Trump adiou por tempo indeterminado o fim da trégua de duas semanas, atribuindo a decisão a um pedido do mediador do Paquistão e sublinhando a necessidade de dar tempo à liderança “fragmentada” do Irão para apresentar uma proposta. No entanto, afirmou que o bloqueio norte-americano aos portos iranianos, um ponto sensível para Teerão, se manterá.
Numa publicação na rede Truth Social, Trump acusou o Irão de querer manter aberto o Estreito de Ormuz “para arrecadar 500 milhões de dólares por dia”, alertando que esse rendimento poderá ser perdido caso a situação se prolongue.
O presidente norte-americano defendeu ainda que a manutenção do bloqueio, num dos principais corredores globais de exportação de petróleo e gás natural, é essencial para alcançar um acordo com Teerão. “Se abrirmos o estreito, nunca poderá haver acordo com o Irão, a menos que destruamos o resto do país”, escreveu Trump, reforçando a importância estratégica da medida.
Trump tinha anteriormente indicado que não prolongaria o cessar-fogo e tinha advertido para a retoma dos bombardeamentos quando este expirasse. “Dei instruções às nossas Forças Armadas para manterem o bloqueio e, em todos os outros aspetos, permanecerem prontas e capazes, pelo que prolongarei o cessar-fogo até que a proposta do Irão seja apresentada”, escreveu Trump nas redes sociais.
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Antes da intervenção de última hora de Trump, não era claro quando terminaria exatamente o cessar-fogo inicial, tendo o Paquistão indicado que este expirará às 23h50 GMT de terça-feira (07h50 de quarta-feira em Macau).
Esse momento passou sem relatos de nova atividade militar por parte do Irão, que tinha indicado que a trégua terminaria à meia-noite GMT. Teerão não fez comentários públicos imediatos em resposta ao anúncio de Trump. O futuro das negociações de paz mediadas pelo Paquistão ficou incerto após o anúncio.
Um responsável da Casa Branca confirmou que o vice-presidente JD Vance não viajará para o Paquistão para as conversações, como inicialmente previsto, enquanto se aguarda a apresentação de uma proposta iraniana. “Quaisquer atualizações adicionais sobre reuniões presenciais serão anunciadas pela Casa Branca”, disse o responsável.
Em Islamabad, forças policiais e militares fortemente armadas reforçaram a segurança no bairro governamental da cidade, praticamente encerrado, apesar de não estar confirmada nenhuma reunião entre o Irão e os Estados Unidos.

Veículos e motociclos circulam por uma rua decorada com a bandeira iraniana, em Teerão, a 21 de abril de 2026, em meio a um cessar-fogo na região (Fotografia: ATTA KENARE / AFP).
O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, agradeceu a Trump pela extensão do cessar-fogo. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, também saudou a decisão. À medida que se aproximava o prazo inicial da trégua, o Irão ameaçou preventivamente atacar infraestruturas petrolíferas dos países do Golfo caso os seus territórios fossem utilizados para lançar ataques após o fim do cessar-fogo.
Desde a primeira ronda de negociações em Islamabad, Washington anunciou um bloqueio aos portos iranianos. O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirmou que a medida visa atingir as principais fontes de receita do Irão.
“Em poucos dias, as reservas na ilha de Kharg estarão cheias e os frágeis poços petrolíferos iranianos serão forçados a parar”, escreveu, acrescentando que qualquer entidade envolvida no comércio marítimo iraniano poderá ser alvo de sanções norte-americanas.
O Departamento de Defesa dos EUA indicou que as suas forças intercetaram e abordaram um navio “sem bandeira e sob sanções” no âmbito das operações contra redes de apoio ao Irão. A AFP identificou o navio como estando ligado a atividades iranianas. Ambas as partes acusaram-se mutuamente de violar o cessar-fogo.
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Residentes em Teerão disseram a jornalistas da AFP que a vida piorou apesar da trégua, pressionada pelo impacto da guerra e pelas medidas governamentais. “Este cessar-fogo amaldiçoado destruiu-nos”, afirmou Saghar, de 39 anos. “Não conheço ninguém à minha volta que esteja bem.”
“O atual impasse entre os Estados Unidos e o Irão já não é um confronto de capacidades, mas uma disputa de resistência política e poder de negociação”, escreveu Daniel Byman, do Center for Strategic and International Studies. Apesar da incerteza, os mercados bolsistas registaram subidas na terça-feira, sustentados pela esperança de um acordo.
Noutra frente do conflito, Israel e Líbano, que não mantêm relações diplomáticas, deverão realizar novas negociações em Washington na quinta-feira, segundo um responsável do Departamento de Estado. Um cessar-fogo separado de 10 dias foi acordado entre os dois países na sexta-feira e inclui o Hezbollah, cujo lançamento de foguetes em apoio ao Irão arrastou o Líbano para o conflito regional.
A violência esporádica continua, e o exército israelita advertiu civis para não regressarem a dezenas de aldeias no sul do Líbano. Na terça-feira, o exército israelita afirmou que o Hezbollah lançou vários foguetes contra as suas forças, acrescentando que atingiu o local de lançamento.
Os ataques israelitas no Líbano já causaram pelo menos 2.454 mortos desde o início da guerra, segundo dados oficiais libaneses. O Hezbollah afirmou ter lançado um ataque contra o norte de Israel em resposta a alegadas violações do cessar-fogo por parte israelita, sendo a primeira reivindicação desde o início da trégua.