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Criptomoedas crescem no combate à inflação

À medida que as condições económicas globais flutuam, as criptomoedas, em especial a Bitcoin, tornam-se gradualmente numa proteção contra a inflação elevada e a desvalorização monetária. Fenómeno particularmente evidente em países como a Turquia, Venezuela e Argentina. Contornando sistemas financeiros tradicionais; são instrumentos descentralizados e estáveis para quem procura preservar a sua riqueza

Robby Kwok, Presidente executivo da Associação de Interfluxo de Activos Digitais de Macau

A inflação refere-se ao aumento dos preços, ao longo do tempo, levando à diminuição do poder de compra. Quando a inflação não é controlada, a moeda de uma nação desvaloriza-se e os cidadãos enfrentam o desafio de perder rapidamente a sua riqueza. Embora, quando moderada, faça parte do crescimento económico, a hiperinflação pode ter efeitos catastróficos. Na Venezuela, por exemplo, observou-se uma hiperinflação superior a um milhão por cento, em doze meses. O bolívar quase não tem valor.

Nestas situações, as pessoas são forçadas a procurar meios alternativos para preservar o valor e manter as atividades económicas básicas. Criptomoedas como o Bitcoin tornaram-se assim opções viáveis ​​para armazenamento e transações de riqueza.

Ferramenta contra a inflação

Uma das principais características das criptomoedas, como a Bitcoin, é o seu perfil deflacionário. A Bitcoin impõe como limite o fornecimento de 21 milhões de moedas; ou seja, não pode ser emitido infinitamente, como as moedas fiduciárias, o que evita a inflação causada pela impressão excessiva por parte dos governos. O modelo operacional descentralizado da Bitcoin não é controlado por nenhum governo ou autoridade central, proporcionando aos indivíduos proteção nos períodos de instabilidade económica.

Além disso, a transparência e a rastreabilidade do Bitcoin contribuem para um certo nível de confiança financeira. As transações podem ser rastreadas em tempo real, através da tecnologia blockchain; um nível de confiança que muitas vezes falta nas moedas tradicionais. Por fim, a capacidade de transferir rapidamente criptomoedas à escala global aumenta muito a sua atratividade, especialmente em países com sistemas financeiros ineficientes.

Venezuela: plena hiperinflação

A Venezuela é um dos exemplos clássicos do recurso às criptomoedas para combater a hiperinflação. Desde meados da década de 2010, a economia venezuelana deteriorou-se rapidamente, com as taxas de inflação a dispararem. Em 2018, ultrapassou um milhão por cento, tornando o bolívar quase inutilizável para as transações.

Confrontados com o colapso económico, e uma moeda pouco fiável, os venezuelanos recorreram à Bitcoin – e outras criptomoedas – para armazenamento e transações de valor.
A Venezuela registou um rápido aumento nas negociações de Bitcoin, tornando-se um dos líderes na utilização de criptomoedas na América Latina. Plataformas ‘peer-to-peer’, como a LocalBitcoins, são agora canais cruciais para a negociação em Bitcoin, permitindo aos utilizadores protegerem as suas poupanças e escaparem à inflação.

Argentina: inflação persistente

A Argentina enfrenta há muito uma inflação elevada. O rigoroso controlo governamental sobre transações cambiais torna também difícil converter pesos em dólares, ou outras moedas estáveis. Como resultado, ‘stablecoins’, como o USDT, indexado ao dólar, tornaram-se a escolha preferida dos argentinos para proteger a sua riqueza.

As ‘stablecoins’ oferecem a estabilidade do dólar, ao mesmo tempo que permitem aos utilizadores contornar limitações dos sistemas financeiros tradicionais.

O Bitcoin e o Ethereum são também cada vez mais populares na Argentina, como forma de contornar as restrições cambiais e de manter a autonomia financeira. As criptomoedas permitem aos argentinos transações internacionais, sem interferência governamental, protegendo-se ainda da desvalorização da sua moeda.

Turquia e o colapso da lira

A Turquia é outro caso típico. Desde 2010, a lira desvalorizou-se significativamente em relação ao dólar, tendo a inflação ultrapassado, repetidamente, dois dígitos anuais. Face à instabilidade política, e medidas económicas pouco convencionais, muitos turcos recorreram às criptomoedas – especialmente à Bitcoin – para proteger as suas poupanças da desvalorização da lira.

Apesar das repetidas tentativas do Governo para restringir o comércio de criptomoedas, a procura continua forte, fazendo da Turquia um dos países com taxas de adoção de criptomoedas mais elevadas do mundo.

Autonomia financeira

Para quem vive em países com inflação severa, as criptomoedas não são apenas ferramentas de combate à inflação, mas também uma escolha para a autonomia financeira. Quando os sistemas bancários tradicionais falham, as criptomoedas oferecem um sistema financeiro transparente e descentralizado, concedendo às pessoas maior controlo.

Além da sua função de armazenamento, as criptomoedas permitem que as pessoas participem na economia global. Por exemplo, os venezuelanos podem receber remessas do estrangeiro através da Bitcoin, contornando restrições do sistema financeiro local; e os argentinos podem utilizar as ‘stablecoins’ para escapar às políticas monetárias nacionais e manter a sua participação no comércio internacional. Na Turquia, o público pode utilizar criptomoedas para lidar com flutuações extremas da moeda local, garantindo que as suas poupanças não são afetadas negativamente.

Perspetiva Pessoal

Na minha opinião, à medida que mais países enfrentam a inflação e a desvalorização monetária, as criptomoedas desempenharão um papel cada vez mais importante na resposta a estes desafios. Para quem vive em países onde os sistemas financeiros tradicionais não funcionam eficazmente, representam uma tábua de salvação financeira – não só são descentralizadas, como oferecem um meio relativamente estável de preservação do valor.

No entanto, o desenvolvimento das criptomoedas nestes países também enfrenta desafios. A volatilidade dos preços de criptomoedas, como a Bitcoin, continuam a ser um risco, especialmente para populações que já enfrentam dificuldades. Além disso, as restrições governamentais ao comércio de criptomoedas podem representar obstáculos à sua utilização, potencialmente impactando a conveniência e a segurança dos utilizadores.

No entanto, acredito que as ‘stablecoins’ e a Bitcoin desempenharão um papel cada vez mais significativo. À medida que se aprofunda a compreensão das pessoas sobre os ativos digitais, e melhora a acessibilidade às carteiras digitais e bolsas de criptomoedas, a adoção de criptomoedas como ferramentas contra a inflação pode aumentar significativamente.

Venezuela, Argentina e Turquia ilustram a importância das criptomoedas no combate à inflação. Ao fornecer um meio de preservação do valor, que pode substituir moedas fiduciárias instáveis, as criptomoedas ajudam os indivíduos a salvaguardar a sua riqueza, em contextos de instabilidade económica e má gestão governamental dos mercados financeiros.

Com a crescente popularidade dos ativos digitais, e os avanços tecnológicos, as criptomoedas desempenharão um papel cada vez mais crítico no futuro das economias inflacionárias, oferecendo um caminho viável para o reequilíbrio da economia global.

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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