O super tufão Ragasa mostrou-se implacável nas Filipinas e em Taiwan. Em Macau, porém, a sua passagem acabou por se traduzir num episódio relativamente benigno. Houve ventos fortes, chuva intensa, mas danos contidos, salvo as “inevitáveis” inundações no Porto Interior. A cidade respirou de alívio, mas não deve adormecer na ilusão de que está totalmente preparada.
Os avisos foram céleres e as instruções claras, sinal de uma máquina administrativa que aprendeu com episódios passados. No entanto, bastaram dois dias de expectativa para que os supermercados se transformassem em corredores vazios, despojados de bens essenciais. A preparação individual é desejável, mas não pode depender unicamente da ansiedade de cada um. Em situações que prometem cortes de eletricidade e de abastecimento de água, cabe às autoridades assegurar que existem reservas organizadas e acessíveis. Não se trata de paternalismo, mas de responsabilidade.
Há também a questão da comunicação. Numa cidade que acolhe residentes, milhares de trabalhadores estrangeiros e um fluxo constante de turistas, a emissão de avisos em chinês, português e inglês é insuficiente. O risco não é apenas de incompreensão, mas de exclusão num momento em que a informação pode significar segurança. Não se trata de um luxo, mas de uma necessidade. Vejam a entrevista de Olavo Rasquinho, ex-secretário do Comité de Tufões da ONU nas páginas 10-11.
E regressamos ao Porto Interior, cronicamente frágil. Em junho foi inaugurada a nova estação elevatória, com um ‘box-culvert’ de 8.600 m³ e bombas capazes de drenar 17,2 m³ por segundo — uma obra relevante, sem dúvida, e que terá evitado estragos maiores. Mas a necessidade de evacuações preventivas mostra que, apesar do investimento, a resposta continua aquém da exigência. Se não fosse esta infraestrutura, as imagens teriam sido dramáticas; com ela, continuamos a ter inundações.
Macau teve sorte. Ragasa passou sem deixar cicatrizes profundas e ofereceu até um momento de leveza, com moradores a improvisarem sessões de pesca nas ruas alagadas. Contudo, não basta sorrir perante o improviso, porque a lição é sempre mais importante que a anedota. Espero que a aparente tranquilidade não nos anestesie, deixando de ambicionar mais e melhores infraestruturas de prevenção.
*Diretor Executivo do Plataforma