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Turismo na frente, inovação lá para trás

O relatório “Greater Bay Area Industry Development Index 2025” coloca Macau no top 5 dos setores de Cultura, Desporto e Turismo, assim como do Comércio e Logística; mas longe da frente na inovação tecnológica. O economista Henry Lei diz que a posição “é justa e razoável”. E diz ser necessário que “o Governo local assuma a liderança, investindo mais para acelerar a diversificação” na Inovação, Tecnologia, Manufatura e Serviços Financeiros. Sunny Ip, presidente da Associação da União dos Fornecedores de Macau, aponta a falta de transporte ferroviário e marítimo como “entrave significativo à integração com as cidades vizinhas”

Fernando M. Ferreira

Publicado pela ‘Our Hong Kong Foundation’ – organização não-governamental fundada por Tung Chee-hwa, antigo vice-presidente do Comité Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês e ex-Chefe do Executivo de Hong Kong – em parceria com o Dah Sing Bank, o relatório mostra uma aceleração do desenvolvimento industrial e económico nas 11 cidades da Grande Baía (GBA). A pontuação média regional cresceu de 4.9% para 7.1% – 2023 a 2025 -, impulsionada sobretudo pela Inovação e Tecnologia (+14.8%). A confiança empresarial atingiu 57.3 pontos, sinal de otimismo no ambiente económico regional.

Macau surge como ator complementar neste ecossistema, destacando-se nos setores de Cultura, Desporto e Turismo, e Comércio e Logística, com limites estruturais em áreas como a Inovação, Tecnologia, Manufatura, e Serviços Financeiros. O relatório posiciona Macau em 4.º lugar no setor da Cultura, Desporto e Turismo, com 65,5 pontos em 100, atrás de Hong Kong (79,3), Guangzhou (79,2) e Shenzhen (71,4). Para Henry Lei, a classificação, “justa e razoável”, reflete “a força de Macau apenas numa das três áreas – o turismo”. Na realidade, “somos relativamente fracos em comparação com Hong Kong, Guangzhou e Shenzhen na Cultura e Desporto, uma vez que Macau ainda não comercializou esses setores e carece de um ecossistema desenvolvido, programas académicos consolidados, estrutura de formação sistemática e infraestruturas de apoio”, explica Lei ao PLATAFORMA. “O nosso sucesso no turismo assenta tanto nos recursos e infraestruturas disponíveis como nos programas académicos internacionalmente reconhecidos em turismo e ‘resorts’ integrados, elementos essenciais do nosso ecossistema turístico”, conclui.

O nosso sucesso no turismo assenta tanto nos recursos e infraestruturas disponíveis como nos programas académicos internacionalmente reconhecidos em turismo e ‘resorts’ integrados, elementos essenciais do nosso ecossistema turístico

Henry Lei, economista

O relatório destaca ainda o papel crescente da “economia dos megaeventos”, com espetáculos, festivais e competições desportivas de grande escala a impulsionarem a recuperação regional. Mas há ainda margem para crescer: “O papel de Macau na organização destes ‘megaeventos’ é bastante limitado, restrito à prestação de serviços ou contribuições de baixo valor. É necessário que a cidade lute pela participação em áreas como a produção de bastidores, para criar maior valor acrescentado e estabelecer pontos de venda únicos, marcas reconhecidas e propriedade intelectual própria. Dessa forma, poderemos expandir para além de Macau, participando na produção de espetáculos noutras cidades ou países e assim sustentar o nosso sucesso”, explica Lei.

Desafios logísticos

Apesar do bom desempenho do Turismo, o relatório sublinha as limitações estruturais de Macau na Inovação, Tecnologia e Serviços Financeiros, bem como na sua integração logística na Grande Baía. Macau está em 5.º lugar no Comércio e Logística, com 56,8 pontos em 100, atrás de Hong Kong (82,5), Guangzhou (80,5), Shenzhen (78,6) e Zhuhai (57,5).

