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Make business not war

Paulo Rego*

Todos os sinais enviados a partir da reunião de Estocolmo, no início da semana, prenunciam a possibilidade de um acordo comercial entre Estados Unidos e China. As declarações oficiais, mas também a linguagem corporal de Scott Bessent, secretário do Tesouro americano, e do vice-primeiro-ministro cínico, He Lifeng, revelam uma aposta mútua numa plataforma de entendimento. Donald Trump deixou mesmo escapar que o acordo pode fechar-se entre 15 a 20 por cento de tarifas à importação, em linha com os números negociados entre Washington e Bruxelas. Entretanto, surge a hipótese de se adiar por três meses eventuais retaliações comerciais, caso o acordo não seja alcançado até ao dia de hoje; sinal claro de que o acordo é desejado.

Ambos os países têm muito a ganhar, mas é a própria geopolítica planetária que precisa de voltar ao multilateralismo e ao comércio global, sob pena de uma profunda crise económica e política. A dúvida está nas contrapartidas. Trump exigiu à União Europeia avultados investimentos nos Estados Unidos, nomeadamente na área da energia, e Ursula Von Der Leyen não escapou a críticas por parte de alguns países europeus, com destaque para a Alemanha. “Foi duro, mas foi o melhor que conseguimos”, comentou a presidente da União Europeia. No caso da China, a pressão de Trump foca-se na abertura da economia chinesa, em especial para empresas norte-americanas.

O princípio é aparentemente simples: a China quer voltar à globalização, porque o consumo interno é insuficiente para as altas taxas de crescimento que ambiciona. Em troca, Trump quer que o mercado chinês volte a ser campo de crescimento norte-americano. Se for esse o caminho, é expectável que os mercados chineses contemplem não só empresas norte-americanas, mas de todo o mundo, nomeadamente as europeias. No fundo, seria o regresso a um mundo que permitiu forte crescimento económico em várias geografias, pois os fatores de produção chineses, bem como a dimensão do seu mercado, são tão essenciais para o ocidente como são para a China os mercados mundiais.

“Make business not war”. A expressão, sendo norte-americana, traduz no fundo o interesse global num comércio tendencialmente livre e mutuamente profícuo. Foi essa a ideia que conduziu a entrada da China na Organização Mundial do Comércio; mas é a ideia de mútuos benefícios que tem prejudicado a expansão da China nos mercados globais, sobretudo depois da política de Covid-zero. Não se sabe ainda como Pequim reagirá à pressão contra o protecionismo ao qual foi recorrendo para proteger o seu próprio crescimento, justificando-o com o facto de ser ainda um país em desenvolvimento, em muitos setores atrasado em relação aos parceiros mais desenvolvidos. A partir do momento em que a China se afirma como potência mundial, desafia a hegemonia ocidental, mas precisa dos mercados internacionais para continuar a crescer. Por isso é agora mais difícil justificar o seu acesso aos mercados globais, se não abrir a sua própria economia. E esse é o novo desafio de Pequim: encontrar esse equilíbrio negocial.

Para o mundo em geral, os sinais são positivos, porque parece nesta altura possível desanuviar a tensão e a incerteza que hoje dominam a economia mundial. Por fim, a recuperação do comércio global e dos investimentos cruzados é talvez a única forma de se cumprir a visão de Pequim para a Grande Baía, no seu todo – não só Macau e Hong Kong. A questão mais sensível é a de saber como pode esta pequena Região reagir às oportunidades que a abertura da China pode trazer. Na verdade, não há ainda sinais disso; e esse é um desafio muito próprio. Macau pode beneficiar diretamente das relações da China com o resto do mundo, mas para isso falta-lhe ainda muito – quase tudo.

* Diretor-Geral do PLATAFORMA

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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