Ganhou e perdeu quem mais mereceu - Plataforma Media

Ganhou e perdeu quem mais mereceu

Pronto, acabou o Mundial, agora é curtir a ressaca de ter ganho quem não gostaríamos (qualquer um menos Portugal), embora a escolha por um mal menor já nem se colocasse na final. Franceses ou argentinos? Igual a estarmos pendurados de cabeça para baixo e o infame Dr. Evil nos perguntar como preferimos morrer: “já decidiu mizzter Bond? Caldeirão de azeite a ferver ou debulhadora mecânica?”

Na noite da derrota com Marrocos milhões de portugueses desistiram do Mundial. Nessa altura desejei ser o meu irmão quando há uns tempos lhe falava de Messi e genuinamente comentou “eu conheço esse nome, é um jogador de futebol italiano, não é?” Oh doce ignorância, por isso as crianças, os animais e as personagens nas gravuras dos folhetos das Testemunhas de Jeová vivem felizes. A informação, o conhecimento são uma maldição, digo-vos. Quanto ao desporto-rei resta-me a dura realidade onde já na passada terça-feira enquanto se disputava o acesso à final no Qatar entre Croácia e Argentina, num Alvalade de portas fechadas devido às inundações em Lisboa, o Paulinho marcava 3 golos num jogo da Taça da Liga, uma competição que ninguém entende como funciona ou porque existe. Eh pá que coincidência do caneco: o Paulinho só brilha em grande estilo quando não se pode ver ou toda a gente está distraída a olhar para o lado, parece o Fernando Mamede… Consta que tem marcado golos à brava em jogos que se andam a disputar na clandestinidade do mundial e finalmente compreendi a qualidade que Amorim vislumbrou para se gastarem uns 20 milhões na pérola: o Paulinho é o bota d’ouro do metaverso. Na dimensão onde vivo lamento que a sua imagem me chegue qual holograma cheio de interferências: não parece estar a crescer, aos 30 anos só se for na barriga, nesta idade ainda se chama Paulinho, é o “tío” daqueles miúdos com quem joga e por isso às vezes leio “Paulinho” mas percebo “Tolinho”. Para me agravar as dores, um dos dois principais adversários, o Benfica, tem feito uma gestão genial da sua equipa: como esta época ainda não sofrera uma derrota, aproveitou o hiato de competições para organizar um jogo a feijões, fazendo questão de perdê-lo; pronto, matou-se o borrego, um monstro que ao contrário do Paulinho ia crescendo a cada vitória, e a partir de agora é escusado os adversários lutarem que nem bárbaros, já não serão os primeiros a derrotar o Benfica, nem o hipotético complexo do iminente falhanço persegue mais a equipa encarnada.

Por falar em borregos, relembrei que Portugal é um país que demora a reagir porque os portugueses receiam perder mas perdem-se na discussão de axiomas: Fernando Santos manifestou a intenção de não se demitir! Como é que ainda caio na ilusão de pensar que os dirigentes portugueses têm noção do ridículo? Bem, o problema parecia residir nuns milhõezitos que o sr. engenheiro não receberia se saísse pelo próprio pé, convinha-lhe ser despedido ou fazer um acordo. O seleccionador podia e devia ter-se demitido no dia da derrota com o Uruguai no anterior mundial, um ciclo que para a generalidade das pessoas se fechara, menos para ele e para a Federação. Contestado após esse fracasso, tudo o que veio a seguir teve o mesmo desfecho, desbaratando oportunidades num Europeu e numa Liga das Nações. O que fez então a Federação? Prolongou-lhe o contrato até à altura em que precisaria de usar fraldas e andarilho. Como é que ainda caio na ilusão de pensar que os dirigentes portugueses têm noção da competência? Conclusão: há quatro anos sabia-se que os próximos anos seriam desperdiçados, confirmou-se agora o número exacto, foram… quatro. Custa ser português, afinal não é só no futebol que se perdem anos de palmadinhas nas costas até os problemas explodirem de frente. Só aí os responsáveis saem de cena, chamuscados e humilhados como o coiote do Bip Bip depois de atirar o pau de dinamite, ele voltar e lhe rebentar na cara.

