Início » Guerra comercial desvia rotas logísticas

Guerra comercial desvia rotas logísticas

A desamericanização da cadeia de abastecimento tornou-se uma tendência assumida entre os operadores logísticos de Macau. Apesar de não ser diretamente visada pelas tarifas norte-americanas, os efeitos colaterais da guerra comercial e o aumento dos custos de transporte estão a acelerar a diversificação das origens de importação

Viviana Chan

A guerra comercial entre a China e os Estados Unidos tem “pouco impacto direto em Macau, para já”; diz ao PLATAFORMA Ip Sio Man, presidente da Associação da União dos Fornecedores de Macau. Contudo, alerta, poderá provocar “sérios problemas no transporte marítimo no futuro”. Devido às tarifas norte-americanas sobre produtos chineses, há menos fluxo no comércio de retorno: “Um navio porta-contentores transporta normalmente dezenas de milhares de contentores; mas no regresso, se apenas transportar algumas centenas, não cobre os custos”.

Esse desequilíbrio, segundo Ip, pode traduzir-se numa redução da frequência de navios, escassez de contentores e aumento acentuado dos custos de importação. “No ano passado, Macau importou cerca de 10 mil milhões de patacas em produtos dos EUA; e parte desses produtos pode ser gradualmente substituída por outros países”. A carne, exemplifica, poderá vir da Austrália, Nova Zelândia ou Brasil, enquanto frutas como laranjas, maçãs e uvas já começam a ser importadas da América do Sul e da China continental. “Antes, os EUA dominavam; agora, a qualidade de outros mercados já satisfaz a procura.”

Antes, os EUA dominavam; agora, a qualidade de outros mercados já satisfaz a procura
Ip Sio Man, Associação da União dos Fornecedores de Macau

A recente decisão de Pequim de permitir a reexportação de frutas estrangeiras para Macau, através do Interior da China, abre ainda mais canais logísticos. “Essa política dá-nos margem para diversificar a origem dos bens e ganhar flexibilidade na cadeia de abastecimento”, conclui Ip Sio Man.

Logística em adaptação

O custo do transporte marítimo dos EUA para a Ásia ronda atualmente as 10 mil patacas por contentor. Ainda está “sob controlo”, diz Ip Sio Man; mas se os atrasos nos envios se tornarem regra, “o que normalmente leva um mês poderá passar a demorar três ou quatro meses”. Isso obrigaria as empresas a anteciparem encomendas, ou encontrar alternativas. Garante, no entanto, que “não haverá rutura no abastecimento”, dado que os produtos essenciais — como óleos, arroz e massas — vêm sobretudo da Tailândia, China e Japão.

A capacidade produtiva da China continental também ganha peso. “Por exemplo, a farinha, que era produzida nos Estados Unidos e no Canadá, agora é maioritariamente fabricada na China, quer por fábricas locais quer estrangeiras”, refere Ip.

Lei Kuok Fai, diretor da Associação de Logística e Transportes Internacionais de Macau, defende uma “resposta discreta” do setor à questão tarifária dos EUA. Sublinha que Macau mantém o estatuto de zona aduaneira independente e não figura nas listas de aumentos tarifários, mas alerta para a necessidade de monitorizar os desenvolvimentos.

Enquanto microeconomia, será difícil para Macau evitar totalmente os efeitos colaterais do conflito tarifário
Lei Kuok Fai, Associação de Logística e Transportes Internacionais de Macau

Segundo dados oficiais, Macau exporta cerca de 13 mil milhões de patacas por ano, sendo apenas 300 milhões para os EUA — maioritariamente vestuário e artesanato.

No entanto, a recente decisão dos EUA de revogar a isenção de tarifas para mercadorias de baixo valor (inferiores a 6.400 patacas) vindas da China e de Hong Kong já teve impacto. “Essa medida afetará diretamente o comércio de reexportação de Hong Kong e, por extensão, o transporte aéreo de carga de Macau”, aponta Lei, prevendo uma queda até 20% no volume de encomendas via aérea.

Perante este novo cenário, Lei defende a diversificação de fornecedores e possíveis ajustamentos no modelo de reexportação via Hong Kong. “Enquanto microeconomia, será difícil para Macau evitar totalmente os efeitos colaterais do conflito tarifário”.

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website