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Maduro organiza a sua Cuba

Guilherme Rego*

Em fevereiro deste ano, Donald Trump inscreveu no registo das organizações terroristas internacionais uma série de cartéis latino-americanos. Esta classificação permite-lhe intervir militarmente em países estrangeiros, sob o manto de uma guerra contra o narcotráfico. É nesse enquadramento que Trump projeta o seu poder bélico na Venezuela, com mais de quatro mil soldados destacados, um submarino nuclear, ‘destroyers’ e navios armados com mísseis, além de aeronaves de reconhecimento. Oficialmente, o alvo são os cartéis, mas o Presidente dos EUA acusa o Presidente venezuelano de os patrocinar e inclusive colocou um prémio de captura de 50 milhões de dólares sobre Maduro.

A retórica não resiste à análise fria. O ‘Tren de Aragua’, tornado símbolo da narrativa oficial, não é de longe o grupo criminoso mais relevante nos Estados Unidos. A sua estrutura fragmentou-se após a destruição do quartel-general em Tocorón, em 2023, curiosamente por iniciativa do próprio Governo venezuelano. Nos EUA, a sua presença é difusa, menor, e incapaz de constituir a ameaça existencial que Trump propaga. O discurso da guerra contra o crime parece assim cumprir uma função instrumental: mobilizar o eleitorado interno, endurecer a política migratória e legitimar a presença de tropas em águas latino-americanas.

O que então explica o momento escolhido? A resposta pode residir no gesto aparentemente banal de Nicolás Maduro, ao exibir publicamente um telemóvel Huawei oferecido por Xi Jinping e ao louvar a liderança chinesa. Pequenos sinais, mas com grande densidade estratégica: a Venezuela, maior reserva petrolífera do planeta e detentora de vastos depósitos de ouro, aproxima-se de Pequim. A geografia completa o raciocínio: a poucas centenas de quilómetros do território continental dos Estados Unidos, todo o contexto lembra a Cuba de Fidel Castro.

Não surpreende que Moscovo e Pequim tenham reagido. A China fê-lo no registo habitual, recusando “qualquer ameaça de uso da força” e apelando a que se respeite a soberania venezuelana. Mas ficou-se pela linguagem diplomática, porque a sua prioridade é assegurar acesso estável a recursos energéticos, sem arriscar confronto militar. A Rússia, pelo contrário, escolheu o tom mais contundente: denunciou a escalada norte-americana e prometeu “apoio abrangente” aos esforços de defesa de Caracas. Para o Kremlin, perder o seu grande aliado na América Latina está fora de questão.

A Venezuela não está na Europa, mas aqui não se discute a distribuição de cereais. Quando o tema é energia, a conversa muda de escala. O ouro e sobretudo o petróleo venezuelano são capitais estratégicos na disputa pela ordem internacional. Trump sabe-o. Xi sabe-o. Putin sabe-o. É por isso que o cerco a Caracas é muito mais do que retórica sobre gangues desorganizados: é uma batalha antecipada pelo controlo dos recursos que sustentarão a economia global nas próximas décadas. Contudo, e tão ou mais importante neste momento, também se trata de neutralizar um aliado do oriente à porta de casa.

A questão venezuelana pode muito bem congelar as negociações de paz na Ucrânia, pois Putin não vai ceder nessa frente se sentir que está em risco a sua influência na América Latina. Na ânsia de demonstrar força, Trump pode estar a cavar o terreno para um mundo ainda mais polarizado, onde a Venezuela deixa de ser apenas vizinha incómoda dos EUA para se tornar símbolo de um novo confronto.

*Diretor Executivo do Plataforma

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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