Além do falhanço técnico e administrativo da FPF na defesa dos interesses do nosso futebol, ainda há aquela imprensa desportiva, portanto especialistas, que conseguem perceber menos de futebol que eu, um leigo. Saber não sei, mas noto que quem culpa pelas derrotas o jogador X ou Y ainda sabe menos que eu de modalidades colectivas. Descobriram que o guarda-redes, o Diogo Costa, falhou no golo de Marrocos… Quer dizer, eu vi o rapaz a não saltar o suficiente, bem como o Rúben Dias nas covas, mas talvez a abordagem táctica devesse ter sido outra, não permitir que a bola chegasse lá, porque tanto antes do golo como depois a bola chegou lá muitas vezes e em todas sucedeu o mesmo, a diferença é que nas outras os marroquinos atiraram ao lado. Tal como o incrível Gonçalo Ramos do jogo da Suíça e que contra os marroquinos nem cheirou o esférico porque os médios e avançados instruídos a não perder a posse de bola entabularam um inútil rodízio com ela não o municiando (uma táctica igual à espanhola), nenhuma bola veio parar aos pés do miúdo e só uma chegou à cabeça; vamos acusar o Gonçalo e os restantes jogadores de não terem feito nadinha? Que disparate… E se o Diogo Costa mereceu a confiança do treinador e esteve bem em todos os jogos porque raio haveria de ser substituído neste? Estas teorias de constatar o óbvio à posteriori são de idiotas à busca de sangue, e quais melgas têm apetites específicos, suspeito de uma predilecção por “sangue azul”.

Excepto a imprensa afecta a essa cor não vi mais nenhuma dar o devido destaque ao acto de bravura de Pepe jogar o segundo tempo contra Marrocos com um braço partido. Pepe tem 39 anos, nunca se queixa, está ali para as curvas e tanto os piores como os melhores traços do seu carácter nos provocam ora embaraço ora orgulho porque espelham os traços da rija têmpera lusitana. Enquanto no Real Madrid pontapeava um adversário no chão eu via D. Francisco de Almeida no Índico a usar turcos como balas de canhão para se vingar da morte do filho; quando soube que jogou com um braço partido vi Duarte de Almeida, o decepado, a quem cortaram as mãos na batalha de Toro e continuou a segurar o estandarte nacional com a boca. Pepe não é um português qualquer, foi nascer do outro lado do Atlântico para nos mostrar como somos, cândidos e ferozes, bravos e cruéis. O “Fado Tropical” do brasileiro Chico Buarque e do moçambicano Ruy Guerra definem o pior de Pepe: “Sabe, no fundo eu sou um sentimental; todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo. Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, meu coração fecha aos olhos e sinceramente chora”. O melhor de Pepe apresenta-se extraordinário: à beira dos 40 anos é um dos mais notáveis defesas centrais do mundo em actividade… e da história. São várias as entrevistas onde ele afirma que Portugal lhe deu tudo; é preciso dizer que ele deu tudo a Portugal. Parabéns e obrigado, capitão! Até ver ainda faz falta à selecção.

A malta do futebol tem muitas superstições, tenho também as minhas: estava firmemente convencido que a final se disputaria entre… a Adidas e a Nike. Vejam a lógica que sustenta a fezada: se nos quartos de final restavam seis equipas Nike, uma Puma e uma Adidas, estava na cara que a Argentina (Adidas) seria um dos finalistas; se a equipa Puma (Marrocos) chegou às meias finais com uma Nike, então a França ganhava a Marrocos, se tivéssemos ganho a Marrocos seria difícil prever o adversário da Argentina porque os franceses equipam Nike como nós, assim foi fácil. Durante um mês houve choro, drama, alegria, emoção, à final, o que na verdade interessa, compareceram duas das quatro que ao início considerei favoritas, e que incluíam Brasil (Nike) e Espanha (Adidas), logo não estou propriamente surpreso, só duas podiam jogar, e de marcas diferentes. Ah pois, às vezes esquecemo-nos do que movimenta o mundo, seja do futebol ou de qualquer outra actividade. Quanto à selecção que ganhou a final, há que dar os parabéns à …… (preencher com o nome da vencedora) porque ganhou quem colectivamente mais mereceu, reflectindo o sábio dedo de …… (preencher com o nome do seleccionador que a dirige) e a sua principal figura …… (preencher com o nome da estrela) durante o torneio demonstraram que …… (preencher com a descrição das evidências depois de as termos visto).

*Embaixador do Plataforma

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