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China-PLP: “O futuro será promissor”

Viviana ChanViviana Chan

Desde janeiro que Ji Xianzheng ocupa o cargo de secretário-geral para o Secretariado Permanente do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Macau). Em entrevista ao PLATAFORMA, avalia o sucesso da organização nos últimos anos e projeta o futuro das relações bilaterais, vendo na Grande Baía e em Hengqin “espaço” para crescer

-Desde que foi nomeado como secretário-geral, menciona em várias ocasiões que esta plataforma irá oferecer prioridade à luta contra a pandemia e à cooperação comercial. Poderá especificar as medidas a implementar dentro desta estrutura?

Ji Xianzheng – Após o encerramento da Reunião Extraordinária Ministerial do Fórum, os ministros responsáveis assinaram uma declaração salientando a importância de uma luta em conjunto contra a pandemia e na recuperação do crescimento económico. O Secretariado irá focar-se nestas prioridades. No recentemente inaugurado Centro de Intercâmbio da Prevenção Epidémica China-Países de Língua Portuguesa, por exemplo, serão organizados workshops de medicina tradicional chinesa para promover uma cooperação constante e de forma a fomentar trocas económicas e comerciais, promovendo o investimento e ambiente comercial e atividades relevantes nestes países, tanto online como offline. Iremos participar em grandes feiras comerciais tanto na China como em Macau. Serão também organizadas atividades económicas e de business matching na China continental, seminários online focados na economia digital, cooperação entre pequenas e médias empresas, economia marinha, entre outros. O objetivo geral é promover o papel do Fórum através de várias atividades, encorajando todos os envolvidos a tirar partido.

– O Fórum tem um papel importante no desenvolvimento de Macau como plataforma económica e comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (PLP). O que alcançou até agora?

J.X. – Na recente Reunião Extraordinária Ministerial do Fórum, os responsáveis reconheceram todos os sucessos ao longo dos seus quase 20 anos de funcionamento. Desde a sua criação, a cooperação económica e comercial entre a China e os PLP tem crescido. O volume total de comércio entre a China e estes países já ultrapassou os 100 mil milhões de dólares americanos ao longo de cinco anos consecutivos, e em 2021 ultrapassou a marca dos 200 mil milhões. O investimento chinês nestes países também se tem diversificado, excedendo os 86 mil milhões de dólares no final de 2021. Isso foi possível graças ao sucesso do Fórum. E a sua influência continua a crescer. Os seus membros já foram alargados duas vezes desde a criação da organização: em 2017 quando São Tomé e Príncipe se juntou, e com a Guiné Equatorial este ano, marcando assim a união entre a China e os PLP. Ao mesmo tempo, o Secretariado continua a trabalhar com várias organizações internacionais para ter mais visibilidade.

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Por último, o papel de Macau está cada vez mais fortificado. Com o apoio do Governo Central, Macau depende do Fórum para acelerar a sua criação de plataformas de serviço e cooperação comercial. No futuro, irá ainda auxiliar vários destes países lusófonos a participar na construção da Área da Grande Baía e Hengqin, através de Macau. Com várias mudanças no ambiente comercial internacional, e com o esforço de Macau em promover uma diversificação económica, as expectativas quanto ao papel do Fórum têm crescido. Iremos, por isso, coordenar os nossos recursos e fortalecer as medidas implementadas para melhor dar resposta às necessidades.

– A China tem sido um parceiro imensamente importante na luta contra a pandemia nos países lusófonos. Ainda está a oferecer apoio a estas nações? De que forma?

J.X. – Até ao momento a China ofereceu mais de 170 milhões de doses de vacinas aos PLP, tendo conseguido um progresso enorme na cooperação comercial de vacinas com o Brasil e outras nações. Como próximo passo, e através do Fórum, a China está disposta a cooperar com estes países para a transferência de tecnologia e capacidade de produção de novas vacinas, reforço na comunicação e coordenação de certificação e regulamentação das mesmas, apoio à produção local e distribuição igualitária de vacinas a nível global.

