
Outrora um centro movimentado de artesãos e comerciantes, a Rua das Estalagens acolhe agora uma nova vaga de empreendedores que misturam tradição com novas ideias. A Sands China lançou uma publicação bilingue In Search of Its Roots – An Illustrated History of Rua das Estalagens, revelando as histórias desta rua e convidando os residentes e visitantes de Macau a redescobrir as suas lojas centenárias e atmosfera cultural. Todos os meses, o Plataforma e a Sands China destacam a comunidade, os negócios e os esforços de revitalização que propõem dar nova vida a uma das ruas mais antigas de Macau. Através de histórias cativantes, exploramos a sua transformação, honrando o seu passado enquanto moldamos o seu futuro. Cada reportagem será publicada em chinês, inglês e português na última sexta-feira de cada mês em formato impresso e digital.

Saiba mais sobre In Search of Its Roots – An Illustrated History of Rua das Estalagens
- Produtor: Sands China Ltd.
- Editora: Associação dos Artistas de Macau
- Autor: Siguo Chen
- Ilustradora: Shirley Lu
A “Rua do Ouro”
No n.º 41 da Eua das Estalagens, encontra-se um edifício de três andares com uma fachada lateral azul-clara. Em caracteres negros, sobre fundo branco, lê-se a frase: “Ouro de Alta Qualidade na Tin Seng” — um letreiro herdado de uma cidade que é hoje muito diferente do que era há um século atrás.

Num edifício de três andares com uma fachada lateral azul-clara, lê-se a frase: “Ouro de Alta Qualidade na Tin Seng”. A Ourivesaria Tin Seng tem celebra 106 anos de existência. Ilustração no livro In Search of Its Roots – An Illustrated History of Rua das Estalagens.
Já na dinastia Qing a indústria do ouro assumia um papel de destaque no comércio de Macau. E, durante décadas, o epicentro dessa atividade concentrava-se na Rua das Estalagens. A Ourivesaria Tin Seng abriu há 106 anos, em 1919. Nos anos seguintes, beneficiou desta localização estratégica, como uma das principais artérias entre o Porto Interior – de onde desembarcavam mercadorias e pessoas de Hong Kong e de vários portos do sul da China – e o centro urbano de Macau, recorda Chan Kuok Leong, proprietário da Tin Seng, e responsável por um negócio familiar que já vai na terceira geração.

Antes da relocalização do Porto Interior, a Rua das Estalagens era uma das principais artérias de ligação com o centro urbano. Era uma rua com paragens assíduas de pescadores e mercadores. Plataforma
Mesmo após a construção da Avenida de Almeida Ribeiro, em 1918, o dinamismo manteve-se. Em 1920, cerca de 60 mil pessoas — aproximadamente 75% da população local — estavam ligadas à indústria da pesca. Os barcos atracavam regularmente no Porto Interior e os pescadores dirigiam-se à cidade para fazer compras. A Rua das Estalagens era uma paragem quase obrigatória.
“Os pescadores compravam muita ourivesaria”, lembra Chan. Os homens do mar eram de costumes: compravam ouro para oferecer a familiares e amigos, mas também começaram a fazê-lo para guardar as suas poupanças em alto mar. O ouro era um método prático: resistente à água, fácil de transportar e, sobretudo, independente dos bancos — instituições nas quais ainda poucos confiavam.
A década de 1960 marcou o auge da Rua das Estalagens. Das 32 ouriversarias em toda a cidade, 13 estavam nesta rua, o que lhe rendeu o apelido de “Rua do Ouro”.

Chan Kuok Leong, proprietário da Ourivesaria Tin Seng, com o seu staff. Chan Hin Io
A década de 1960 marcou o auge da Rua das Estalagens. Das 32 ouriversarias em toda a cidade, 13 estavam nesta rua, o que lhe rendeu o apelido de “Rua do Ouro”. Nessa altura, a Ourivesaria Tin Seng empregava diversos mestres ourives para responder à procura constante e manter uma oferta variada. “Há várias décadas, as jóias de ouro eram feitas à mão; mais tarde, passou-se para a fundição em molde e para técnicas de escultura como o corte floral. Atualmente, tudo é processado utilizando a tecnologia de eletrodeposição, que resulta em peças mais refinadas e consistentes”.
Leia também: Rua das Estalagens: Liderança comunitária sob o espírito de “Chou Toi”
Foi só por volta da década de 1990, com o declínio da pesca e a relocalização do Porto Interior, que a dinâmica comercial de Macau começou a dispersar para outras zonas da cidade, levando ao fim da “Rua do Ouro”. As grandes cadeias de Hong Kong abriram espaços nas zonas turísticas, levando ao desaparecimento gradual das ourivesarias tradicionais. Porém, não é esse o caso da Tin Seng – hoje a única ourivesaria tradicional na Rua das Estalagens.

