Início » Reunião entre líderes proporciona oportunidade para Macau se explicar ao mundo

Reunião entre líderes proporciona oportunidade para Macau se explicar ao mundo

A reunião entre o Presidente norte-americano, Joe Biden, e o seu homólogo chinês, Xi Jinping, trouxe avanços significativos numa série de áreas que tinham congelado com a crescente tensão entre as superpotências. Taiwan continua a ser o “caso mais complexo” para a relação bilateral, segundo analistas políticos contactados pelo PLATAFORMA. Macau e Hong Kong terão agora “mais espaço” para atuar. Contudo, é preciso “explicar muito melhor ao mundo” a aplicação de “Um País, Dois Sistemas”

Gonçalo Francisco e Guilherme Rego

O Presidente norte-americano, Joe Biden, e o Presidente chinês, Xi Jinping, reuniram-se na quarta-feira passada (15) na Califórnia, Estados Unidos, na esperança de amenizar a tensão crescente entre as duas superpotências.

“Ambos ficaram a ganhar com este encontro” e “sem nunca chocarem”, comenta Teresa Esteves, mestrada em ciência política. Os líderes concordaram estreitar relações numa série de áreas de interesse, nomeadamente a nível militar, de inteligência artificial e de alterações climáticas. Por outro lado, como Biden mencionou na conferência de imprensa pós-cimeira, “concordámos que cada um de nós podia pegar no telefone, ligar diretamente e ser ouvido imediatamente”.

Esta aproximação trouxe, certamente, pontos positivos, mas nem todos poderão vê-la com o mesmo ânimo. “Acima de tudo, penso que quem saiu a perder com este entendimento foi mesmo a Rússia e Vladimir Putin. Há uma clara posição assumida pela China com esta aproximação aos EUA. Se se aproximam, sabem que têm de tomar uma posição diferente da que têm tomado perante a guerra na Ucrânia”, diz a politóloga portuguesa, que acredita que a China tem pendido mais para o lado russo.

Acima de tudo, penso que quem saiu a perder com este entendimento [entre Xi e Biden] foi mesmo a Rússia e Vladimir Putin
Teresa Esteves, mestrada em ciência política

“Foi uma visita importante. Só o facto de ambos terem permitido fotografias num ambiente de total cortesia diz algo sobre o que poderá ser o futuro, cordial, de uma nova era”, salienta, acrescentando: “As guerras, as tensões políticas, e a crise económica mundial fizeram com que ambos tivessem chegado a um ponto de: ou os EUA e a China se unem de algum modo, ou as coisas tenderão a assumir uma proporção inacreditável. A cimeira foi por isso muito importante, há uma clara aproximação de ambos os países.”

Wang Xiangwei, conhecido ‘China Watcher’ e antigo editor-chefe do South China Morning Post (2012-2015), diz que “à primeira vista” não houve “avanços significativos, exceto a promessa de manter a comunicação”. Porém, avisa, o significado desta visita “não deve ser subestimado”. Para Xiangwei, “o facto de dois líderes mundiais não só se terem encontrado, mas também terem prometido reabrir as comunicações entre militares e reforçar a colaboração em questões tão importantes como a inteligência artificial e as alterações climáticas já é mais do que suficiente para permitir que o resto do mundo respire em alívio”.

A reaproximação começou com a ida a Pequim do secretário de Estado norte-americano, Anthony Blinken, em junho. Mas até esta reunião entre os líderes, “havia demasiadas dúvidas sobre o desenrolar das relações bilaterais, sobretudo desde que os EUA abateram o alegado balão espião chinês em fevereiro”, sublinha.

Taiwan é mais complexo

A questão de Taiwan também foi abordada pelos líderes, mas aqui as declarações de Biden e Xi divergiram. O Presidente norte-americano reafirmou o seu compromisso com a política de ‘Uma Só China’; ao mesmo tempo que deixou “claro” que não espera “qualquer interferência” nas próximas eleições em Taiwan, agendadas para janeiro. Já Xi reiterou que “a China vai ser reunificada, e isso é impossível de parar”.

Na opinião de Teresa Esteves, na Ilha Formosa poderá “acontecer um pouco o oposto”. “Admito que os EUA poderão ‘afastar-se’ um pouco das conversas sobre Taiwan, mas nunca a um ponto de neutralidade total.”

Wang Xiangwei é da mesma opinião: “A China e os Estados Unidos poderão continuar afastados em relação a Taiwan”. Mesmo assim, considera ter uma “leitura diferente da maioria dos analistas”. O politólogo acredita que apesar da divergência neste capítulo, “a cimeira contribuiu para atenuar as especulações de que Pequim poderá recorrer à força para reunificar Taiwan nos próximos anos, o que tem preocupado muito os investidores internacionais”.

Os oficiais de ambas as cidades precisam de trabalhar em conjunto para explicar muito melhor essa política [‘Um País, Dois Sistemas’] ao mundo exterior, mas até agora não o fizeram
Wang Xiangwei, ‘China Watcher’ e antigo editor-chefe do South China Morning Post

Xiangwei diz que, de acordo com alguns relatos, Xi disse a Biden que a China não tem intenções de invadir Taiwan em 2025 ou 2027 – como tinha sido especulado por alguns generais norte-americanos no ano passado.

“No período que antecedeu a cimeira, oficiais chineses e meios de comunicação estatais afirmaram repetidamente que a questão de Taiwan está no centro dos interesses fundamentais da China”, aponta. Porém, “curiosamente”, Xiangwei diz que “nem a China nem os EUA destacaram a questão de Taiwan nas suas leituras pós-cimeira”, o que “dá a impressão de que a questão é mais complexa do que parece”.

Macau com “mais espaço”

Pequim tem sido alvo de muitas críticas por parte do Ocidente por não respeitar a autonomia e os acordos de transição das regiões administrativas especiais.

Depois da cimeira, Xiangwei pensa que “há mais espaço” para Hong Kong e Macau “expandirem a sua cooperação e colaboração no meio de tensões geopolíticas crescentes”.

Contudo, acredita que as RAE terão de se esforçar para mostrar ao mundo que ainda gozam de autonomia. “Penso que há muita desinformação e mal-entendidos sobre a aplicação do princípio ‘Um País, Dois Sistemas’ em Hong Kong e Macau. Os oficiais de ambas as cidades precisam de trabalhar em conjunto para explicar muito melhor essa política ao mundo exterior, mas até agora não o fizeram”.

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website