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Ao mesmo tempo, a China irá continuar a enviar equipas médicas para os PLP que necessitem, aprofundando a cooperação com hospitais locais, ajudando a atualizar os sistemas utilizados e no controlo sanitário de fronteiras e portos.

– A Zona de Cooperação Aprofundada em Hengqin abriu uma série de novas oportunidades de cooperação económica entre o sul da China e os países lusófonos. O Fórum tem planos de promover estas oportunidades?

J.X. – A construção da Área da Grande Baía e de Hengqin são grandes estratégias nacionais promovidas pelo Governo Central, que oferecem espaço tanto para a China como para estes países desenvolverem cooperação futura através de Macau.

Este ano, o Secretariado convidou representantes da Comissão de Gestão da Zona de Cooperação Aprofundada para uma breve apresentação do sistema regulamentar em Macau, e em junho será também organizada uma excursão especial para os representantes do Fórum, com visitas a grandes cidades da Grande Baía.

A delegação do Secretariado, dentro do que for possível segundo as medidas de combate epidémico, irá ainda visitar outras cidades da China Interior e Países de Língua Portuguesa para trocas económicas e comerciais, promovendo o desenvolvimento tanto da Grande Baía como de Hengqin e a posição de Macau como plataforma. Convidamos todos os representantes envolvidos a participar.

– Como vê o Fórum a recente criação do Gabinete de Cooperação Fiscal dos Países e Regiões de Língua Portuguesa em Hengqin?

J.X. – É o primeiro gabinete com esse efeito direcionado à Lusofonia na China, demonstrando a importância que o Governo chinês oferece à cooperação económica e comercial com estes países. A sua criação vem também ao encontro do objetivo de maior colaboração entre os membros da iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota” na administração e cobrança de impostos, especialmente com PLP, ajudando a que Macau funcione como ponte e que seja criado um sistema fiscal internacional benéfico para todos. Irá prestar auxílio a empresas que queiram entrar nestes mercados ou que se queiram internacionalizar. O Secretariado tem mantido uma relação próxima com o Gabinete e está a planear visitas e atividades de promoção do mesmo no futuro próximo.

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– Delegados e empreendedores do Fórum têm criticado o Fundo de Cooperação e Desenvolvimento da China e Países de Língua Portuguesa. Foram feitas algumas alterações para facilitar o processo?

J.X. – O fundo foi criado pelo Banco de Desenvolvimento da China e pelo Fundo de Desenvolvimento Industrial e de Comercialização de Macau, sendo operado e gerido pelo Fundo de Desenvolvimento China-África. Este Fundo segue princípios com base no mercado, e por isso as suas decisões são independentes, assumindo todos os riscos. Como fundo comercial, possui critérios de investimento rigorosos na escolha dos seus projetos financiados.

Na recente Reunião Extraordinária Ministerial do Fórum, todos os envolvidos salientaram a importância deste fundo na recuperação económica, sugerindo até que os seus critérios de financiamento fossem ajustados para garantir um maior uso. O Secretariado tem estado em contacto com o Fundo e irá dar seguimento à forma como opera para garantir a sua maior efetividade e a cooperação industrial.

– O Fórum tem planos de desenvolver atividades de intercâmbio cultural neste sentido?

J.X. – O Fórum dá grande valor às relações humanas. Desde 2008 que organizamos anualmente a Semana Cultural da China e dos Países de Língua Portuguesa. Dura mais de meio ano e conta com a participação de artistas, artesãos, personalidades do cinema e da televisão e ainda chefes da China Interior, PLP e Macau, para partilharem as suas culturas e desenvolver uma maior compreensão entre as populações. Ao longo dos anos, a Semana Cultural tem atraído imensas pessoas a Macau. Com a situação de pandemia, algumas atividades têm sido organizadas online, com resultados positivos. Ao mesmo tempo, de acordo com uma declaração emitida pelos membros da Reunião Extraordinária Ministerial do Fórum, o Secretariado irá ainda promover a tradução de várias obras literárias lusófonas, para que os leitores chineses compreendam melhor estes países. Também participa ativamente nas atividades do Dia da Língua Portuguesa organizadas na China ao longo dos últimos anos, no sentido de apoiar o ensino da língua.

