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Cheque em branco pode estar careca

Paulo Rego*

Sam Hou Fai ainda agora chegou; pouco tempo teve para fazer o que seja; e entra com um orçamento que nem é dele – aprovado por Ho Iat Seng. O novo Chefe do Executivo traz ideias – com sentido estratégico – sobre diversificação da receita, Hengqin e internacionalização. Plano esse, colado às linhas de força do Poder Central, e amplamente elogiado: no Continente, na Assembleia Legislativa, na imprensa. A tradição política dá-lhe um cheque em branco; tempo para mostrar o que vale e ao que vem. Mas a voz do povo já se faz ouvir: nos cafés, nas redes sociais, nos fóruns públicos. Porque não se vislumbram soluções no curto prazo; o foco na Grande Baía faz temer o desfoque nos problemas locais; e a colagem nacional, não contestada na teoria, lança dúvidas sobre a prática dos interesses locais. A tensão já se faz sentir, o que lança alguma luz sobre o discurso musculado – preventivo – de Xia Baolong em torno da segurança nacional, submissão dos deputados ao poder Executivo, e a obrigação – não negociável – de investir em Hengqin.

Será que as PME sentem um mundo novo? Não, porque ele não existe; e o desvio do consumo para o outro lado da fronteira não circunstancial abstrusa; é mesmo estrutural, porque faz todo o sentido para o consumidor. Será que veremos lojas a abrir, a restauração a crescer, múltiplos empregos nas áreas 1+4? Certamente, não para já. Será que as novas zonas de cultura e lazer vão mudar a face da cidade e o perfil do turismo? Talvez um dia, se muitas coisas mudarem, a começar pela visão conservadora do turismo de lazer que, no fundo, o bloqueia. Será mesmo possível atrair o investimento estrangeiro bloqueando a massa crítica que tem de o acompanhar? Toda a gente percebe que não, incluindo os poderes central e local; o que não quer dizer que haja consensos para acabar com o protecionismo e a birofobia. E será que Hengin é mesmo a solução para o emprego e o rendimento médio local? Ou será mais um problema para a curta manta orçamental, que não chega para tapar os pés sem destapar a cabeça?

Os três eixos de desenvolvimento fazem todo o sentido: integração regional, plataforma lusófona e diversificação económica (…) O problema é que, tendo-se perdido tanto tempo na prossecução desses objetivos; não tendo Macau cultura de negócios e competitividade, massa crítica, e real capacidade de investimento, é difícil ver como e quando se produzirão os resultados

Os três eixos estratégicos de desenvolvimento fazem todo o sentido: integração regional, plataforma lusófona – agora luso-espanhola – e diversificação económica. No fundo, três pernas do mesmo andarilho, que se completam e alimentam umas às outras. Não há diversificação económica sem Grande Baía; não há internacionalização sem abrir às empresas estrangeiras as portas do Continente; não há multinacionais chinesas em Macau se não virem nisso o horizonte do mercado global. O problema é que, tendo-se perdido tanto tempo na prossecução desses objetivos; não tendo Macau cultura de negócios e competitividade, massa crítica, e real capacidade de investimento, é difícil ver como e quando se produzirão os resultados dessa estratégia. Já para não falar do medo, clássico, de quem tem a vida assente em pressupostos protecionistas – e rentismo de Estado – e percebe agora que estão a acabar – se é que já não acabaram.

Estamos naquele limbo em que toda a gente tem razão; e ninguém percebe bem como sair disto. Não há futuro sem um plano estratégico; mas tudo leva o seu tempo. Não havia plano, nem prática, sem que Pequim lhe pusesse a mão em cima; mas a perda de poder local é óbvia… mas também não há harmonia se a vida se torna cada vez mais difícil e sobe a temperatura da angústia. As tarefas são muitas e têm de ser levadas a cabo; mas o amor do povo depende muito mais do curto prazo do que de um futuro que, por muito sentido que faça, lança a angústia em quem luta contra o tempo; e nem sequer sabe o que fazer num novo mundo que lança mais desafios do que certezas.

* Diretor-Geral do PLATAFORMA

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