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O tigre comunicador

Paulo Rego*

Ágil, dinâmico e dominador; no zodíaco chinês o Tigre é símbolo de força e de liderança. É extremamente competitivo, gosta do desafio, tem garra e é ambicioso. Mas é também sincero, afetivo, generoso e bem-humorado; gosta de festa, convive, é sensual e sedutor. No fundo, para além do uso da força, tem várias formas de se impor; ensaia primeiro a sedução – comunica. Sam Hou Fai, o tigre que comanda o ciclo, está na fase de sedução.

Sabe fazê-lo, tem mais jeito. A cara fechada do antigo presidente do Tribunal de Última Instância, esconde afinal um sorriso que o humaniza; tem conversa fácil e piada quanto baste. Sam Hou Fai mostra um dom que se vai destacando nas múltiplas receções que tem levado a cabo na tradição política do fim do ano chinês: as línguas que usa. O português é uma das línguas oficias da RAEM; e o cantonês uma das línguas da China. É ele que o diz. Afinal, que valor especial tem isso? Podia ter discursado em mandarim, como sinal de reverência, na presença do Presidente Xi Jinping. Mas fê-lo em cantonês; e mostra gosto nisso. Assim comunica a autonomia, especiaria local numa culinária nacional cada vez mais pública e notória. Ou seja, diz abertamente, sem hesitações, que segue a receita e o gosto de Xi Jinping; ostenta o poder que lhe é delegado, mas sabe bem a força do paladar local.

A comunicação é um instrumento importante para moderar reações e bloqueios. E há o histórico recente, negativo, de um palácio encolhido sobre si próprio, com feridas que a palavra sabe curar

E usa também o português. Fê-lo na receção aos jornalistas de inglesa e portuguesa; quando reuniu com os delegados lusófonos; e no convívio com representantes da comunidade macaense. Ganha pontos. É muito diferente; 25 anos depois da transição de poderes, estar à mesa com um CE que fala em português, brinca com coisas sérias; e lembra, muitas vezes, que vai ali contar coisas que não se podem escrever, ou repetir lá fora. Parece, até, que vai dizer o que não pode; depois não é o caso, mas transmite uma sensação de segurança. Abre janelas que estavam há muito tempo fechadas; há um ar que se respira melhor.

A cidade é pequena, tem o hábito da relação; por isso importa perceber que o novo poder chega para comunicar; o que não acontecia desde os tempos de Edmund Ho – e fazia muita falta. Isto não quer necessariamente dizer que será um líder consensual; que a sua ação depende do que diz, ou do que ouve. Mas quer dizer que percebe o ciclo que aí vem. Mudar de vida, como a cobra muda de pele, é sempre um exercício difícil; traz primeiro a dor, antes do mundo novo. A comunicação é um instrumento importante para moderar reações e bloqueios. E há o histórico recente, negativo, de um palácio encolhido sobre si próprio, com feridas que a palavra sabe curar. Sam Hou Fai está a fazê-lo. Vale o que vale; mas tem valor.

A reação tem sido positiva. Os ecos que nos chegam da diplomacia, ou dos líderes da comunidade macaense (ver página 6), dizem-no que Sam Hou Fai abre o novo ciclo de governação estendendo o tempo do cheque em branco. Deixo aqui o testemunho direto, na receção aos jornalistas. Jantar, em vez de almoçar, cria um ambiente deslaçado, em contraponto com os almoços institucionais e apressados; falar, em vez de calar os olhos no prato, é um ato conquistador; falar em português parece uma coisa menor, mas neste tempo de transição acelerada para a integração regional; e de rendição ao Primeiro Sistema, é, no mínimo refrescante. Este tigre comunica – e isso importa. Vai usar o poder; isso é claro na dinâmica desta história; nota-se, até, na sua linguagem corporal. Mas não vai fazer só isso. Sam Hou Fai sabe falar.

*Diretor-geral do PLATAFORMA

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