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Charme e comunicação – tempo da negociação

Paulo Rego*

O Ministério Público de Macau emite uma nota – raríssima – assumindo a cooperação judiciária nas investigações em Portugal ao eventual crime eleitoral no círculo emigrante; o Fórum Macau reage à nossa notícia e recua na intenção de excluir a RAEM da Semana Cultural, dando força às associações lusófonas que o negaram, por escrito, de forma consertada; o Chefe do Executivo reage ao PLATAFORMA e comunica que quer mesmo ir a Lisboa… e sai à rua, mostrando liderança e gerindo o ambiente que, sabe bem, está a deteriorar-se. Afinal, que admirável mundo novo é este? O da normalidade; mas sobretudo o da consciência de que é preciso agir, tomar conta da mensagem, e criar condições para que o plano geral avance.

Entretanto, multiplicam-se reuniões e visitas de charme, em diferentes setores, onde o poder real mostra interesse por gente há muito afastada do poder formal, sem canais nem capacidade negocial. Como isso inclui instituições e agentes da comunidade portuguesa; por um lado, indica uma gestão cuidadosa do impacto negativo em torno do Conselho das Comunidades, do “deputado português”, ou das relações com a imprensa. Começa também a ser gerido o ambiente que Sam Hou Fai vai encontrar em Lisboa; quer na agenda institucional, quer na imagem mediática.

A notícia de que Kevin Ho será deputado também tem que se lhe diga. É o primeiro sinal que o novo ciclo dá na inclusão da nova geração das famílias locais, agastadas com a perda de negócio e de influência política. Kevin Ho tem percurso próprio; e, como em tempos disse ao Hoje Macau, mais que sobrinho de Edmund Ho, é neto de Ho Yin. Mas é quem é; o que anuncia a consciência da necessidade de uma nova ‘pax’ social. Mudam os protagonistas, mas sobretudo o espírito de um ciclo que entrou a matar, com todos os efeitos negativos, na prática do curto prazo; e muito pouca sedução para os efeitos positivos, na teoria do tempo médio e longo. O que adensa incómodos e resistência velada, afastando alianças e compromissos.

Não é possível cumprir plano algum – com méritos, defeitos, e contradições – sem que ele seja percebido, negociado e adaptado à realidade; criando condições para o que nem sequer existe

Se alguma lição há a tirar disto, é que quem manda parece começar a perceber que há correções a fazer; mas também anuncia o tempo da negociação. Empresários, políticos, corporações profissionais, associações, população em geral; Portugal e suas instituições… seja quem for, que percebam que a paralisia não serve ninguém. Não defende os seus próprios interesses, não corrige agendas, não ilumina quem tem de decidir; e, sobretudo, não serve Macau. Não é possível cumprir plano algum – com méritos, defeitos, e contradições – sem que ele seja percebido, negociado e adaptado à realidade; criando condições para o que nem sequer existe. Resolver Hengqin, sem mostrar em que medida beneficia Macau, é uma impossibilidade; libertar o consumo para o outro lado da fronteira, descurando a crise das PME, é um erro grave; querer investimento de fora – o que implica importar massa crítica – sem convencer os lóbis locais que isso cria oportunidades – e não perda de face e desemprego – adensa a contestação e o contravapor.

O mandato de Sam Hou Fai está a começar; vai mais que a tempo de corrigir o que começou mal, assustou e irritou muita gente. Este não é o tempo do poder a martelo, nem do ‘compliance’; muito menos do refúgio no Palácio e em grupos de estudo. É tempo da ação, do charme e da comunicação; da sedução das pessoas, do investimento, e das relações internacionais – Portugal à cabeça, porque tem mais a defender; logo, mais contributos a dar. A diversificação, a integração regional, e abertura internacional, têm de servir quem está, quem vem, e quem lá fora nos recebe – ninguém adere por decreto. Quem manda tem de perceber isso, e a todos compete perceber qual é a sua oportunidade negocial; encaixando interesses e agendas no quadro do plano geral. Não é contra ele – isso não tem caminho – é corrigindo os seus erros e omissões, alinhando perceções. O poder, quando insiste na cegueira, condena-se a si próprio ao fracasso; mas o medo e o encolhimento pioram tudo. A responsabilidade primeira é do poder, mas não está isento dela quem simplesmente cala e consente.

* Diretor Geral do PLATAFORMA

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