Trump vê nas tarifas a mais eloquente manifestação do poder norte-americano. A guerra comercial nos moldes atuais propõe o fim da globalização, e só o Presidente norte-americano pode inverter esse caminho.
A escalada de tensões a que assistimos parecia aleatória e imprudente, sobretudo para a economia dos EUA. Porém, ao abrir as janelas da renegociação ao planeta, excepto à China, torna-se claro o objetivo final. Para Pequim, reservou a clausura da hostilidade, com tarifas que ascendem a 245%. É um cerco premeditado, talvez menor caso a China não tivesse retaliado aos anteriores 145% com as suas próprias tarifas de 125%. Contudo, dita muito do que esperam os demais, caso não alinhem com Trump.
A China, fiel à sua arte milenar de paciência estratégica, tentava posicionar-se como fiadora da globalização, mas o contexto atual também os forçou a avisar o resto do mundo — quem pactuar com Washington, pactua contra nós. E na dança de ameaças e retaliações, a música já transcende os protagonistas.
Trump quer uma nova ordem mundial que orbite sob o eixo gravitacional de Washington, sujeitando cadeias de valor à lógica da força e aliados à lógica da submissão. Se essa força gravitacional não for suficientemente atrativa para alguns, Trump só coloca uma hipótese: ou estão connosco, ou estão connosco. Quem não estiver, é esmagado, pois as tarifas agora na mesa de negociações não terão comparação com as que se avizinham.
O que inquieta não é apenas o confronto. É o que nele cresce: um ambiente internacional onde a cooperação se desvanece e os países são empurrados para decisões que não querem tomar. A Ásia-Pacífico, a América Latina, a África — regiões inteiras são coagidas a escolher entre dois impérios, quando gradualmente começavam a encontrar um equilíbrio bilateral.
O The Economist desenha um quadro inquietante no seu diagnóstico mais recente: inflação estrutural, paralisia do investimento, erosão da confiança — sintomas de um sistema a perder o seu centro de gravidade. É difícil de sobreviver à degradação das certezas, muito menos com instituições multilaterais reduzidas a observadores impotentes.
Aqui reside o verdadeiro perigo. A escolha entre um lado e outro deixou de ser ideológica ou económica. Passou a ser ditada pelo medo — não do que se ganha ao alinhar-se com um, mas do que se perde ao ser excluído pelo outro. Uma inversão moral que transforma parceiros em reféns e cristaliza um mundo de blocos cerrados, capazes apenas de dialogar entre si. A cooperação assume-se cada vez mais como um ato de autodefesa e sobrevivência. Mesmo que os países agora em negociações com os Estados Unidos queiram trabalhar acordos que não antagonizem Pequim – mantendo uma precária ideia de globalização -, é preciso que Trump esteja disponível para isso. Só que a política de America First não é imparcial a quem fica em segundo lugar; muito pelo contrário.
*Diretor Executivo do Plataforma