Início » China–UE: O paradoxo da força irresistível

China–UE: O paradoxo da força irresistível

Guilherme Rego*

A China está a tornar-se mais popular que os Estados Unidos na Europa. É o que revela o mais recente estudo da Alliance of Democracies Foundation, baseado em mais de 100 mil entrevistas. Em quase todos os países europeus, Pequim ultrapassa Washington em perceção pública — uma inversão face a 2021, quando o mesmo estudo valeu à organização dinamarquesa sanções chinesas por “prejudicar gravemente a soberania e os interesses da China ao espalhar mentiras e desinformação”.

O regresso de Donald Trump à Casa Branca parecia, à partida, criar condições para uma reaproximação entre Bruxelas e Pequim, ecoando o pragmatismo cauteloso de 2017. Mas o mundo de hoje é mais rígido, mais fragmentado, e mais implacável com as ilusões. Para a União Europeia, qualquer aprofundamento da relação com a China está condicionado por duas exigências inegociáveis: o reconhecimento da agressão russa à Ucrânia e um compromisso claro com a correção dos desequilíbrios comerciais provocados pelo modelo industrial chinês.

No primeiro ponto, a exigência europeia é moral e política. A China, dizem os diplomatas europeus, não precisa de ser beligerante para reconhecer que há um agressor e há uma vítima, e que a neutralidade formal pode converter-se, na prática, em conivência. Pequim discorda: nomear a guerra é, acima de tudo, trair Moscovo — parceiro estratégico, fronteiriço e cúmplice no projeto de contestação à ordem ocidental. Ao recusar essa nomeação, a China afirma a sua coerência interna, mas fecha uma porta à aproximação com a Europa.

O segundo ponto é mais económico, mas não menos político. Com o mercado americano encerrado por tarifas punitivas, a China passou a escoar o seu excesso de produção para a Europa. Veículos elétricos, painéis solares, baterias e bens industriais chegam a preços imbatíveis, sufocando a indústria europeia num momento em que o continente procura, precisamente, reduzir dependências e reforçar a sua autonomia estratégica. A Europa pede contenção; a China responde com realismo: com o consumo interno fraco e o setor imobiliário em crise, não pode abdicar da sua máquina produtiva.
Ambos os lados sustentam posições coerentes. Nenhum fala por má-fé. Mas os seus modelos são, na essência, inconciliáveis. Exigir à China que reconfigure a sua diplomacia e redesenhe o seu modelo económico é pedir que renuncie a pilares da sua estabilidade. Em Pequim, essa exigência não é vista como negociação, mas sim como interferência.

Para agravar a equação, a recente trégua comercial entre Washington e Pequim diluiu a influência da Europa. Com o mercado americano parcialmente reaberto e o sudeste asiático a absorver cada vez mais exportações chinesas, Pequim já não depende tanto da Europa. E os Estados Unidos, agora sob liderança mais agressiva, pressionam os seus aliados a alinhar numa frente comum contra a China — excluindo empresas chinesas de cadeias de valor críticas e elevando o custo da neutralidade europeia.

A relação entre a UE e a China enfrenta, assim, um paradoxo clássico: o que acontece quando uma força imparável vai contra um objeto inamovível? Estamos perante um impasse lógico, uma tensão estrutural. Nenhuma das partes quer romper, mas ambas recusam ceder. Nenhuma deseja o confronto, mas nenhuma aceita as condições da outra.

A Europa tenta manter-se ao centro — defendendo os seus valores, protegendo a sua economia e evitando a vassalagem a qualquer das potências. Mas essa posição intermédia exige influência, coesão e autonomia — atributos que, neste momento, estão em défice. O verdadeiro desafio europeu é manter-se independente numa disputa que não controla.

*Diretor Executivo do Plataforma

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website