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– Como vê o futuro desenvolvimento do Fórum Macau no atual contexto internacional? Quais são os maiores obstáculos à cooperação?

J.X. – Com a pandemia e as grandes mudanças que atualmente enfrentamos, juntamente com o crescimento de um movimento contra a globalização e de protecionismo comercial, que afetam não só a economia mundial como também o quotidiano da população, o Fórum enfrenta novos desafios. Mais do que nunca temos de assumir um espírito de solidariedade e desenvolver a cooperação internacional. Devemos criar um sistema multilateral comercial, continuar a promover o comércio e a facilitação de investimentos para uma luta coletiva contra a pandemia e em prol da recuperação socioeconómica global. Com a Declaração Conjunta assinada na Reunião Extraordinária Ministerial do Fórum, demonstramos a confiança e determinação em reforçar a cooperação e intercâmbio, com uma nova energia para enfrentar todos os desafios e riscos associados. Continuará a ser promovido o diálogo e a cooperação, com a integração dos planos de desenvolvimento de cada país, para garantir resultados e benefícios para os povos.

-Está otimista quanto à capacidade do Fórum Macau em elevar as relações sino-lusófonas?

J.X. – Por um lado, devemos assumir uma atitude sóbria e compreender que a situação internacional é turbulenta, com a crescente instabilidade, incerteza e insegurança. Por outro, não podemos também ignorar o facto de a tendência mundial caminhar no sentido da paz e desenvolvimento, algo que a população da China e dos PLP tanto desejam. Como o maior mercado de consumo individual, a China possui grande potencial para o desenvolvimento económico. O Governo chinês recentemente aprovou ainda uma medida para a criação de um mercado unificado, como o objetivo de fortificar o mercado nacional, tirar partido de todas as vantagens de um mercado desta dimensão e oferecer mais oportunidade de cooperação com países interessados em trabalhar com a China.

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Os PLP para além do imenso potencial que possuem, têm exatamente essa vontade de cooperar com a China. Como ponte e ligação entre a China e Portugal, Macau usufrui das vantagens únicas no modelo “Um País, Dois Sistemas”, na Grande Baía e também na participação da construção da Zona de Cooperação Aprofundada em Hengqin. Há um espaço enorme para a China e os PLP colaborarem. Desde que respeitemos o conceito de construção de uma comunidade com futuro partilhado para a humanidade, chegando a um consenso entre todos os envolvidos, salientando as suas forças, inovando e expandindo as áreas de cooperação, o futuro destes países será promissor.

– Na abertura da Reunião Extraordinária Ministerial do Fórum, o Ministro do Comercio da China, Wang Wentao, propôs a expansão de cooperação económica e comercial para a criação de novas dinâmicas. Para além dos projetos sociais mencionados, existirá algum apoio a pequenas e médias empresas?

J.X. – O desenvolvimento de pequenas e médias empresas sempre foi de alta importância para muitos países, e uma parte fulcral no bem-estar da população. Os governos da China e dos PLP sempre se preocuparam com as PME e cooperação bilateral. Recentemente, o Secretariado visitou até uma série de instituições financeiras e associações comerciais em Macau para compreender melhor o contexto atual. A dificuldade no financiamento das PME é um problema comum que limita o seu desenvolvimento, mas as suas causas variam de país para país e requerem estudo e análise.

O próximo passo será continuar a oferecer apoio ao Fundo China-Países de Língua Portuguesa segundo a estrutura do Fórum, promover a cooperação industrial entre a China e estes países e garantir que o Fundo oferece a devida atenção ao financiamento de projetos de pequenas e médias empresas.

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