Cooperação Inter-regional é a “chave” para atrair investimento - Plataforma Media

Cooperação Inter-regional é a “chave” para atrair investimento

O stock do investimento direto em Macau proveniente dos Países de Língua Portuguesa aumentou quase 19 por cento entre 2014 e 2020. O presidente do Instituto de Gestão de Macau, Samuel Tong, refere que a RAEM precisa de expandir o seu mercado para poder continuar a ser um destino atrativo ao investimento estrangeiro. O dirigente afirma mesmo que a ligação com a Grande Baía é a “chave”; não a ruína da cidade

2020 foi um ano duro para Macau. O investimento direto estrangeiro caiu 14,5 por cento relativamente a 2019, totalizando pouco mais de 300 mil milhões de patacas. A queda acentuada, porém, não se refletiu tanto no investimento vindo dos Países de Língua Portuguesa (PLP), que apenas diminuiu 0,02 por cento, passando para 9,75 mil milhões.

Pegada Lusófona Rende-se a Portugal

Desde de 2014 que a Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC) divulga os dados referentes ao investimento externo por territórios específicos. Segundo os mesmos, o stock de investimento direto em Macau oriundo dos PLP aumentou quase 19 por cento entre 2014 e 2020. No entanto, observa-se que a grande maioria ainda vem de Portugal (99,8 por cento).

Samuel Tong explica que não é fácil precisar a origem do investimento, já que “muitas empresas escolhem paraísos fiscais como sede”. Esse fenómeno não permite que os dados divulgados correspondam à realidade, pois “até os capitais vindos de Portugal e do bloco lusófono podem entrar em Macau a partir de paraísos fiscais”. Contudo, considera o volume de investimento lusófono pequeno, quando comparado a outras regiões e países.

Mercado Pequeno, Grande Potencial

De acordo com a DSEC, os PLP ocupam apenas o oitavo posto como origem de investimento direto estrangeiro. No topo da lista encontra-se Hong Kong (84 mil milhões de patacas), seguido das Ilhas Caimão (69,47) e Interior da China (58,77).

Samuel Tong destaca que Macau atrai maioritariamente investimentos nas áreas de serviços de alto nível, turismo e hotelaria, dando o exemplo da multinacional portuguesa Hovione, uma farmacêutica que se instalou há décadas em Macau. Nesse sentido, acredita que esse setor português pode ser competitivo no mercado doméstico da China e que essa expansão pode ser feita através de Macau. Outro exemplo que salienta é o da indústria aeronáutica brasileira, que pode aproveitar o mercado de Zhuhai – forte nesse setor. Por essa razão, enaltece que a Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin possibilita a expansão do mercado de Macau e, consequentemente, torna a região mais atrativa ao investimento.

“Chave” Para Impulsionar o Investimento

Após a criação da Região Administrativa Especial de Macau, foi assinado o Acordo de Estreitamento das Relações Económicas e Comerciais entre o Continente Chinês e Macau (CEPA), para alargar o mercado de Macau. Contudo, até ao dia de hoje, “a indústria do jogo continua a ser o principal destino do investimento, seja do Interior da China, ou do estrangeiro”, diz. Mas esta cooperação inter-regional defendida no âmbito da Grande Baía é a “chave” para diversificar e aumentar os investimentos, nomeadamente aqueles do universo lusófono, explicita.

Citando dados estatísticos, Samuel Tong aborda também os destinos do investimento externo, que se prendem geralmente à indústria do jogo e atividades financeiras, sendo que constituem 67 por cento do investimento total.

A seu ver, o capital estrangeiro avalia vários aspetos antes de escolher o destino, sendo que o primeiro é sempre a dimensão do mercado. “O objetivo do investimento é fazer lucro. Um mercado pequeno não atrai investimento estrangeiro, porque qualquer investimento tem risco e os investidores procuram alto retorno e baixo risco. Num mercado pequeno, enfrentam alto risco e o lucro projetado não compensa.”

Por outro lado, o ambiente de investimento e as infraestruturas também são fatores importantes. Como o economista elenca, avalia-se “as redes de transportes, fornecimento de energia, recursos humanos, nível salarial e eficácia do Executivo.”

Modelo “Perfeito Para Macau”

Face ao problema, o economista aponta para o modelo utilizado em Singapura, rasgando elogios: “O desenvolvimento comercial é promovido através de acordos de cooperação inter-regional, o que serve como exemplo perfeito para Macau”, salienta. “Singapura é um mercado pequeno, no entanto, investir lá significa poder expandir os negócios para a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), Estados Unidos, Japão, China, entre outros parceiros”, explica, acrescentando que deseja essa extensão de mercado para Macau “através da Zona de Cooperação Aprofundada em Hengqin e da Grande Baía”.

“Os primeiros investimentos vão estimular o desenvolvimento económico e, mais tarde, Macau será capaz de atrair novos investimentos”, tendo em conta o plano de diversificação económica encetado. Mas é também necessário “reunir as condições” para tal e, portanto, espera que as autoridades criem mais e melhores condições para estimular o desenvolvimento das indústrias, nomeadamente um regime fiscal inovador, políticas de terrenos e de recursos humanos.

Todos Ganham

Há quem diga que para um ganhar, outro tem obrigatoriamente de perder. A integração de Macau na Grande Baía tem levantado essa questão, mas Samuel Tong afasta-a. “Investir em determinadas áreas em Macau ou em Hengqin não significa enfrentar a concorrência de outras cidades ou regiões”. O académico explica que a introdução de novas indústrias normalmente segue uma estratégia e que a cadeia de fornecimento é montada em diferentes regiões, dando um exemplo: “Em Zhuhai pode-se montar a produção e Macau pode servir como plataforma de exposição.”

Macau goza de vantagens ao ser um porto de comércio livre e não ter controlo apertado de entrada e saída de capitais. O investimento externo vai beneficiar a economia local e periférica”, vaticina.

Tão Distante Quanto a Distância

Outra vantagem da integração inter-regional de Macau é a capacidade de diversificar as atrações turísticas. O académico vinca a dificuldade ou até mesmo impossibilidade de atrair visitantes oriundos de cidades a uma ou duas horas de avião somente para visitar a cidade. Neste capítulo, remete para a importância de Hengqin: “Quando os turistas asiáticos visitam a Europa, é difícil imaginar que visitem apenas uma cidade histórica, já que existem tantas para ver. Por isso, fazer turismo na Europa inclui, normalmente, visitar uma série de países. O pacote de Macau deve incluir mais atrações.”

REALIDADE COVIDIANA

Perante as atuais medidas de prevenção à Covid-19, o economista confessa que a dependência de Macau ao Interior da China se tem consolidado. Essa circunstância também obriga a que Macau aplique as restrições praticadas no Continente, para não perder o fluxo que, até há pouco tempo – antes do surto ter praticamente fechado a cidade -, se observava. Por essa razão, acredita que a política de casos zero deve ser seguida, pois assegura que os maus resultados são apenas “temporários” e que o relaxamento das restrições às viagens irão inverter a tendência.

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