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“Não é fácil travar o declínio gradual”

Há 12 manifestações recomendadas para inscrição na “Lista do Património Cultural Intangível” em consulta pública até 2 de janeiro de 2025. Quem tenta manter estas tradições vivas agradece o reconhecimento, mas também receia que pouco mude com a integração nessa lista

Carol Law

Em Macau, são vários os desafios na preservação do património cultural intangível. Para a Dança Folclórica Portuguesa, um dos itens agora em consulta pública, a maior dificuldade é atrair jovens. “Outras danças, como o ballet, são muito populares entre os pais, porque há competições e espetáculos que os pais e as escolas querem ver. Mas em Macau, a Dança Folclórica Portuguesa é apresentada em eventos promocionais, não em competições”, diz ao nosso jornal Ana Maria Manhão Sou, presidente da Associação de Danças e Cantares Portugueses “Macau no Coração”.

Em 2020, a Dança Folclórica Portuguesa foi inscrita no Inventário do Património Cultural Intangível de Macau, à semelhança de muitas outras agora em consulta pública (ver caixa). Porém, Ana diz que não sentiu grande diferença depois dessa inscrição, até ao segundo semestre deste ano. Com o aproximar do 25.º aniversário da transferência da administração de Macau para a China, a exposição da dança folclórica mudou. “Temos mais espetáculos e mais estudantes que vêm recolher dados para os seus trabalhos”.

Ana espera que após a inclusão da dança folclórica na lista, o público tenha uma mentalidade diferente e se interesse mais por este património cultural imaterial. Contudo, já se sente satisfeita se as autoridades reconhecerem a cultura da dança folclórica e a dedicação dos bailarinos.

Planeamento

A Crença e Costumes de Tou Tei foi a primeira das 12 a ser inscrita no Inventário do Património Cultural Intangível de Macau, em 2017, mas continua a enfrentar uma série de desafios. Sob a influência das ideias modernas, cada vez menos pessoas acreditam nos costumes tradicionais, salienta Rhino Lam, membro do Conselho do Património Cultural. Por outro lado, a gestão das cidades modernas não dá espaço à Crença e Costumes de Tou Tei. “Não deve desaparecer completamente, mas não é fácil parar o seu declínio gradual.”

A Crença e Costumes de Tou Tei foi inscrita na “Quinta Lista Nacional de Itens Representativos do Património Cultural Intangível da China” em 2021. Segundo o texto da consulta pública, existem em Macau cerca de dez templos dedicados exclusivamente ao Deus da Terra e mais de 160 pequenos e grandes altares de Tou Tei nas ruas de Macau.

No entanto, Rino Lam explica que estes se encontram maioritariamente em zonas antigas, havendo menos locais de adoração nos novos bairros da cidade. De acordo com o urbanista, a maioria dos locais religiosos funciona em propriedade privada. Quando há faltam instalações privadas numa determinada zona, como é o caso dos novos bairros dedicados à habitação pública, há menos locais de culto. Isto porque infraestruturas dedicadas à religião não são incluídas nos concursos do Instituto de Habitação. “Oficialmente, não se trata de assistência social, mas de religião. Será uma lacuna?”, reflete o urbanista.

Os aprendizes também precisam de ganhar a vida e pode ser necessário apoio nesta área, para que possam trabalhar na transmissão do património com tranquilidade
Jason U, presidente da Associação para a Reinvenção de Estudos do Património Cultural de Macau

Rhino Lam lembra que os residentes de Seac Pai Van chegaram a montar os seus próprios altares, “provando que há procura”, mas estes foram posteriormente retirados pelo Instituto para os Assuntos Municipais. “A localização da Zona A é definitivamente mais isolada e tem uma escala maior. Há ainda menos propriedades privadas nas proximidades, pelo que a situação pode ser ainda mais grave do que em Seac Pai Van. Já é altura de começarmos a pensar em como lidar com a situação”.

Mudar para manter

Alguns dos itens já integrados na lista são reconhecidos tanto em Macau como em Hong Kong. Porém, os recursos alocados à digitalização e acesso público não são os mesmos, afetando assim os resultados. A Faculdade de Música da Universidade Chinesa de Hong Kong construiu uma base de dados online para que os interessados possam saber mais sobre a Ópera Cantonense e as Canções Narrativas de Naamyam.

Há também um grupo religioso em Hong Kong que criou um website para promover a história da Música Ritual Taoista. Em contrapartida, não é fácil encontrar em Macau uma base de dados centralizada e relativamente abrangente.

O Governo de Macau protege o património cultural imaterial através da Lei de Salvaguarda do Património Cultural e de atividades culturais para aumentar a sensibilização do público. Segundo Jason U, presidente da Associação para a Reinvenção de Estudos do Património Cultural de Macau, deve ser criada uma plataforma que reúna o trabalho de diferentes organizações e herdeiros, facilitando assim o acesso e a popularização do património.

Acredita também que as oportunidades e plataformas de aprendizagem aprofundada permitem aos participantes compreender melhor o seu próprio património cultural e os apoios à sua promoção. “Os aprendizes também precisam de ganhar a vida e pode ser necessário apoio nesta área, para que possam trabalhar na transmissão do património com tranquilidade.”

12 MANIFESTAÇÕES em consulta

As 12 novas manifestações recomendadas para inscrição na “Lista do Património Cultural Intangível” são: Crença e Costumes de Tou Tei, Dança do Dragão, Dança do Leão, Dança Folclórica Portuguesa, Festival da primavera, Tung Ng (Festival de Barcos-Dragão), Regata de Barcos-Dragão, Artes Marciais de Tai Chi, Confeção de Pastéis de Nata, Confeção de Biscoitos de Amêndoa, Confeção de Bolos de Casamento Tradicional Chinês e Confeção de Massas de Jook-Sing. A consulta pública começou a 4 de dezembro de 2024 e termina a 2 de janeiro de 2025.

Segundo a UNESCO, o “património cultural imaterial” refere-se aos hábitos de vida, costumes, conhecimentos e competências, bem como às ferramentas, objectos, artefactos e espaços culturais que lhes estão associados.

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