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“Poderia ser conveniente os avisos e alertas serem divulgados noutras línguas”

Macau enfrentou esta semana a passagem do super tufão Ragasa, que trouxe ventos violentos e inundações que afetaram várias zonas baixas da cidade. Olavo Rasquinho, antigo diretor dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG), reconhece que foram introduzidas várias reformas estruturais para mitigar os riscos, evidentes em 2017 com o tufão Hato. No entanto, tendo em conta a diversidade linguística da população em Macau, entende que os avisos e alertas não são difundidos de igual forma

Fernando M. Ferreira

A experiência do Ragasa mostrou uma vez mais que o comportamento da população é parte essencial da resposta.Olavo Rasquinho lembra que “a memória coletiva tem tendência a esquecer rapidamente os grandes desastres”. Essa tendência, afirma ao PLATAFORMA, pode comprometer a capacidade de preparação para futuros fenómenos.

Em 2017, o tufão Hato marcou um ponto de viragem para Macau. Com mais de dez mortos, centenas de feridos e danos económicos avultados, a tragédia expôs fragilidades na coordenação institucional e na comunicação pública. Desde então, foram introduzidas reformas estruturais, incluindo maior capacidade de previsão, sistemas de alerta mais eficazes e reforço da coordenação interdepartamental. O especialista reconhece que houve mudanças visíveis: “Se compararmos a situação atual com o passado, vemos que houve melhorias claras”. Mas avisa que os avanços técnicos não são suficientes por si só. “Não basta confiar apenas nas infraestruturas. O comportamento da população é essencial.”

A clareza das mensagens é, para Rasquinho, um elemento central da prevenção. “A emissão de avisos tem de ser acompanhada de explicações compreensíveis, de modo a que as pessoas saibam exatamente o que fazer”. E acrescenta: “Numa situação extrema, deveria haver uma intervenção política direta. O Chefe do Executivo ou membros do Governo deveriam aparecer nos meios de comunicação social para reforçar a gravidade da situação”.

Apesar de viver fora de Macau, Olavo Rasquinho acompanha a evolução da cidade. “O facto de não estar a residir há mais de dez anos em Macau impede-me de acompanhar a evolução das medidas que têm vindo a ser tomadas nessa área. No entanto, a leitura com certa regularidade dos jornais de Macau em língua portuguesa, permitem-me percecionar que continua a existir uma forte ligação entre os SMG e a autoridade da proteção civil de Macau”.

A preparação individual é outro aspeto sublinhado. “Cada família deve ter o seu próprio plano de emergência, com reservas mínimas de água, alimentos e medicamentos.” Para Rasquinho, “não podemos depender exclusivamente do Estado. A preparação começa em casa.” Esse nível de prontidão, explica, pode fazer a diferença em cenários de crise, quando os serviços de emergência ficam sobrecarregados.

E deixa um alerta adicional: “Considero que a população de Macau tem ao seu dispor informação suficiente sobre a evolução de fenómenos meteorológicos extremos, embora considere que devido ao facto de a sociedade de Macau ser constituída por comunidades de diferentes países, poderia ser conveniente os avisos e alertas serem divulgados noutras línguas, além das oficiais e inglês, nomeadamente tagalo, indonésio e vietnamita. Também, na iminência de ocorrência de fenómenos altamente gravosos, não se deveria recorrer apenas a avisos dos SMG e alertas da Proteção Civil, mas também à intervenção especial de membros do Governo nos meios de comunicação social, nomeadamente do próprio Chefe Executivo”.

Os censos mais recentes, publicados em 2021, indicavam que 58,364 pessoas a residir em Macau não dominavam Cantonês, Mandarim ou outros dialetos chineses.

Alterações climáticas

Rasquinho é claro quanto à tendência global: “Na realidade, uma das conclusões a que a maioria dos especialistas na área do clima têm chegado é que se está a verificar um aumento da ocorrência de fenómenos meteorológicos extremos, entre os quais se contam os ciclones tropicais, nomeadamente os tufões no Noroeste do Pacífico e Mar do Sul da China, região em que Macau está inserido”.

O fator principal, explica, é “o facto de a superfície dos oceanos terem vindo a sofrer aumento de temperatura, uma das condições para que o processo de formação destes fenómenos possa ser desencadeado”.

As alterações climáticas são uma consequência do aquecimento global, o qual está comprovadamente relacionado com o aumento da concentração na atmosfera dos gases de efeito de estufa.” E esse aquecimento afeta não só a atmosfera, mas também “a água superficial dos oceanos, o que despoleta o funcionamento da referida ‘máquina térmica’”.

Evolução científica e IA

No campo da meteorologia, os progressos mais recentes estão ligados ao poder computacional. Rasquinho admite: “Não se pode afirmar que os avanços nos modelos de previsão matemática do tempo tenham usufruído de desenvolvimento espetacular nos últimos anos. O que tem havido, na realidade, é um aumento do poder de cálculo dos meios computacionais, o que se reflete, dentro certa medida, na melhoria da fiabilidade das previsões meteorológicas e no aumento do período de validade dessas previsões”.

A inteligência artificial já está a ser testada nesta área. “A inteligência artificial está em franco progresso e uma das áreas em que está a ser testada é a da previsão do tempo. Instituições meteorológicas de vários países estão já a trabalhar nesta área, nomeadamente o ‘Meteo Office’ (Reino Unido), NOAA (Estados Unidos da América), CMA (China) e o Centro Europeu de Previsão a Médio Prazo. A empresa ‘Google’ está também a desenvolver estudos nesta área”.

Existe “uma certa expetativa que a IA e a ‘machine learning’ contribuam para melhorar as previsões, detetando sinais precoces de fenómenos meteorológicos extremos.” Mas Rasquinho lembra que “a atmosfera é um sistema caótico e, como tal, pequenas alterações nas condições iniciais dos modelos de previsão do tempo (…) podem alterar o resultado das previsões, sejam elas elaboradas com recurso aos modelos matemáticos tradicionais ou à IA”.

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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