A Ourivesaria Tin Seng chegou a empregar diversos mestres ourives para responder à procura constante e manter uma oferta variada. Plataforma
Chan atribui a sobrevivência da loja à sua reputação e à fidelidade da clientela. Embora os tempos áureos tenham passado, há esperança de que a Rua das Estalagens volte a brilhar — não apenas como rua comercial, mas como símbolo de revitalização. “Continua a haver procura”, diz. “Muitos jovens estão também a comprar ouro como investimento”.
Chan reconhece que o seu negócio tem uma vantagem sobre os demais: a indústria do ouro pouco sofreu com o desenvolvimento do comércio eletrónico. “O comércio de ouro raramente acontece online, porque os clientes querem ver o produto pessoalmente. Por isso, concentramo-nos apenas em fazer bem a nossa parte”.
Parte dos clientes que chegam à Tin Seng também procuram o ouro como forma de celebrar o matrimónio. Aqui, outra loja situada na Rua das Estalagens tem sido imperial na manutenção de costumes locais: a Quinquilharia 168. Esta loja, com várias décadas de serviço, especializa-se em vestir noivas, especificamente no estilo “kwan kwa” – popular desde o século XVIII, durante a dinastia Qing.

O “kwan kwa” consiste num vestido de noiva tradicional chinês de duas peças, composto por uma saia (kwan) e um casaco (kwa), normalmente usado no Sul da China. O tecido é bordado com símbolos auspiciosos, como o dragão ou a fénix, representando sorte e prosperidade aos noivos. Plataforma
O “kwan kwa” consiste num vestido de noiva tradicional chinês de duas peças, composto por uma saia (kwan) e um casaco (kwa), normalmente usado no Sul da China. O tecido é bordado com símbolos auspiciosos, como o dragão ou a fénix, representando sorte e prosperidade aos noivos. Por norma, utiliza-se durante a cerimónia do chá ou quando a noiva regressa a casa dos pais após o casamento.
“Estamos abertos há 36 anos”, diz Wong Wai Lan, proprietária da Quinquilharia 168, juntamente com o seu marido, Lo Teng Kam, também presidente da Associação das 6 Ruas “Chou Toi” (ver edição passada). Wong lembra que a Rua das Estalagens funcionava como um serviço one-stop para casamentos, com várias lojas especializadas em diferentes fases da cerimónia. “A nossa loja construiu uma clientela estável e tem um valor histórico”.
De geração em geração

Wong Wai Lan, proprietária da Quinquilharia 168, juntamente com o seu marido, Lo Teng Kam, também presidente da Associação das 6 Ruas “Chou Toi” , na porta da Quinquilharia 168. Plataforma
Wong conta como muitas mães que compraram aqui os seus vestidos de casamento quando eram jovens trazem agora as suas filhas. “Houve uma mãe que me disse que tinha alugado o seu vestido na Quinquilharia 168 há 25 anos atrás. A filha acabou por vestir o mesmo estilo que a mãe. Comoveu-me muito ver a tradição passar para a geração seguinte.”
Com o tempo, a loja foi adquirindo vasta experiência na organização de casamentos tradicionais chineses, oferecendo uma orientação abrangente. “Desde todo o processo de casamento, seleção da data, até à seleção dos artigos do dote, explicamos tudo ao pormenor.”
Estamos a pensar em lançar um serviço em que as pessoas possam alugar um vestido kwan kwa para uma sessão fotográfica em locais emblemáticos de Macau

Wong Wai Lan, proprietária da Quinquilharia 168, mostra um dos vestidos de noiva disponíveis na Quinquilharia 168. Plataforma
Embora seja uma linha de trabalho cada vez mais rara, Wong quer continuar a passar este legado cultural às próximas gerações. Casais jovens querem cerimónias mais diversas e a Quinquilharia 168 tem trabalhado nessa oferta, arrendando os vestidos e conciliando as vontades dos pais e dos filhos. Mas também pensa em formas alternativas de promover esta tradição. “Estamos a pensar em lançar um serviço em que as pessoas possam alugar um vestido kwan kwa para uma sessão fotográfica em locais emblemáticos de Macau”, afirma, no sentido de transformar esta tradição também numa experiência cultural. “As cerimónias de casamento tornaram-se muito mais simples. Queremos sair do enquadramento tradicional e oferecer algo novo.”
Wong está “muito grata” com o programa de revitalização, liderado pela Sands China. Além de trabalhar no embelezamento da rua, trouxe novos negócios e novos canais de promoção. A responsável espera que as novas lojas “contribuam para atrair mais visitantes”, mas também não tenciona ficar para trás, confidenciando que estão a explorar novas ideias, apesar de manterem o foco no “kwan kwa”. Como refere, a revitalização é um esforço coletivo. “As lojas têm de cooperar e os estabelecimentos tradicionais têm de se esforçar mais.”

Como parte do programa de revitalização, a Sands China pintou as fachadas de várias lojas tradicionais, em colaboração com a Macau Artist Society. A fachada da Quinquilharia 168 retrata precisamente o estilo “kwan kwa”, com a presença do dragão e da fénix ao lado dos noivos. Plataformaceria entre a Sands China e a Macau Artist Society. Plataforma
Como residente e comerciante na Rua das Estalagens, encara esta nova fase como uma missão pessoal, mas acredita que a rua já tem “muitas histórias”, com estabelecimentos como a Ouriversaria Tin Seng, a Livraria Chun Kei e a Vidraria Cheong Seng a revestir a rua de uma “rara longevidade”.
“A Rua das Estalagens é calorosa e está cheia de pessoas simpáticas. Eu própria adoro passear por esta rua”, diz, convidando residentes e turistas a verem por si o que a rua tem para oferecer.
Na edição 27 de junho, leia sobre as histórias dos talentos escondidos que definem o legado cultural único da Rua das Estalagens.
