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Porque cai o investimento estrangeiro na China

Jorge Costa Oliveira, Consultor financeiro e business developer

Depois de uma década de elevado investimento direto estrangeiro (IDE) na China, que culminou num máximo histórico de 107,2 mil milhões de dólares (mM$) no Q1 de 2022, o IDE na China caiu 29,1 por cento em termos homólogos, entre janeiro e junho de 2024, um declínio recorde nos primeiros seis meses do ano.

Quais são as razões subjacentes a esta redução significativa?

Na última década, os custos laborais na China aumentaram a um ritmo muito mais elevado em comparação com concorrentes regionais, enquanto a produtividade laboral no país crescia lentamente.

Outros custos, como a energia e as rendas de espaços comerciais ou industriais, também aumentaram significativamente.

O crescimento da economia chinesa desacelerou, estando o seu PIB a crescer a ritmo mais lento que o de países como a Índia, o Vietname, as Filipinas, a Malásia e a Indonésia. O aumento do custo de vida, a quebra dos preços do imobiliário, o aumento da dívida privada e as perspetivas negras quanto à evolução demográfica são fatores que contribuem também para desencorajar potenciais investidores na China.

A incerteza decorrente de guerras tarifárias e comerciais entre os EUA (e a UE) e a China levaram à adoção de políticas ocidentais de reshoring e nearshoring e, ainda, à promoção de cadeias de valor domésticas mais autónomas. Novas e agravadas tarifas, medidas antidumping e outras restrições ao comércio têm levado muitos investidores a procurar outros países, como base para a produção de bens sujeitos a tais restrições nos EUA e na UE se fabricados na China (ex.: material fotovoltaico) ou vice-versa (ex.: semicondutores avançados).

O crescimento da economia chinesa desacelerou, estando o seu PIB a crescer a ritmo mais lento que
o de países como a Índia, o Vietname, as Filipinas, a Malásia e a Indonésia

A crescente tensão geopolítica entre a China e o Ocidente, decorrente da progressiva expansão internacional da China, quer económica quer militar, inquieta os principais países ocidentais, em especial os EUA, que a consideram um perigo para a sua hegemonia global. A postura chinesa de neutralidade colaborante [com a Rússia], face à guerra iniciada pela invasão da Ucrânia pela Rússia, agravou essa perceção e levou o Ocidente a impor restrições à entrada de empresas chinesas nos seus mercados. A aplicação de medidas simétricas pela China tem levado grupos ocidentais a sair da China (ex.: Dell, Samsung, Daikin) ou a restringir a sua operação na China à produção para o mercado doméstico (ex.: Sony); outros (ex.: Apple, HP) planeiam mudar o seu principal centro de produção – sobretudo para o Sudeste Asiático e a Índia -, mas a escassez de trabalhadores ou fornecedores qualificados ainda não lhes permite tal.

A crescente tensão geopolítica entre a China e o Ocidente, decorrente da progressiva expansão internacional da China, quer económica quer militar, inquieta os principais países ocidentais, em especial os EUA

A era da China como fábrica do mundo para onde grupos transnacionais estrangeiros deslocalizam a sua produção parece estar a chegar ao fim.

Artigo originalmente publicado no Diário de Notícias

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