação autêntica connosco próprios e com o mundo. Não se prende com rótulos, mas com a possibilidade de acolher formas cada vez mais diversas de pensar a vida, permitindo que cada experiência humana se torne um meio para interrogar a existência.

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