Henry Lee lamenta que Macau continue dependente de mecanismos de mercado em áreas onde não possui competitividade suficiente para atrair investimento externo. Já Sunny Ip reforça a dimensão prática dessas limitações no terreno: “Comparando as duas regiões administrativas especiais, Hong Kong tem uma particularidade muito própria: dispõe de transporte ferroviário e marítimo; Macau, apenas transporte rodoviário”; entrave significativo à integração com as cidades vizinhas, onde os transportes ferroviários e marítimos garantem maior eficiência e menores custos. “É por isso que o custo de vida em Macau é superior ao de Hong Kong – a principal razão é o custo elevado do transporte”, explica Ip ao PLATAFORMA, frisando que a ligação pela Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau deve ser melhor aproveitada para maior cooperação logística com os portos de Hong Kong e Guangzhou.

É por isso que o custo de vida em Macau é superior ao de Hong Kong – a principal razão é o custo elevado do transporte

Sunny Ip, presidente da Associação da União dos Fornecedores de Macau

O relatório (Ver Quadro 2) assinala um aumento de quase 70% no volume de carga movimentada no Aeroporto Internacional de Macau e uma subida superior a 40% nos movimentos de tráfego aéreo, em comparação com o ano anterior. “É um sinal de recuperação”, assinala Ip. “Em grande parte, deve-se ao facto de alguns produtos terem mudado para o transporte aéreo devido ao aumento dos custos ou ao maior tempo de trânsito do transporte marítimo. No entanto, o volume de tráfego aéreo entre Macau e outros aeroportos continua muito inferior ao de Hong Kong, Guangzhou ou Shenzhen, que possuem rotas internacionais e operações muito mais frequentes. Zhuhai, por sua vez, tem vindo a expandir rapidamente as suas rotas logísticas de carga aérea”.

Para Sunny Ip, esse aumento é ainda insuficiente para compensar as limitações de conectividade regional. Macau carece de planeamento na chamada ‘economia de baixa altitude’, onde outras cidades da região avançam com o uso de ‘drones’ e aeronaves ligeiras para transporte.

Futuro tecnológico e confiança económica

O relatório destaca ainda o papel crescente da Inteligência Artificial (IA) na região, com 94.5% das empresas da GBA a utilizarem a tecnologia nas suas operações. Contudo, alerta Henry Lei, o tecido empresarial local ainda é pouco propenso à transição digital. “As PME de Macau são bastante conservadoras e podem mostrar relutância em adotar mais IA nas suas operações. Além disso, o atual ambiente económico pode ser visto como obstáculo a esse investimento (…) Pode ser necessário que o Governo ofereça incentivos às PME – como formação e subsídios ao software – para as motivar a aplicar competências modernas e digitais, incluindo o IA na gestão diária”.

Embora o Índice de Confiança da GBA seja otimista (55,5 pontos atuais e 57,3 futuros), Henry Lei considera que o sentimento em Macau é mais cauteloso: “Algumas PME, especialmente as localizadas em bairros residenciais, com clientes locais, continuam a lutar pela sobrevivência; proprietários e investidores sofrem com a queda contínua dos preços da habitação. O sentimento geral não é otimista, como evidencia a diminuição do volume de vendas a retalho desde 2024. Isso afeta o incentivo ao investimento e pode travar a recuperação completa e a transformação económica de Macau”, explica.

Por fim, o economista defende que a diversificação económica e a inovação tecnológica exigem um papel mais ativo do Estado: “Dado o pequeno mercado interno, e a falta de capacidade, espera-se que o Governo local assuma a liderança, investindo mais para acelerar a diversificação liderada pela inovação. Trata-se de um caminho que envolve riscos e incertezas que as PME locais não suportam sozinhas. Por isso é necessária maior intervenção do Governo”.

O “Greater Bay Area Industry Development Index 2025” mostra ainda que Macau tem reforçado o seu papel na Grande Baía como plataforma turística e cultural, mas o sucesso futuro dependerá de uma aposta na inovação, talento tecnológico e integração regional coordenada. As palavras de Henry Lei sublinham um diagnóstico claro: o turismo é a força de Macau – mas a sua verdadeira sustentabilidade exigirá coragem política e investimento público consistente.

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