O encerramento progressivo dos casinos-satélite é descrito pelo Governo como um não-problema. O Chefe do Executivo assegura que o impacto no Produto Interno Bruto será “insignificante”, tentando sossegar o público com a solidez dos grandes números. Mas a realidade não cabe apenas nas contas macroeconómicas. E minimizar o impacto económico de uma decisão não é o mesmo que resolvê-lo.
Importa recordar que o fecho dos casinos-satélite não foi imposto — é um sintoma do novo modelo de gestão alavancado pela revisão à Lei do Jogo. Esta mudança legislativa visou corrigir distorções, fechar portas ao jogo desregulado, ao branqueamento de capitais e a redes de crime organizado que, durante demasiado tempo, operaram nas margens do sistema. Diz-se que os valores que rodavam no mercado paralelo rivalizavam com o que operava sob a lei. Nesse sentido, a reforma é legítima, necessária e estrutural.
Porém, qualquer medida tomada em nome da legalidade deve também ser acompanhada pela consciência dos seus efeitos colaterais. E quando esses efeitos afetam centenas de trabalhadores, arrastam fornecedores, fragilizam edifícios comerciais, provocam uma desvalorização estimada de até 40% no imobiliário de zonas onde estes casinos operavam, então há, sem dúvida, um problema económico. Que não desaparece por ser etiquetado como “insignificante”.
Qualquer medida tomada em nome da legalidade deve também ser acompanhada pela consciência dos seus efeitos colaterais
O valor dos casinos-satélite não residia apenas na sua quota de mercado (representavam cerca de 5% das receitas brutas). Residia na função que exerciam enquanto canais de redistribuição: pequenas e médias empresas que prestavam serviços, empregos que sustentavam famílias, bairros que ganhavam dinamismo e comércio por estarem ligados àquela operação. Quando tudo isso fecha, há consequências — mesmo que o PIB global mal oscile.
A luta pela transparência não deve anular a empatia nem dispensar políticas de transição. A legalidade é uma condição do desenvolvimento, não o seu sinónimo. Se o objetivo é construir uma economia mais limpa, mais regulada e mais sustentável, então é essencial que se reconheça, com frontalidade, o custo dessa transição. E que se atue sobre ele.
O Governo não deve esconder o impacto das suas reformas; tem de os enfrentar e explicar com sentido de responsabilidade. E não se deve normalizar o que está por detrás desta narrativa: Macau está a aceitar a redução da atividade económica, desde que não afete a métrica principal do seu modelo. O problema é que esse modelo representa uma dependência desmedida de meia dúzia de operadores que, ao concentrarem valor, concentram decisões, e risco.
As economias são redes, não blocos. E nessas redes, mesmo os pequenos sustentam equilíbrios delicados. Um Governo que se propõe a diversificar a economia deve preocupar-se com os sinais da sua erosão, mesmo os mais discretos. Sobretudo quando esses sinais afetam pessoas reais, bairros concretos e equilíbrios invisíveis ao PIB.
*Diretor Executivo do Plataforma