
Outrora um centro movimentado de artesãos e comerciantes, a Rua das Estalagens acolhe agora uma nova vaga de empreendedores que misturam tradição com novas ideias. A Sands China lançou uma publicação bilingue In Search of Its Roots – An Illustrated History of Rua das Estalagens, revelando as histórias desta rua e convidando os residentes e visitantes de Macau a redescobrir as suas lojas centenárias e atmosfera cultural. Todos os meses, o Plataforma e a Sands China destacam a comunidade, os negócios e os esforços de revitalização que propõem dar nova vida a uma das ruas mais antigas de Macau. Através de histórias cativantes, exploramos a sua transformação, honrando o seu passado enquanto moldamos o seu futuro. Cada reportagem será publicada em chinês, inglês e português na última sexta-feira de cada mês em formato impresso e digital.

Saiba mais sobre In Search of Its Roots – An Illustrated History of Rua das Estalagens
- Produtor: Sands China Ltd.
- Editora: Associação dos Artistas de Macau
- Autor: Siguo Chen
- Ilustradora: Shirley Lu
O alfaiate de método único
No interior modesto da Alfaiataria I Choi, no n.º 63 da Rua das Estalagens, Fong Chan Hou continua a medir tecidos com disciplina geométrica. Desde 1973 que a sua segunda casa é a mesa de corte. Nos tempos de maior procura, Hou chegou a empregar mais nove alfaiates, que “dormiam sobre as mesas e acordavam cedo para continuar a trabalhar.”
Fong criou o chamado método de medição tridimensional, que conjuga postura e geometria para garantir que os fatos assentam de forma perfeita. “Na minha mente, já estou a visualizar a forma geométrica no espaço.” Enquanto outros alfaiates se baseiam em proporções padronizadas, Fong segue a razão áurea — 0,618 — para fazer os cortes, “porque o corpo humano está proporcionado assim.”
Hoje, com mais de 70 anos, Fong não tem sucessor. A sua técnica, afirma, “ninguém sabe usar.” Numa rua onde a alfaiataria praticamente desapareceu, Fong continua tão firme como a sua costura — um mestre artesão que preserva a sua arte praticando-a. Hou não é apenas o último alfaiate da Rua das Estalagens — é o guardião de um método que nenhuma escola ensina e nenhum aprendiz herdou.
O Colecionador de Sons
Escondido por cima da Tai Peng Electronics, no n.º 13–15, encontra-se o Sound of the Century – Museu das Máquinas de Som Antigas, uma coleção privada de raridade singular. Fundado por Henry Chan em 2000, reúne mais de 200 peças — fonógrafos, jukeboxes e até um piano autoexecutável de 1857, que exigiu quatro carregadores e custou 20 mil HKD só para ser transportado.
Eletricista de profissão, Chan restaura e mantém todas as máquinas com as próprias mãos. A paixão começou em Toronto, quando viu um rádio dos anos 1930 numa montra. “Cada peça que tenho foi adquirida por mim. Todas têm valor sentimental”, diz, admitindo que chegou a esconder fonógrafos na garagem para evitar críticas da família.
Atualmente, o museu funciona apenas por marcação prévia, mas continua a cativar quem o visita. Uma turista de Taiwan escreveu: “Macau parecia-me tão pequena. Depois do museu, a cidade tornou-se muito maior.” Um japonês mais velho, emocionado por ouvir uma melodia de 1910, curvou-se em silêncio durante um minuto.
Cada máquina é mais do que um objeto; conta uma história. E Henry Chan, através da sua dedicação discreta, trouxe para Macau um arquivo sonoro da nossa civilização, onde o tempo é audível.
O Mestre do Pincel

Chan Fu Ching, mais conhecido por Kuai Hon (“homem estranho”, em cantonês), gravava caracteres chineses em cabos de pincéis com os olhos vendados. Ilustração no livro In Search of Its Roots – An Illustrated History of Rua das Estalagens
Na década de 1960, um homem chamado Chan Fu Ching, autoproclamado como Kuai Hon (“homem estranho”, em cantonês), abriu uma pequena loja no n.º 87 da Rua das Estalagens – Artigos Escolares Kuai Hon. Mas o que tornou o seu negócio inesquecível foi um dom invulgar: com os olhos vendados, gravava com precisão caracteres chineses em cabos de pincéis.
Com o pincel numa mão e a faca na outra, visualizava mentalmente cada traço, numa harmonia perfeita entre pensamento e movimento.
Embora poucos clientes se atrevessem a pedir o serviço, este fez de Kuai Hon uma lenda da rua. A loja encerrou no início dos anos 2000, à medida que a caligrafia tradicional se tornou cada vez menos comum. Ainda assim, o seu legado persiste — um artesão cujo dom peculiar continua a marcar a memória da Rua das Estalagens.
Num tempo em que pincéis e escrita à mão faziam parte da vida quotidiana, a sua habilidade destacava-se pela raridade e precisão. A loja já não existe, mas o nome de Kuai Hon continua a ser falado pelos residentes.
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O Arquivador de História
No n.º 4 da Rua das Estalagens, a Livraria Chun Kei acolhe uma das coleções mais invulgares e ricas de Macau. Entre os seus tesouros encontram-se livros impressos com blocos de madeira das dinastias Ming e Qing, mapas antigos, bilhetes de lotaria, talões de cinema e bandas desenhadas dos anos 1950 e 60. “Não gosto destas coisas. Sou vendedor, não leitor”, costuma dizer o proprietário, Lao Io Chun.
Antigo taxista e negociante de moedas, Lao começou a livraria com algumas caixas de materiais antigos e uma certa predisposição para improvisar. Costumava depender de idosas “que vasculhavam os contentores e me traziam coisas.” O que começou como negócio paralelo tornou-se um repositório de fragmentos do passado impresso de Macau.
Hoje, abre entre as 16h00 e as 19h00. O vasto catálogo está organizado de uma forma que só ele entende. De vez em quando, equipas de filmagem procuram adereços. Turistas entram, intrigados com o que não encontram noutros lugares.
Indiferente à superfície, Lao é proprietário de uma rara coleção, que subtilmente retrata vários períodos da História
Na edição de 25 de julho, exploramos o capítulo pouco conhecido da vida do Dr. Sun Yat-sen na Rua das Estalagens. Desde o seu trabalho no Hospital Kiang Wu até à fundação da Farmácia Chong Sai, descubra como esta rua se tornou o ponto de partida para uma das figuras mais influentes da China moderna.
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