— Sendo o primeiro modelo de grande escala a nível industrial na China continental direcionado ao mercado dos países de língua portuguesa, quais são as principais vantagens do modelo de português da Deep Future em comparação com outros modelos existentes no mercado?
Lin Yuchu: Como primeiro modelo de grande escala na China direcionado ao mercado lusófono, o nosso modelo de português tem várias vantagens únicas. Em primeiro lugar, no que toca à arquitetura técnica, baseia-se num sistema “multilingue, multimodal e multi-domínio”, suportando quatro tipos de dados: texto, voz, imagem e vídeo. Consegue lidar com conteúdos de 17 domínios diferentes, incluindo negócios, finanças, tecnologia e cultura — uma especialização que falta a muitos modelos generalistas.
Em segundo lugar, em termos de capacidades linguísticas, o modelo integra tecnologia de alinhamento de ‘corpus’ paralelo [tecnologia utilizada no processamento de linguagem natural (PLN) que permite alinhar frases, segmentos ou palavras em dois idiomas diferentes dentro de um corpus paralelo — ou seja, um conjunto de textos com o mesmo conteúdo em duas línguas] chinês-português e inglês-português, com uma compreensão mais aprofundada das estruturas do português europeu e brasileiro. Isto permite adaptar-se com precisão às variantes do português em todo o mundo.
Finalmente, o modelo permite uma implementação leve; graças à tecnologia de compressão, pode ser implementado de forma eficiente, oferecendo capacidades especializadas e funcionando suavemente em vários dispositivos, proporcionando serviços práticos.
— Que aplicações práticas já foram alcançadas com este modelo? Por exemplo, nos domínios da finança, tecnologia, cultura, etc., que problemas reais ajudou empresas ou instituições a resolver?
Lin Yuchu: No setor empresarial, o nosso modelo tem ajudado empresas de comércio externo a ultrapassar barreiras linguísticas ao negociar e assinar contratos com clientes de países de língua portuguesa. Por exemplo, com o apoio do modelo, um vendedor consegue traduzir rápida e precisamente termos financeiros e cláusulas contratuais, aumentando a eficiência das negociações em 40% e encurtando o ciclo de assinatura de contratos em cerca de um terço.
No setor tecnológico, o modelo tem fornecido tradução de documentos técnicos e apoio à comunicação em conferências para projetos de cooperação sino-lusófonos, facilitando as trocas entre investigadores e promovendo projetos conjuntos em áreas como IA e biomedicina.
Nos serviços de conferência, já oferecemos interpretação simultânea em português e outras línguas em mais de 30 conferências internacionais, como a GUSC2024 Global Unmanned Systems Conference, a Competição Luso-Brasileira de Macau, e apresentações de empresas luso-brasileiras de inovação tecnológica (Estação Zhuhai-Qinzhou), entre outras.
— De que forma a integração de dados específicos de Macau no treino do modelo melhora a capacidade de tradução chinês-português?
Lin Yuchu: O treino do modelo combina o pacote de 204 milhões de dados de alta qualidade da ‘Deep Translation Technology’, bem como ‘corpus’ paralelos chinês-português e inglês-português, além de ‘corpus’ monolingues em chinês e português, estabelecendo uma base ampla e profunda para a tradução chinês-português.
Além disso, ao integrar características de Macau relacionadas com a cultura, história e turismo locais, o modelo consegue captar melhor as nuances culturais e o contexto ao lidar com traduções relacionadas com Macau e a sua cultura. Por exemplo, ao traduzir informações sobre festividades tradicionais de Macau, o modelo consegue transmitir com precisão o seu significado cultural único, em vez de uma tradução meramente mecânica, tornando a tradução mais adequada às normas culturais dos públicos lusófonos e melhorando significativamente a precisão e fluidez da tradução.

— De que forma a IA está a mudar a vida quotidiana das pessoas? Esta mudança é gradual ou disruptiva?
Lin Yuchu: A IA está a transformar a vida das pessoas de forma gradual e profunda. Nas casas inteligentes, os dispositivos controlados por IA ajustam automaticamente a temperatura e a iluminação com base nos hábitos dos utilizadores, proporcionando conforto. Nos transportes, os sistemas inteligentes de navegação utilizam IA para analisar o trânsito em tempo real e planear rotas, poupando tempo nas deslocações. Estas mudanças podem ser pouco notadas no início, mas à medida que a IA se torna mais presente, o seu impacto acumulado torna-se significativo, afetando todos os aspetos da vida e do trabalho. É uma transformação gradual, mas com potencial para alterar profundamente estilos de vida tradicionais.
O nosso modelo de grande escala ajudou empresas de comércio externo a ultrapassar barreiras linguísticas na comunicação, negociação e assinatura de contratos com clientes dos países de língua portuguesa
— Como vê o potencial da IA para reduzir a “mecanização” do trabalho humano?
Lin Yuchu: A IA tem, de facto, o potencial de libertar as pessoas de tarefas repetitivas e de baixo valor. Em muitos setores, como a montagem industrial, inspeção de qualidade ou introdução de dados, a IA consegue executar tarefas repetitivas com eficiência. Por exemplo, no atendimento ao cliente no comércio eletrónico, os agentes inteligentes respondem à maioria das questões comuns, permitindo aos operadores humanos concentrarem-se em tarefas mais criativas e estratégicas, como resolver reclamações complexas ou identificar necessidades ocultas dos clientes. Isto otimiza a alocação de recursos humanos e reforça o sentimento de valorização dos trabalhadores.
— Com o amadurecimento da tradução automática, será que a profissão de tradutor será substituída pela IA?
Lin Yuchu: Com o contínuo avanço da IA, é inevitável que grande parte das traduções em larga escala seja realizada por modelos automáticos. A indústria da tradução está, sem dúvida, a atravessar mudanças sem precedentes, e os tradutores devem melhorar as suas competências para acompanhar esta evolução. No entanto, a profissão continua a ser valiosa e está longe de ser obsoleta.
Apesar dos avanços, a tradução automática ainda não iguala os tradutores humanos na gestão de contextos complexos, nuances culturais ou conteúdos especializados. Por exemplo, em traduções literárias ou de poesia clássica chinesa, a sensibilidade do tradutor à emoção e estilo do original é algo difícil de replicar por uma máquina. Além disso, em negociações empresariais de alto nível ou contextos diplomáticos, onde são cruciais a precisão, flexibilidade e capacidade de adaptação instantânea, os tradutores humanos são insubstituíveis.
— Como pensa que a IA irá remodelar a indústria da tradução e que novos rumos trará?
Lin Yuchu: O desenvolvimento da IA trouxe muitas novas oportunidades para a indústria da tradução. Após a tradução automática, é frequentemente necessário realizar uma pós-edição para garantir a qualidade, o que exige profissionais com competências linguísticas e domínio da tecnologia de tradução automática — esta é a chamada função de “pós-editor”.
Ao mesmo tempo, surgem novos papéis como “especialistas em tecnologias de tradução”, que dominam os costumes linguísticos e culturais, integram ferramentas, otimizam fluxos de trabalho e gerem projetos, tirando partido da IA para melhorar a eficiência das equipas.
Além disso, com a expansão das aplicações de modelos multilingues de grande escala, cresce a procura por profissionais que combinem conhecimentos setoriais com competências linguísticas, fornecendo anotações de dados de alta qualidade para treino dos modelos e otimizando os resultados da tradução.