Em entrevista ao portal ONU News, o responsável do Gabinete da ONU de Serviços para Projetos (UNOPS) alertou para que as limitações logísticas decorrentes do fecho de uma das maiores vias de navegação do planeta poderão desencadear uma tragédia humanitária sem precedentes.
Segundo um estudo do Programa Alimentar Mundial (PAM) citado por Moreira da Silva, 45 milhões de pessoas poderão ser afetadas por uma crise alimentar histórica devido ao colapso iminente do mercado global de fertilizantes, causado pelo conflito no Médio Oriente.
O resultado direto da guerra – e da instabilidade na passagem marítima entre o golfo Pérsico e o golfo de Omã – foi um aumento acentuado do preço dos fertilizantes, um dos quais, a ureia, é um dos mais utilizados na agricultura, sendo essencial para o crescimento de culturas como milho, trigo e citrinos.
“O preço da ureia aumentou 65%. O preço do amónio aumentou 40% e, hoje mesmo, produtores de fertilizantes em países de África, como Marrocos e África do Sul, ou na China, ou na Turquia, ou na Índia, já estão a ser fortemente afetados por esta disrupção do mercado de fertilizantes”, explicou o português, que foi nomeado diretor-executivo do UNOPS em março de 2023.
“Portanto, o problema já não é o mercado de fertilizantes do golfo da Pérsia, é o mercado global que está em fortíssima instabilidade e isto pode dar origem, se não atalharmos rapidamente, a uma crise alimentar de enormes proporções: o PAM apresentou recentemente um estudo que diz que, a curto prazo, podemos ter 45 milhões de pessoas a entrar em insegurança alimentar severa, com fome e subnutrição”, sublinhou.
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Jorge Moreira da Silva considera que a questão deixou de ser estritamente política para se tornar “um drama matemático e logístico”: com as ameaças à circulação no estreito de Ormuz, os elementos da cadeia de produção que garantem alimentos a milhões tornaram-se reféns do conflito.
O líder do UNOPS aponta como possível solução um novo mecanismo concebido para contornar o bloqueio logístico, que, em apenas uma semana, poderá salvar a cadeia de produção global de alimentos.
E, perante o obstáculo da burocracia da guerra, pede aos dirigentes mundiais um mandato político urgente para agir, sustentando que a estrutura “está pronta para ser ativada em sete dias”, faltando apenas “luz verde” internacional antes que a crise atinja o ponto de não-retorno.
O responsável indicou que o golfo Pérsico foi apenas o gatilho de uma crise que já está a asfixiar o mercado de África à Ásia e que, para evitar o pior, o UNOPS tem “o botão de emergência” pronto para ser acionado, garantindo colocar em campo, em apenas uma semana, o mecanismo de resgate da ONU, cujo modo de funcionamento está ajustado, com logística montada, monitores a postos e a estrutura em alerta máximo.