Cultura do “cancelamento” – Correta ou não?

por Gonçalo Lopes
Lisa WongLisa Wong*

O uso corrente das redes sociais origina vários debates em formato online, visto que o uso da Internet alargou a forma como comunicamos numa sociedade cada vez mais global. Este processo criou também um fenómeno cada vez mais comum: a cultura do “cancelamento” (cancel culture, em inglês)

Estes “cancelamentos”, ou acusações, são um ato de resistência em comunidade onde se condena indivíduos, celebridades e até programas por conteúdo ofensivo, desrespeitoso, racista, sexista, entre outros.

A opinião pública mobiliza-se em torno deste ato para expulsar os acusados da esfera social, redes sociais ou mesmo atividades presenciais. Sem o apoio do público, estes são “cancelados”, como se deixassem de existir.

Será esta “hipercorreção” correta ou não?

“Cancelamento” fortalece comunidade

O movimento #MeToo é o exemplo mais conhecido deste fenómeno. Ao expor vários casos de assédio e abuso sexual, milhares de vítimas ganharam voz e identificaram abusadores que se aproveitaram das suas posições de poder em vários setores.

Alguns desapareceram dos ecrãs e foram impedidos de continuar a participar em filmes ou programas de televisão. Este movimento veio principalmente dar luz aos problemas sociais e às desigualdades que ainda se perpetuam.

A indignação do público conseguiu que se alcançassem certas mudanças positivas.

Existe agora uma maior consciencialização em torno da realidade do abuso sexual, encorajando-se as vítimas a não ficarem caladas. Fruto disto, já são várias as empresas a criar um ambiente de trabalho mais seguro.

A título de exemplo, a Disney foi acusada de racismo e de estereótipos em vários dos seus filmes. Em “Dumbo”, os corvos, que ridicularizam o elefante, cantam com uma voz estereotipicamente “negra”, visto por muitos como trocista deste segmento da população.

No ano passado, depois destas acusações terem vindo ao de cima, a plataforma de streaming Disney+ eliminou da sua seção infantil vários dos clássicos de animação, incluindo “Dumbo”. Estes filmes excluídos estariam apenas disponíveis sob controlo parental.

Na Ásia, também se consegue sentir este fenómeno dos “cancelamentos”. Há três anos, vários internautas da China Continental organizaram um boicote à marca Dolce & Gabbana devido aos seus anúncios racistas.

Deverão estes “cancelamentos” continuar a existir?

As redes sociais transformaram-se em autênticos campos de minas, obrigando várias figuras influentes a optar pela autocensura. Todos temos cada vez mais consciência destas questões raciais, culturais, de opressão e de justiça social.

Mesmo erros causados devido à simples ignorância podem levar ao “cancelamento”.

Vários críticos consideram este fenómeno cultural implacável, por vezes até tóxico, pondo em causa a liberdade de expressão. Será que cancelar alguém devido às suas ações ou posições polémicas é a solução? Somos limitados a uma opinião e impossibilitamos os acusados de se defenderem. Em casos mais graves, isto até se pode transformar numa espécie de cyberbullying, quando é incentivado que sejam partilhados publicamente os dados pessoais dos acusados, incluindo o número de telefone e até a morada.

Estes movimentos são ainda mais difíceis de controlar por acontecerem maioritariamente em espaços online.

Porém, a cultura do “cancelamento” não é um fenómeno nada novo.

Os exílios e boicotes existem há séculos, mas o poder das redes sociais fortificou o fenómeno e tornou-o algo único nos tempos de hoje. As vidas pessoais e públicas de cada um de nós estão cada vez mais entrelaçadas. Basta alguém cometer um ato condenável no mundo exterior para existir o risco de ver a sua informação pessoal exposta publicamente.

Podemos ou não acreditar na possibilidade de que as pessoas mudam? E de que uma declaração com 10 anos, e sem grande ponderação, pode não representar a visão atual dessas mesmas pessoas? Tal como afirmou a Disney após retirar vários filmes controversos, estes estereótipos “eram errados e continuam a ser errados, mas em vez de pagar todo o nosso conteúdo, queremos reconhecer os seus efeitos nocivos, aprender com eles e dar início a uma discussão que crie um futuro mais inclusivo”.

Em vez de apelidarmos alguém de “sexista” ou “racista”, devido ao seu comportamento “errado”, não será mais importante dialogar e aprender com estas experiências?

*Vice-presidente da Associação de Intercâmbio Linguístico e Promoção Cultural (LECPA)

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