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Pequim dá impulso financeiro a Hong Kong

Nas suas Linhas de Ação Governativa para 2026, o Chefe do Executivo, John Lee, anunciou medidas económicas e financeiras apoiadas pelo Governo Central, incluindo o reforço do mercado do ouro e do renminbi. Para o analista Sonny Lo, “Hong Kong procura diversificar-se em direção a setores de alto valor acrescentado e reforçar o seu papel de ‘hub’ financeiro”, numa estratégia que, sublinha, não deve servir de modelo para Macau

Fernando M. Ferreira

O Chefe do Executivo de Hong Kong, John Lee, apresentou esta semana as suas quartas Linhas de Ação Governativa, delineando um pacote robusto de medidas que reforçam a posição da cidade como centro financeiro internacional e diversificam a sua base económica. O discurso deu grande destaque ao papel do Governo Central, que tem vindo a fornecer apoio estrutural para garantir que Hong Kong permanece um dos principais motores da estratégia de desenvolvimento nacional.

O apoio do Governo Central traduz-se em medidas concretas, como a criação de um mercado internacional do ouro em Hong Kong, com um sistema central de compensação e novas refinarias, a emissão regular de dívida soberana em renminbi (RMB), e até a possibilidade inédita de pagamentos governamentais locais nesta moeda, reforçando a posição da cidade como centro ‘offshore’ do RMB.

Paralelamente, Hong Kong oferece subsídios, incentivos fiscais e concessão de terrenos para atrair empresas de inteligência artificial, biotecnologia e novas energias, ao mesmo tempo que promove cadeias ligadas a combustíveis sustentáveis para aviação e reciclagem de baterias. Integrado na estratégia da Grande Baía, este apoio inclui ainda o desenvolvimento do projeto ‘Northern Metropolis’, destinado a transformar a zona norte da cidade num polo de inovação e indústria de alto valor acrescentado, garantindo uma base económica mais diversificada e resiliente.

Apoio de Pequim garante diversificação económica

Entre as medidas apresentadas por John Lee, destacam-se ainda a expansão do mercado obrigacionista, o incentivo à emissão de títulos verdes e de sustentabilidade e a consolidação de Hong Kong como centro mundial de gestão de patrimónios transfronteiriços. O Governo aposta igualmente em áreas emergentes como a biotecnologia, a inteligência artificial e as ‘fintech’, setores que considera estratégicos para criar novos motores de crescimento e reduzir a dependência excessiva dos serviços financeiros tradicionais.

Estamos a entrar numa transição económica irreversível, mas essencial para garantir uma economia mais forte e robusta no futuro”, afirmou John Lee no hemiciclo. O pacote apresentado ilustra a ambição da RAEHK em afirmar-se como um polo multifacetado, que alia finanças, tecnologia e sustentabilidade, articulando-se estreitamente com os objetivos nacionais de modernização económica e de internacionalização do renminbi.

Para o analista político Sonny Lo, esta estratégia é coerente com a vocação de Hong Kong, mas não deve ser vista como um modelo replicável noutras regiões. “Macau não precisa de aprender com a RAEHK, já que têm ênfases diferentes no desenvolvimento e na diversificação económica. Assumir que Macau deve seguir o exemplo de Hong Kong pode ignorar as condições específicas da cidade. Macau também tem apostado no desenvolvimento da inteligência artificial, mas a população local precisa de mais subsídios para melhorar as suas qualificações em diferentes setores”, explica ao PLATAFORMA.

Lo acrescenta que a própria função de Macau está a ser moldada de forma distinta: “Macau não precisa de se tornar outro centro financeiro e monetário. Está a moldar-se como uma cidade única, baseada nos casinos e no turismo familiar. O que Macau precisa é de expandir o seu centro de obrigações e valores mobiliários em Hengqin e, ao mesmo tempo, acelerar o turismo de cruzeiros com ligações a Hong Kong e à Grande Baía”.

Northern Metropolis: motor de integração regional

As declarações de Lo ajudam a contextualizar o alcance das medidas apresentadas por John Lee. Enquanto Hong Kong reforça a sua posição como ‘hub’ financeiro global e aposta em setores de alto valor acrescentado, Macau segue uma lógica distinta, centrada na diversificação do turismo e na redução gradual da dependência exclusiva do Jogo.

O desenvolvimento do ‘Northern Metropolis’ assume-se, neste contexto, como um dos eixos centrais da visão de Lee. O projeto prevê a criação de ‘clusters’ industriais ligados à biotecnologia, à inteligência artificial e às finanças verdes, bem como a melhoria das ligações transfronteiriças com o Interior da China. As autoridades acreditam que esta transformação da zona norte será fundamental para acelerar a integração de Hong Kong na Grande Baía e criar uma base económica mais diversificada e resiliente.

O discurso de John Lee foi também uma reafirmação da ligação estreita entre Hong Kong e Pequim. Ao incluir medidas diretamente apoiadas pelo Governo Central, como a promoção do RMB ‘offshore’ e a expansão do mercado aurífero, evidencia-se a confiança de Pequim na cidade como plataforma financeira global. A aposta é clara: consolidar Hong Kong como eixo central da internacionalização da moeda chinesa, motor de inovação tecnológica e referência regional em finanças verdes e sustentáveis.

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